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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 18 de outubro de 2026

... quase poema... ou ainda do comboio

Por: Fernando Calado
(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)


A minha avó nunca viu o mar... nem andou de comboio, mas esperou durante uma vida, pacientemente, que chegassem os almocreves, a quem era preciso dar de comer, aquecer ao lume e fazer a cama no amanho da palha nova.

Ouviu dizer que o comboio chegava ao Porto em oito horas e não entendia por que razão os homens tinham tanta pressa, se ela tinha todo o tempo do mundo para viver e ser feliz! Se tinha um ano inteiro para criar os filhos, semear a horta, fiar o linho, tecer a colcha, matar o porco, fazer o fumeiro, aturar o Soto, guardar o Sábado e ser feliz!

És tão linda, Maria Oliveira, minha avó... Hoje vamos passar o serão só nós os dois... Tu bordas uma toalha em ponto de crivo... Talvez uma vizinha se encante e queira comprar... Judia antiga, que nasceu no ritual maior do negócio...

Enquanto tu bordas, eu escrevo coisas que não servem para nada e, assim, passamos a noite!

... Ouvi dizer que agora já se vai de Milhão ao Porto em duas horas... Como os homens têm pressa!

... Mas isso é bom, minha avó... Num serão destes, explico-te porquê, para que a ingratidão não ensombre a nossa alma e possamos sonhar com outros mundos que, ouvi dizer, se perdem de vista lá para os lados da Terra Quente...

... Vamos fazer uma torrada e café no pote. Não te esqueças de lhe deitar uma brasa para que assente!

... És tão bonita!


Fernando Calado
nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança. 
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.

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