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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

ABREIRO


Na serra de Santa Catarina, termo de Abreiro, concelho de Mirandela, 
há uma capela dedicada a Santa Catarina, erecta sob ruínas e restos de muralhas de povoação dos mouros (174). Adiante tratamos destas ruínas.
Há no termo de Abreiro um local com vestígios de civilização neolítica, chamada Arcã [47], e no povo um cruzeiro elegante, onde está o brasão de armas de Diogo de Mendonça Corte Real, ministro de D. João V [48], que foi quem mandou fazer a ponte de Abreiro sobre o Tua, composta de dois arcos, um dos quais gigantesco [49]. Diz a lenda popular que a ponte, a Arcã e o cruzeiro foram construídos de noite pelo diabo, que prometeu também fazer uma estrada da ponte à povoação, a troco da alma de uma moça que lhe entregaria para mais comodamente passar o rio, a fim de ir buscar água a uma fonte sita na margem esquerda.
Segundo as cláusulas do contrato, o diabo daria a ponte concluída numa só noite, antes de cantar o galo. Quando mais afanosa trabalhava uma legião de demónios, carregando, aparelhando e assentando pedras, cantou o galo. Que galo é? – perguntou o rei das trevas infernais. Galo branco – responderam-lhe. Ande o canto – ordenou ele. A breve espaço novo có-cro-có se ouviu. Que galo é? – tornou o mesmo. Galo preto. Pico quedo, vociferou ele. Faltava apenas uma pedra por assentar nas guardas da ponte e assim ficou, pois, por mais vezes que os homens a tenham lá colocado, aparece derrubada pelo diabo no rio na noite seguinte (175).
Na Idade Média, antes de ser bem conhecida a técnica construtiva dos grandes arcos, muitos desabavam, de onde a formação da lenda que atribui ao demónio os que via arrojados ou as obras de superior labor. São frequentes lendas idênticas, e é deveras interessante a que atribui também ao diabo a catedral de Colónia, a fim de conseguir a alma do arquitecto.
Realmente o arco da ponte de Abreiro era muito grande (foi derrubado pela grande cheia de 1909) e parecia lançado sobre um abismo (176).
O cruzeiro de Abreiro, obra de merecimento a um dos melhores do seu género da região bragançana, obedece ao tipo dos monumentos arquitectónicos chamados edículas. Consta de quatro pilares, ligados no alto por outros tantos arcos de pleno centro, que sustentam um tambor e respectiva cimalha, no qual se apoia uma cúpula, tudo de granito local, amarelento, aparelhado.
Toda esta armação, que não terá menos de oito a dez metros de altura, serve de suporte a uma imagem de Cristo e da Virgem, também de granito.
O fuste, todo ilustrado por caneluras, alternando com faixas, cai de um plinto, segundo os modelos clássicos.
A lenda popular, referente ao construtor, dimana de sustentar-se vai em duzentos anos, a cúpula apenas sobre os quatro pilares, sem se fender ou arrombar com eles.
Da Arcã falamos adiante, no artigo Antas (177).
A 27 de Agosto da era de 1343 (ano de Cristo 1305) doou el-rei D. Dinis ao grande comendador de Malta D. Frei Garcia Martins e sucessores a igreja de Santo Estêvão de Abreiro e o padroado dela (178).
Como por mais de uma vez temos de nos referir ao Dicionário do Padre Cardoso, julgamos conveniente transcrever as referências que lhe faz um grande arqueólogo. Diz ele: por três ocasiões no nosso país a classe paroquial prestou em comum relevantes serviços, informando os poderes superiores sobre o que havia de mais notável nas respectivas freguesias. A primeira foi pouco antes de 1747, e sobre as notícias fornecidas por todos os párocos de Portugal formou o Padre Luís Cardoso, a pedido de quem se executou esta obra meritória, um trabalho que ficou incompleto devido ao terremoto de 1775 [50], escapando só o que já estava impresso. Não desanimou o oratoriano, e em 1758 tinha outra vez em seu poder abundante material, também fornecido pelos párocos, que todavia não chegou a coordenar.
Esta colecção conserva-se manuscrita no Arquivo Nacional e dela se aproveitou João Maria Baptista para a execução da sua importante corografia.
Em 1862 procedeu-se a novo inventário de coisas notáveis: esse trabalho, que se conserva, talvez impropriamente, no Ministério das Obras Públicas, foi também de grande auxílio para aquele autor.
A parte propriamente corográfica das respostas aos interrogatórios de 1758 já foi completamente explorada por J. Maria Baptista. A parte antiquária foi também explorada por Emílio Hübner, que publicou as inscrições no Corpus Inscriptionum Latinarum, vol. II, Inscriptiones Hispaniae Latinae.
Borges de Figueiredo também de lá tomou alguns apontamentos como se vê na Revista Arqueológica, e da mesma forma se aproveitou O Arqueólogo Português (179).
Convém também pôr em relevo os serviços prestados às ciências arqueológicas pelo bispo de Bragança D. José Alves de Mariz com a publicação de notável pastoral sobre Arqueologia, de 15 de Outubro de 1897, que por forma brilhante concorreu para o incremento do Museu de Bragança (180).
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(174) CARDOSO, Luís – Dicionário Geográfico..., artigo «Abreiro». COSTA, António Carvalho da – Corografia Portuguesa, 1706, tomo 1, p. 447. Ver adiante o artigo Antas.
(175) Lenda igual se refere à Calçada de Alpajares, também conhecida por Calçada Mourisca, e à ponte a ela ligada, no termo de Poiares, concelho de Freixo de Espada à Cinta. A ponte, de um só arco, muito grande e de má serralharia, sem cimento, causa pasmo pela sua duração de tantos séculos. Ver O Arqueólogo Português, tomo 6, p. 41, onde se refere a mesma lenda aplicada a outra ponte.
(176) Sobre a ponte e o cruzeiro de Abreiro, ver o tomo VI, p. 2, 738 e 739, destas Memórias.
(177) Sobre Abreiro, ver BARROS, Henrique de Gama – História da Administração Pública em Portugal nos séculos XII a XV, 1896, tomo 2, p. 122.
(178) FIGUEIREDO, José Anastácio de – Nova Malta Portuguesa, parte 2, cap. 242°, p. 351, onde diz que a doação está no Livro 3° de D. Dinis, p. 46.
(179) VASCONCELOS, José Leite de, O Arqueólogo Português, vol. 2, p. 62.
(180) Idem, vol. 4, p. 58, e vol. 5, p. 44.
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MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA

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