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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Dei-te o possível

Por: Paula Freire
(Colaboradora do Memórias...e outras coisas...)


Dei-te o possível. 

Dei-te uma memória de estórias escritas em fios de silêncio. Todos os poemas que nunca soube contar. Os dedos do horizonte numa frase inventada. A paisagem escondida do que sou. As sombras despidas do que ficaste a saber. A sensível concha de uma respiração consentida, inconcebível, tão inteira. O grito longínquo perdido nos relógios desarrumados do tempo.

Dei-te o mar no profundo do olhar, um porto vencido que não sabia amanhecer. Um murmúrio a aguardar pelo corpo do teu nome na singularidade das palavras por dizer.

As horas, sem fôlego, presas à desordem da vida e a imagem viva nos estilhaços desfeitos do rosto e dos espelhos, dos sonhos sem olhos.

Dei-te a singeleza rubra das rosas nos reflexos espantados dos sorrisos. A luz delirante das prodigiosas imaginações. O primeiro céu caído nos braços lentos da noite e as galáxias perdidas da terra, no regresso dos desejos pela pele transparente da lua. Como um ato de amor onde o sentir foi espaço de outras eras.

Em vão são as últimas lágrimas. O coração, sozinho, solta a ausência, baixinho… Decifra o alfabeto poético de todos os deuses que nos embalaram o incansável assombro. Um dia, pó de universo nascido do único sol onde me perdi.

Dei-te o possível na lânguida claridade dos maiores impossíveis. Pelas estradas que naufragam adormecerei os cansaços do peito onde, hoje, já não te existo. E o amanhã nascerá sem lugar, abandonado, numa voz oculta de submerso para sempre.

⚜ Lázaro Rios ⚜ 
- heterónimo de Paula Freire -


Paula Freire
. Tem curiosidade pelo que se mostra sem intenção: o comportamento que revela mistérios, intimidades. Observa-o enquanto desenha pessoas e fotografa o mundo. As palavras nascem-lhe da escuta atenta do Homem, dos silêncios que deixam vestígios. Escreve a partir de múltiplos lugares. Alguns com rosto, outros sem nome. 
Acredita que a vida não dá certezas absolutas nem tem respostas fáceis. E que a sensibilidade humana nunca deve ser confundida com fragilidade.
É psicóloga e psicoterapeuta. Publicou “Lírio: Flor-de-Lis” e “As Dúvidas da Existência: Na Heteronímia de Nós”. Este último (em coautoria), assinado pelo seu heterónimo Lázaro Rios, a sua forma de liberdade mais pura e crua. 
Gosta de viver sem ruídos desnecessários e inteira dentro da sua escrita. Tudo o resto são só excessos.

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