(Colaboradora do Memórias...e outras coisas...)
Dei-te o possível.
Dei-te uma memória de estórias escritas em fios de silêncio. Todos os poemas que nunca soube contar. Os dedos do horizonte numa frase inventada. A paisagem escondida do que sou. As sombras despidas do que ficaste a saber. A sensível concha de uma respiração consentida, inconcebível, tão inteira. O grito longínquo perdido nos relógios desarrumados do tempo.
Dei-te o mar no profundo do olhar, um porto vencido que não sabia amanhecer. Um murmúrio a aguardar pelo corpo do teu nome na singularidade das palavras por dizer.
As horas, sem fôlego, presas à desordem da vida e a imagem viva nos estilhaços desfeitos do rosto e dos espelhos, dos sonhos sem olhos.
Dei-te a singeleza rubra das rosas nos reflexos espantados dos sorrisos. A luz delirante das prodigiosas imaginações. O primeiro céu caído nos braços lentos da noite e as galáxias perdidas da terra, no regresso dos desejos pela pele transparente da lua. Como um ato de amor onde o sentir foi espaço de outras eras.
Em vão são as últimas lágrimas. O coração, sozinho, solta a ausência, baixinho… Decifra o alfabeto poético de todos os deuses que nos embalaram o incansável assombro. Um dia, pó de universo nascido do único sol onde me perdi.
Dei-te o possível na lânguida claridade dos maiores impossíveis. Pelas estradas que naufragam adormecerei os cansaços do peito onde, hoje, já não te existo. E o amanhã nascerá sem lugar, abandonado, numa voz oculta de submerso para sempre.
Paula Freire. Tem curiosidade pelo que se mostra sem intenção: o comportamento que revela mistérios, intimidades. Observa-o enquanto desenha pessoas e fotografa o mundo. As palavras nascem-lhe da escuta atenta do Homem, dos silêncios que deixam vestígios. Escreve a partir de múltiplos lugares. Alguns com rosto, outros sem nome.

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