Naquela aldeia onde durante as noites ainda se consegue ouvir o vento, existe uma figura que não aparece nos registos oficiais, mas que vive na memória de todos. O Homem que conta histórias e estórias.
Ninguém sabe ao certo quando começou. Alguns dizem que herdou o dom do avô, outros acreditam que nasceu com ele. O que é certo é que há décadas, quando o sol se põe e as sombras se alongam pelas ruas, ele ocupa o seu lugar no largo da aldeia. Não precisa de palco nem de microfone, apenas da sua voz, das suas mãos expressivas e da atenção de quem o escuta.
O Largo da Aldeia transforma-se num espaço quase mágico. As crianças sentam-se no chão, de olhos bem abertos, os mais velhos aproximam-se devagar, como quem regressa ao passado que nunca esqueceram. Todos sabem que, ali, não se contam apenas histórias e estórias, preserva-se a alma, e a parte melhor, de uma comunidade.
O contador de histórias e estórias, fala na língua da terra, uma variante antiga, cheia de palavras que já quase não se ouvem fora dali. As expressões carregam gerações inteiras. Há termos que não têm tradução exata, porque pertencem àquele lugar, àquela forma de viver, àquela maneira de sentir o mundo.
As histórias e as estórias que conta são de todo o tipo. Há lendas antigas, passadas de boca em boca, onde surgem figuras misteriosas, rios encantados e montanhas que guardam segredos. Há episódios do quotidiano, transformados em narrativas cheias de humor e sabedoria. E há também histórias inventadas, nascidas no momento, moldadas pela reação do “público”, como se fossem vivas.
Ele ensina. Sem que ninguém se aperceba, transmite valores, memórias e identidade. Ensina às crianças de onde vêm, e lembra aos adultos quem são.
Mas o mundo à volta muda. E como muda. As televisões chegaram, depois os telemóveis, depois as redes sociais. O tempo parece correr muito mais depressa, e as noites já nem sempre são dedicadas ao encontro. Há menos gente no largo da aldeia. Há dias em que o contador de estórias e histórias se senta e espera. Ainda haverá quem queira ouvir?
Ainda assim, ele continua. Ele sabe que a cultura oral não vive em livros nem em arquivos digitais. Vive na voz, na escuta. Vive naquele momento único em que alguém conta e outro alguém recebe.
Alguns jovens, curiosos, começam a aparecer. Gravadores na mão, mas também atenção nos olhos. Querem aprender, registar, compreender. Percebem que aquilo não é apenas passado, é um património vivo.
Numa dessas noites, uma criança levanta a mão e pede para contar também uma história. O Largo da Aldeia fica em silêncio. O contador de histórias e estórias sorri. Talvez seja esse o verdadeiro sentido de tudo… inspirar outros a continuar.
A voz do contador mistura-se com novas vozes. A língua da aldeia resiste, adapta-se, respira. Enquanto houver alguém disposto a contar, e alguém disposto a ouvir, nenhuma história ou alguma estória está realmente perdida.

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