(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)
– Preto! – foi a resposta instintiva do imigrante, contando as moedas na palma da mão quando o dono da loja de fotografias lhe perguntou como queria a fotocópia. Estive pouco tempo neste estabelecimento, mas, pelo que pude observar, facilmente apostaria que o negócio atual passa muito mais pela impressão e fotocópia de documentos do que pela revelação de fotografias.
Cheguei ao n.º 35 da rua Palmira por indicação solícita dos funcionários da delegação dos Anjos, da AIMA em Lisboa aonde me dirigi para ajudar a resolver um processo de regularização com notórios pormenores kafkianos, como a seguir exponho.
Começarei pela óbvia constatação de um velho rifão: não há ninguém insubstituível! Porém há substituições que podem revestir de maior complexidade e que, quando necessárias, acarretam um prejuízo não negligenciável. É o que acontece com Alexander Loktyushin. Tendo sido selecionado após um restritivo processo de recrutamento, foi encarregado de implementar e gerir um sistema que está na base das tecnologias avançadas que suportam os complexos e inovadores tratamentos do Centro de Neuroterapias Digitais da Fundação Champalimaud onde são acolhidos e tratados doentes com Alzheimer, AVC, Perturbação Obsessivo-Cumpulsiva e Depressão. Se o Alex tivesse de deixar este lugar, obviamente que haveria forma de recrutar alguém para o seu lugar, mas, não seria nem fácil, nem rápido com grande prejuízo para a Clínica e, sobretudo, para os doentes.
O Alex, apesar de estar entre nós há perto de três anos, bem integrado e com garantia de continuidade, com remuneração acima da média e com significativo contributo para o bem-estar de muitos portugueses, no processo de legalização, em curso, por iniciativa da AIMA, enfrentou problemas que tinham acabado com a intimação para abandonar o país no prazo de 20 dias. A razão? A validade do registo criminal do último país onde estivera, tinha caducado.
A necessidade de apresentação deste documento é óbvia e não precisa de justificação. Igualmente se entende que tem de ter validade pois não pode ser vitalícia ou perderia significado. Porém, o documento apresentado, mesmo fora de validade, tendo em conta o tempo que o Alex já leva no nosso país, garantia o objetivo pretendido: quando saiu da Alemanha, tinha o registo limpo pois a validade era posterior à sua vinda para cá. E o facto de estar cá há tanto tempo complica este processo porque, não sendo alemão – esteve lá como investigador – não tem familiares lá, teve de tratar do pedido à distância – se saísse do país, arriscava-se a ser retido no regresso – e precisando apresentar uma tradução certificada, facilmente se esgota o tempo! Não se esgota o objetivo.
Aceite a reanálise do processo e com um novo registo criminal, na mão, dentro do prazo, pediu-me para o acompanhar. Entendi os receios dele e, em boa hora, o acompanhei. Porque, ao retomar a elaboração do processo foi-lhe pedido o original de um documento emitido pela entidade de acolhimento. Intervim. O original está arquivado e não pode ser cedido. Mas, pasme-se, queria o original, para fazer uma cópia! Se é uma cópia que pretende… então já a tem. Não precisa de a fazer. E a assinatura? A assinatura é minha. Posso repeti-la aqui, à sua frente. Convencida, passou à frente.
A Segurança Social, nos bolseiros, é opcional! Está na Lei. Mas não é a primeira vez que esta determinação é aceite pela AIMA. Mesmo assim, recomendamos que os bolseiros se inscrevam. Podendo ser feito on-line, o justificativo vem por e-mail. Foi mostrado ao agente que estava encarregado de rever o processo. Não aceitou. Tinha de lho apresentar em papel – e foi por isso que desemboquei na tal lojinha de fotografias, na bicha para as cópias e impressões.
E, para que queria a tal folha de papel, com o conteúdo de um e-mail? Inacreditavelmente, para o digitalizar! É de loucos! Além de que o reencaminhamento de um e-mail leva consigo os metadados que permitem, se for preciso, rastrear a sua origem e autenticidade… o que não acontece com o pdf.
INACREDITÁVEL!
José Mário Leite, Nasceu na Junqueira da Vilariça, Torre de Moncorvo, estudou em Bragança e no Porto e casou em Brunhoso, Mogadouro.
Colaborador regular de jornais e revistas do nordeste, (Voz do Nordeste, Mensageiro de Bragança, MAS, Nordeste e CEPIHS) publicou Cravo na Boca (Teatro), Pedra Flor (Poesia), A Morte de Germano Trancoso (Romance) e Canto d'Encantos (Contos), tendo sido coautor nas seguintes antologias; Terra de Duas Línguas I e II; 40 Poetas Transmontanos de Hoje; Liderança, Desenvolvimento Empresarial; Gestão de Talentos (a editar brevemente).
Foi Administrador Delegado da Associação de Municípios da Terra Quente Transmontana, vereador na Câmara e Presidente da Assembleia Municipal de Torre de Moncorvo.
Foi vice-presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes.
É Diretor-Adjunto na Fundação Calouste Gulbenkian, Gestor de Ciência e Consultor do Conselho de Administração na Fundação Champalimaud.
É membro da Direção do PEN Clube Português.


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