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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

A Falência de João da Cruz

Depois da rescisão, o empreiteiro pediu à agência do Banco de Portugal de Bragança a reforma sem amortização de três letras no valor de 16,1 contos. 
A agência exigiu o pagamento imediato de dois contos. Cruz pagou um e apresentou como fiador Simão Costa para a restante quantia. Algumas destas letras eram saques de Abílio Beça, que aceitava sucessivamente a reforma das mesmas sem amortização, até que, no final de 1906, o Banco de Portugal alertou a sua agência para não permitir mais ações desta natureza a não ser que sejam acompanhadas de amortização do capital em dívida. Se o valor da amortização não fosse suficiente, João da Cruz deveria “garantir a s/ responsabilidade com hypotheca de propriedade”.
Em Lisboa e no Porto os credores de Cruz não foram tão compreensivos: para reaver o seu dinheiro, o Crédito Predial Português e a Carris do Porto interpuseram processos de execução hipotecária contra o empreiteiro (havendo decerto mais), ficando com várias das suas propriedades.
De realçar que as verbas aqui indicadas dizem respeito apenas a alguns empréstimos tomados em Lisboa e Porto e a algumas letras descontadas na agência do Banco de Portugal de Bragança. O valor agregado não justifica o custo inteiro da obra incorrido por Cruz, ou seja o crédito mal parado da responsabilidade do empreiteiro era muito mais volumoso.
Na altura, o empreiteiro escreveu um pequeno livro onde narrou a sua versão da história, classificando o contrato de “immoral e leonino”, imposto por “homens de nenhuma consciencia”. Na resposta, a CNCF considerou “falsas, insidiosas e gratuitas as accusações que nos faz” e devolveu-lhe as censuras.
No seu livro, João da Cruz frequentemente se queixa do contrato. Por que o assinou, então? O próprio responde: “A explicação está apenas na minha boa fé; em ter eu sido sempre empreiteiro do Estado e portanto habituado a attenderem-me todas as justas reclamações”.
A justificação é razoável. Por norma, o Estado era um cliente mais permissivo do que uma companhia privada. A experiência de João da Cruz com o Ministério das Obras Públicas apontava nesse sentido.
O empreiteiro seria ainda um homem mais habituado a negociar à base de acordos verbais. Quando assinou o contrato em 1903, “manifestando eu hesitação em acceitar tão duras condições […], pelos srs. Directores da Companhia Nacional foi expontaneamente affirmado que […] que nunca seriam applicadas as condições de maior dureza afóra do usual desde que eu provasse estar disposto a bem cumprir”.
Além disso, Cruz negociava com influentes indivíduos da alta sociedade lisboeta. O seu percurso de vida munira-o decerto de uma enorme experiência negocial, contudo, é improvável que alguma vez tenha lidado com homens como Henry Burnay ou os diretores da CNCF. Acanhado perante a distinção dos seus parceiros, firmou o contrato de 6 de julho de 1903.
Por outro lado, o temperamento dos transmontanos, “cujo orgulho consistia em levar a cabo qualquer façanha, mesmo que arriscada”, pode também ser uma resposta. Tratava-se afinal de um caminho-de-ferro, que podia constituir o negócio da sua vida. O percurso de Cruz mostra que ele era um empreendedor habituado a arriscar. Na memória familiar dos seus descendentes ficou a imagem de “um homem que nunca teve medo do futuro”. Emigrara para o Brasil quando poucos dos seus conterrâneos o faziam e já em 1895 contraíra um empréstimo de vinte contos hipotecando “todos os seus bens em geral”. Com a ferrovia, só um quilómetro de via valer-lhe-ia dezassete contos e além disso o seu nome ficaria para sempre ligado ao maior melhoramento da história da província. Desta vez, a aposta foi demasiado alta e o jogo estava viciado à partida.
A CNCF sabia que João da Cruz tinha crédito suficiente para, pelo menos, iniciar a obra e foi permissiva até praticamente ao fim da mesma, o que era atípico, pois as concessionárias raramente eram compreensivas com os imprevistos. A companhia já podia ter denunciado o contrato muito antes, pois desde 1904 que havia salários em atraso. Todavia, nunca exigiu ao empreiteiro “a prova autenticada de que estavam em dia todos os pagamentos do pessoal empregado”. Era algo que não lhe interessava. A CNCF deixou o empreiteiro continuar a obra, concedendo-lhe apenas o mínimo indispensável, através dos adicionais, para levar o caminho-de-ferro até perto de Bragança. Quando isto aconteceu, já com um atraso substancial em relação ao acordo, e perante “a minha confissão de que tinha exgotado todos os recursos pecuniarios para conseguir o cumprimento do contracto”, avançou para a rescisão contratual.
A contra-argumentação da CNCF face às acusações do ex-empreiteiro parece também falaciosa. A companhia alegou premeditação de João da Cruz de parar as obras quando viu que da sua continuação não auferiria mais lucro. Se o fizesse, incorreria em todas as penalidades previstas no contrato. No negócio feito com António Manuel Teixeira, a CNCF viu um subterfúgio para Cruz proteger as suas propriedades dos credores, uma vez que Teixeira seria seu feitor. No entanto, o mesmo indivíduo moveu um processo de execução de dívida contra Cruz (através do Crédito Predial). Por fim, quem verdadeiramente lucrou com a empreitada foi a companhia e não o empreiteiro, como se pode ver no gráfico seguinte.


Entre 1892 e 1910, o rendimento líquido extra-tráfego estagnou. A exceção foi precisamente o período da construção da linha.
O papel de Abílio Beça neste processo não é totalmente conhecido. Pusemos a hipótese de ter empurrado João da Cruz para a assinatura do contrato, que decerto sabia draconiano, mas com o qual podia dizer, pelo menos temporariamente, que realizara a promessa de levar o caminho-de-ferro a Bragança (e com o qual lucraria através dos empréstimos que fez ao empreiteiro). Contudo, Cruz em nenhuma parte da sua justificação censura Beça. Aliás, nem os jornais seus adversários tiraram partido do desaire do empreiteiro e mesmo na memória da sua família ficou a ideia de que ambos eram bons amigos. De facto, nos anos a seguir à rescisão e pelo menos até 1909, os dois homens mantiveram relações negociais, com João da Cruz a aceitar diversas letras de Abílio Beça, descontadas em Bragança.


O valor da dívida e a frequência das letras dão a entender que se tratava de um adiamento constante do pagamento do débito. Além de Abílio Beça, João da Cruz aceitou letras de Henrique da Cunha Pimentel e Narciso Garcia. Sem mais dados, não podemos, porém, adiantar nada sobre o tipo de relação com estes credores. Certo é que Cruz hipotecou ao Banco de Portugal várias propriedades suas para garantir a sua responsabilidade por letras descontadas. A situação do empreiteiro teve impacto sobre as contas da agência, que em 1907 reconhecia que as operações com os diversos concelhos tinham que “contrabalançar a liquidação que se vai fazendo da responsabilidade directa e indirecta do ex-empreiteiro Lopes da Cruz”, embora não tivesse “receio de boa solvabilidade, visto que [a dívida] […] está na sua maior parte, em mãos de proprietarios”. Na pior das hipóteses, as propriedades destes devedores ressarciriam as suas dívidas.
Em 1913, o débito de Cruz ainda não estava completamente saldado, mas o empreiteiro perdera uma grande parte do seu património. Naquele ano, o empreiteiro continuava a residir no solar em Selores e detinha apenas algumas casas e duas quintas. Faleceu em julho daquele ano, sendo sepultado no cemitério de Selores. Do juízo de direito de Carrazeda de Ansiães seguia uma missiva para a Carris do Porto, convidando o seu administrador a assistir à arrematação no inventário orfanológico “a que se procedeu por obito de João Lopes da Cruz, que foi morador na quinta de Zimbro de Cima, freguesia de Ribalonga”. Um triste epitáfio para o homem que levou o caminho-de-ferro até às proximidades de Bragança e ficou arruinado no processo.

Conclusão
Os estudos realizados em Inglaterra sobre a figura do empreiteiro concluem que a sua persona tem características muito variadas, de modo que “it is almost impossible to give an overall picture of what it meant to be a railway contractor for there was so great a variation”.
Uns não se assumiam como figuras públicas enquanto outros não desprezavam as luzes da ribalta; havia-os sem formação superior, mas também havia os que conjugavam um curso de engenharia com a execução dos próprios projetos no terreno; alguns enriqueceram, mas a maioria arruinou-se com as empreitadas que aceitava; a imagem que produziam tanto era a de self-made men aventureiros que procuravam o lucro fácil e rápido, como a de homens íntegros e sérios, de temperamento calmo e bem intencionados tanto para com os seus clientes como para com os seus subordinados.
Algo em comum aos empreiteiros era o facto de terem uma considerável experiência no sector, fosse como surveyor, como empreiteiro de estradas, ou como executante de pequenas empreitadas ferroviárias. Genericamente, todos conheciam bem a maioria dos seus subordinados com quem contavam em diferentes obras. De entre eles, elegiam um agente para o representar no terreno. Geralmente estavam mal equipados para executar a obra em mãos, a qual por norma suborçamentavam ou calculavam de forma muito incipiente, e geriam o negócio do ponto de vista financeiro de uma forma precária e praticamente sem uma sede administrativa e sem procedimentos burocráticos (a negociação à base da palavra dada era comum, sobretudo nos contactos com os subempreiteiros). Acima de tudo, eram homens corajosos, pois mais do que capacidade técnica ou financeira, era necessária muita audácia para assumir uma tarefa extremamente arriscada, que tinha tudo para correr mal, desde logo porque os interesses da concessionária e do seu empreiteiro não eram coincidentes: a primeira pretendia um trabalho com a máxima qualidade; o segundo pretendia maximizar o seu lucro.
Na figura de João da Cruz, encontramos algumas destas características por um lado e por outro apercebemo-nos do completo afastamento de outras (embora sem mais estudos sobre empreiteiros seja difícil generalizar a ponto de definir a persona do empreiteiro português). Assim, Cruz se era um corajoso self-made man, não tinha experiência suficiente para tomar em ombros a construção de um caminho-de-ferro (mesmo enquanto empreiteiro de estradas, só realizara pequenas subempreitadas). Faltava-lhe claramente as boas relações com a finança que caracterizaram, por exemplo, o percurso de Thomas Brassey ou Samuel Peto. Na construção – para a qual estava muito mal equipado –, confiou a direção a um agente seu (o engenheiro Costa Serrão), que o auxiliava nas tarefas mais técnicas, acertando muitos detalhes de forma não-escrita. Popularmente, ficou conhecido como um transmontano de uma integridade férrea, muito embora tenha gerido as suas finanças de forma pouco ponderada, de modo que, tal como tantos outros empreiteiros, acabou arruinado.
O atual conhecimento historiográfico não permite dizer se Cruz era o típico empreiteiro que operou em Portugal ou não. Ao longo do século XIX, várias obras ferroviárias foram encetadas, até à década de 1880 sobretudo por estrangeiros e a partir desta data também por portugueses. Esperamos que este artigo posso contribuir e fomentar o debate sobre estas figuras no panorama nacional.
Em relação a João Lopes da Cruz, o certo é que o seu insucesso fez com que a sua memória só tardiamente fosse evocada e restaurada (ao contrário de Thomas Brassey, por exemplo, o extremamente bem sucedido contractor inglês, cuja memória foi celebrada logo após a sua morte), malgrado os seus esforços terem animado a vida económica de Bragança durante construção e terem dotado a cidade do mais espetacular instrumento de progresso: o caminho-de-ferro.
No próprio dia da inauguração (1.12.1906), a Cruz só foi enviada uma mensagem de saudação, “attendendo a que, tendo o mesmo perdido a sua propria fortuna pessoal na empreza a que se abalançara, não poderia no momento actual o seu estado de espirito permittir-lhe a comparencia em festejos como os que se projectavam”.
Só anos depois, em 1929, os brigantinos reconheceram verdadeiramente o sacrifício do empreiteiro, prestando-lhe duas homenagens com o descerramento de um baixo-relevo com o seu retrato e com a atribuição do seu nome à avenida que ligava a estação ao centro da cidade.

Hugo Silveira Pereira
Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia 
(Faculdade de Ciências e Tecnologia – Universidade NOVA de Lisboa)

Câmara de Mirandela vai requalificar antiga estação da CP

 Um investimento de quase 2,2 milhões de euros, no âmbito do PEDU - Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano- financiado em 85 por cento por fundos comunitários com o intuito de reabilitar o edifício votado ao abandono desde a desativação da linha do Tua.


O edifício da antiga estação da CP de Mirandela vai sofrer obras de requalificação. A emblemática estação construída, em 1887, foi uma referência regional no transporte de mercadorias e passageiros, mas, em 1991, a CP encerrou o troço ferroviário entre Mirandela e Bragança, e a partir daqui, o edifício, em pleno centro da cidade ficou votado ao abandono sem qualquer tipo de requalificação.

Só em setembro de 2019 se alcançou o acordo que permite a reabilitação do edifício. A câmara de Mirandela e a Infraestruturas de Portugal celebraram um contrato de comodato que garante o usufruto de edifícios e terrenos ao município por um período de 50 anos com o compromisso de realizar obras no prazo de três anos.

Fernando Pires

CIM reivindica financiamento de 200 mil euros para estudar o regadio no território

 

A CIM das Terras de Trás-os-Montes pediu ao governo um financiamento específico para a elaboração do estudo para o regadio no território, com o objetivo de implementar uma estratégia integrada neste campo e consequentemente garantir a competitividade do setor agrícola nas Terras de Trás-os-Montes. Isso mesmo foi transmitido à Ministra da Agricultura durante uma reunião que decorreu esta semana, divulgou aquela entidade esta quinta-feira.

Glória Lopes

Projeto "Reconecta-te à Natureza - as aves fazem mais do que cantar" sensibiliza para serviços que a avifauna presta aos ecossistemas

 Controlar pragas, reciclar nutrientes, limpar habitats, aumentar a produtividade agrícola, promover o crescimento florestal: sensibilizar a comunidade para estes e outros serviços de ecossistemas fundamentais prestados pela avifauna com o propósito de informar sobre a sua importância e papel vital e alertar para os problemas que têm provocado o declínio de várias espécies de aves associadas aos ecossistemas agrícolas é o principal objetivo do projeto ‘Reconecta-te à Natureza - as aves fazem mais do que cantar’ da organização não governamental de ambiente (ONGA) Palombar - Conservação da Natureza e do Património Rural.

Fêmea de tartaranhão-caçador (Circus pygargus). Fotografia Palombar.

Este projeto, financiado pelo Fundo Ambiental - Ministério do Ambiente e da Ação Climática e aprovado em outubro de 2020, tem como área de intervenção os municípios abrangidos pela Comunidade Intermunicipal Terras de Trás-os-Montes (CIM-TTM), e visa também capacitar os cidadãos, oferecendo ferramentas que lhes permita intervir de forma sustentável no capital natural presente nesta região, através de materiais lúdico-pedagógicos-informativos e ações de formação. O propósito é alterar comportamentos e promover o envolvimento da comunidade, potenciando uma cidadania ativa, participativa e informada, em prol da sustentabilidade ambiental.

Adicionalmente, o projeto pretende aproximar a sociedade da ciência, através da transmissão de conhecimentos científicos de forma simples e prática, envolvendo diferentes intervenientes com papéis importantes na conservação da biodiversidade, bem como promover uma maior interligação entre os gestores do território e os agentes de conservação da natureza, assegurando uma maior cooperação e articulação em benefício da biodiversidade.

O projeto tem como foco dois grupos de avifauna: os passeriformes e as aves de rapina. No caso dos passeriformes, irá abordar os serviços que estes prestam para os ecossistemas associados a hortas, pomares e florestas; e, no que se refere às rapinas, as ações incidirão sobre espécies diurnas ligadas ao habitat das searas, tendo o tartaranhão-caçador (Circus pygargus) como espécie bandeira, e noturnas, associadas às quintas, apresentando como espécie de destaque a coruja-das-torres (Tyto alba).

Toutinegra-real (Sylvia hortensis). Fotografia Luís Ribeiro/Palombar.

Durante este projeto, serão produzidos materiais diversificados para diferentes plataformas digitais e suportes impressos. O público-alvo é a população em geral, a comunidade escolar e os agricultores, em específico. Vídeos, mupis, cartazes, kits e conteúdos pedagógicos para os docentes abordarem as temáticas do projeto em contexto escolar, sessões de sensibilização, conversas informais e um webinar são alguns dos materiais e ações que integram este projeto.

Vão ser também implementadas, no território de intervenção, entre outras medidas, ações com vista à identificação e monitorização de ninhos de tartaranhão-caçador para promover a sua proteção e sucesso reprodutivo, em estreita colaboração com os agricultores locais, com o intuito de criar uma rede de proprietários agrícolas "Amigos do Tartaranhão-caçador".

De igual forma, o projeto irá promover o seguimento de ninhos de coruja-das-torres e revelar, através de imagens de vídeo em direto e conteúdos multimédia, o comportamento desta espécie no ninho e alertar para a importância de a conservar e proteger.

Sensibilizar e educar para a conservação da avifauna, através de uma relação pedagógica, de proximidade e cooperação, é a chave para assegurar um futuro sustentável a nível local, regional e global, e para preservar a relação de benefício mútuo do binómio Homem-Natureza.

Campo agrícola. Fotografia Palombar.

Aves que ocorrem nos habitats agrícolas estão em declínio: é urgente agir para as conservar

A biodiversidade de avifauna na Europa está a sofrer uma redução sem precedentes. Estudos recentes alertam que 39% de um universo de 170 espécies de aves comuns encontram-se atualmente em acentuado declínio populacional, sobretudo aquelas que ocorrem em habitats agrícolas. Em Portugal, a situação é especialmente dramática para espécies com as quais estamos habituados a lidar no nosso dia-a-dia, espécies comuns, que afinal já não o são. É o caso do pintassilgo (Carduelis carduelis), da andorinha-das-chaminés (Hirundo rustica) e da rola-brava (Streptopelia turtur), esta última com uma diminuição populacional de 80% nos últimos 15 anos.

O declínio das populações de aves selvagens leva a uma diminuição preocupante dos seus serviços para os ecossistemas, afetando o seu equilíbrio e manutenção, e gerando consequências nefastas para os habitats, a biodiversidade e para as comunidades e o seu bem-estar.

Os principais fatores responsáveis por esta perda de biodiversidade são as atividades humanas assentes em práticas agrícolas insustentáveis, a homogeneização e consequente degradação do mosaico agro-silvo-pastoril, o uso de agroquímicos e ainda os impactos diretos no sucesso reprodutivo de várias espécies, como a destruição de ninhos.

Na região de Trás-os-Montes, a agricultura tem um papel fundamental a nível social, ambiental e económico e contribui significativamente para a preservação da paisagem. É, por isso, essencial implementar no território medidas amigas do ambiente que permitam promover uma gestão sustentável dos recursos naturais, que assegure a preservação da biodiversidade, por um lado, e a viabilidade socioeconómica das zonas rurais, onde o setor primário é determinante, por outro.

Os serviços naturais para os ecossistemas tendem a aumentar e a manterem o seu equilíbrio com o aumento da biodiversidade, sendo esta uma componente chave dos ecossistemas multifuncionais. Urge, desta forma, fomentar o conhecimento da comunidade sobre o potencial das aves e das suas funções ecológicas nos ecossistemas, com o objetivo de assegurar a continuidade da interação harmoniosa e sustentável atividades humanas-habitats-biodiversidade, a qual promove benefícios mútuos essenciais para garantir a sobrevivência e o bem-estar de todas as formas de vida. 

Já conhece os filmes que vão estar em exibição, durante o mês de novembro, no Auditório Paulo Quintela?

Ex-bancário de Carrazeda suspeito de desviar 1,8 milhões de euros fica obrigado a apresentações periódicas

 Apresentações periódicas às autoridades. Foi a medida de coacção aplicada pela juíza do Tribunal de Vila Flor a um ex-bancário de Carrazeda de Ansiães, que é suspeito de fraudes que terão causado danos patrimoniais às vítimas estimados em cerca de 1,8 milhões de euros.
Alegadamente, o ex-bancário confessou os factos e como não existe risco de fuga, a juíza aplicou uma das medidas de coacção mais leves.

Segundo a PJ, o ex-bancário, que trabalhou no Crédito Agrícola da Terra Quente, com sede em Carrazeda, é suspeito da “prática dos crimes de falsificação de documentos, abuso de confiança e burla qualificada”.

Acrescenta que os crimes “foram cometidos ao longo de cerca de 10 anos” e que “o arguido abordava os clientes do banco onde trabalhava, com os quais mantinha uma relação de confiança e oferecia-se para colocar as poupanças das vítimas em aplicações financeiras de alta rentabilidade”.

Depois de conseguir o acordo dos clientes, apoderava-se dos valores em proveito próprio e entregava às vítimas um documento falso, como comprovativo da aplicação, para que não desconfiassem.

Através desta actividade fraudulenta, o homem chegou a causar danos patrimoniais estimados em cerca de 1 milhão e 800 mil euros, segundo a PJ.

O Jornal de Notícias avança hoje que “as autoridades fizeram buscas que permitiram encontrar uma lista de lesados com cerca de 100 nomes e que o valor total das burlas poderá ascender a cerca de cinco milhões de euros”. 

Escrito por Rádio Ansiães (CIR)

Dois homens multados por caçarem espécies proibidas

 Dois homens foram multados depois de apanhados em flagrante delito, na zona de Mirandela, distrito de Bragança, a caçarem espécies proibidas, informou hoje a GNR, que identificou também um jovem de 15 anos que os acompanhava.
Os dois homens de 55 e 56 anos foram detidos, na terça-feira, durante uma ação de patrulhamento em que militares da GNR avistaram o grupo, “que instalou, de forma dissimulada, um sistema proibido de captura de aves não consideradas espécie cinegética, nomeadamente de pintassilgos”.

Segundo divulgou aquela força de segurança, foram apreendidos “um aparelho chamariz, três jaulas para aves, duas redes e vários objetos e ferramentas destinados a servir de apoio à atividade ilegal”, além de ter sido encontrada uma ave que foi devolvida à liberdade.

Os detidos foram constituídos arguidos e, presentes no Tribunal Judicial de Mirandela, foi-lhes aplicada uma pena de multa no valor de 500 euros a cada um, com possibilidade de ser substituída por 100 horas de trabalho comunitário.

Foto: GNR

Cogumelos selvagens com menos procura devido ao confinamento

 A pandemia está também a afectar o sector dos cogumelos. Além da meteorologia que até agora não se ter revelado a mais adequada para o surgimento de muitos cogumelos silvestres, o confinamento em Espanha, para onde são vendidos a maioria dos cogumelos da região, estragou o negócio aos apanhadores.
Manuel Moredo da associação Pantorra, sediada em Mogadouro, explica que nos últimos tempos deixou de haver procura.

“As vendas ainda tiveram uma fase alta no início de Outubro, mas, entretanto, os problemas começaram a surgir em Espanha, em particular nas grandes cidades, como Barcelona e Madrid, onde se consomem muitos cogumelos e em princípio consomem dos mais frescos. Desde que está a haver confinamento deixou de haver tanto interesse na apanha porque não tinham saída”, afirmou.

Para o especialista em micologia este é mais um motivo para que se avance para a regulação do sector dos cogumelos silvestres, de forma a evitar a dependência do mercado externo e a manter a mais valia do produto na região.

Manuel Moredo espera que seja possível criar regulamentação através das câmaras ou da comunidade intermunicipal. “Era muito importante. Sei que algumas autarquias do país estão a tentar criar um regulamente próprio e é uma das coisas que aqui no distrito também podíamos fazer”, afirmou.

Além de condicionar a venda de cogumelos selvagens, a pandemia também impediu a realização de encontros e passeios micológicos, bem como de um congresso nacional que devia ter acontecido este outono na região.

Francisco Pires, presidente da Associação Xixorra, também lamenta que não seja possível realizar as actividades micológicas habituais, o que condiciona também a própria investigação nesta área.

“Este ano, na Primavera não foi possível e no Outono também não vai ser, e é sempre uma situação chata porque discutiam-se algumas questões à volta do tema dos cogumelos, havia um encontro e as pessoas que têm alguma afeição pela actividade poderiam ir desenvolvendo, neste caso está tudo no fundo parado, até a nível da investigação e do trabalho que vamos fazendo, este ano vai ser uma no para esquecer nesta área”, afirmou.

Consequências da pandemia a fazerem-se sentir também no sector dos cogumelos selvagens. 

Escrito por Brigantia
Jornalista: Olga Telo Cordeiro

Feiras vão realizar-se em todos os municípios da CIM Terras de Trás-os-Montes

 Para além de Bragança e Macedo de Cavaleiros, os restantes municípios da Comunidade Intermunicipal das Terras de Trás-os-Montes vão manter a realização das feiras quinzenais ou semanais.
Assim, também nos concelhos de Alfândega da Fé, Miranda do Douro, Mirandela, Mogadouro e Vila Flor se mantem a normalidade da realização das feiras, tendo em conta as normas emanadas pela Direcção-Geral de Saúde.

A decisão foi tomada depois do Conselho de Ministros ter referido que era da competência das câmaras municipais determinar a realização das feiras e mercados. Uma vez que os feirantes e público têm respeitado as normas sanitárias e há a necessidade de continuar a apoiar a economia local, a CIM das Terras de Trás-os-Montes decidiu continuar a actividade.

Escrito por Brigantia

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

… quase poema… ou das redações

Por: Fernando Calado
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)

E o pai chegava e trazia da rua um toro de freixo que durava uma noite ardendo, aquecendo a cozinha e o coração da família.
… e eramos tantos!
Os potes coziam… e a paciência da mãe era infinita… 
...e num tempo antiquíssimo ficaram os melhores sabores do mundo, num tempo de memórias, mas sem retorno.
- O caldo está pronto… louvado seja Deus!
O pobre do mundo também deve estar a chegar e tem que comer e aquecer o corpo desvalido, depois duma longa caminhada por esses infindos caminhos de Cristo. 
- Meu filho tens que estudar… já fizeste as contas e a redação?!
Sim mãe… já estudei… e estudei tanto!.. mas sei tão pouco que quase acredito… que sei muito menos que os nossos vizinhos que adivinham o tempo, interpretam os sinais… conhecem as plantas e os animais e escolhem a lua certa para semear o pão nosso de cada dia.
…eu sei mãe que faço redações que tu gostas… mas depois as palavras não têm o sabor do caldo que cozeu no pote grande… nem do galo que assou no vagar das brasas… são só palavras!
… pronto, meu filho… lê-me lá aquela redação que eu gostos tanto!
- Está bem mãe:
A minha escola está pintada de branco… e tem muitos meninos que brincam na cerca da escola… na minha escola aprendi a ler e a escrever… e aprendi a ser feliz!... eu gosto muito da minha escola|
… que redação tão bonita!
Dizias tu e o teu sorriso era de mãe!

Fernando Calado
nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança. 
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.

A aldeia em Arganil que quer regressar à Natureza para salvar o planeta

Numa freguesia de Arganil, há hoje mais crianças do que há 30 anos. A maioria já nasceu em Portugal, filhos dos estrangeiros que repovoaram aldeias entretanto desertificadas. Mas cresce...


Das estradas íngremes avistam-se montanhas e vales, a serra queimada pelo fogo. Mas lá em baixo, nas encostas, há a vida toda. O caminho para Benfeita, a freguesia do concelho de Arganil envolta pela serra do Açor, parece serpenteado por casas de xisto. Foi como se tivesse renascido duas vezes nas últimas duas décadas: primeiro quando começaram a chegar os estrangeiros que a repovoaram, depois quando se ergueu, de novo, das chamas e das cinzas do grande incêndio de outubro de 2017.

Estima-se que vivam mais de mil novos habitantes nos vários concelhos da região, que se estende pelos distritos de Coimbra e Viseu. Estão por toda a parte, nas serras do Açor e da Estrela, reconstruíram casas em ruínas nos lugares que há décadas ficaram desertos por toda a Beira Baixa. Voltaram a trabalhar a terra, plantam e colhem a maior parte dos alimentos que consomem, criam ovelhas. Adotaram quase todos a permacultura, o sistema de "cultura permanente" que torna a vida sustentável. Paradoxalmente, garantem o futuro como nos tempos passados.

“Estamos a trabalhar no sentido de recriar o nível de autossuficiência que estas aldeias tinham há apenas uma ou duas gerações”, diz a escocesa Wendy Howard.© Maria João Gala/Global Imagens

"Não se trata de voltar a uma vida dura de pobreza extrema, mas a uma vida de abundância dentro dos limites naturais, onde o desejo de adquirir cada vez mais desaparece. Temos um caminho a percorrer antes de chegarmos a esse ponto - especialmente quando consideramos a destruição causada pelos incêndios - mas temos uma visão e um plano." Wendy Howard é escocesa, tem 62 anos, é respeitada na comunidade e descreve assim esta forma de vida. Fala no caminho de terra batida que nos leva até à casa que construiu, numa encosta ao cimo da vila, no meio da floresta. Foi ali que recolheu toda a lenha que vai pondo no fogão da cozinha, onde nasceram as compotas e os chás alinhados nas prateleiras em frascos de vidro. São dezenas de variedades que lhe adoçam os invernos. Cheira a maçãs e dióspiros, que acabou de colher. Plantou as primeiras macieiras quando ali chegou, há mais de dez anos, numa decisão "que ponderei bastante e tomei de forma consciente. Aqui, no centro de Portugal, o solo é mais fértil, retém melhor a água e os nutrientes".

O voluntariado que vem de fora
De resto, Wendy sempre gostou de montanhas. "Sinto-me em casa e gosto das pessoas que vivem nas montanhas. São praticamente iguais em todo o mundo: esforçadas, trabalhadoras, respeitadora e justas. E era disso que eu vinha à procura." Trazia com ela os filhos (agora com 22 e 30 anos, entretanto regressados à Escócia) e "procurava um sítio onde pudéssemos plantar a nossa própria comida, onde nos sentíssemos minimamente seguros, porque a situação no Reino Unido já ameaçava tornar-se muito complicada: hoje não há um pedaço pequeno de terra que consigas comprar para plantares, tudo se transformou em enormes produções agrícolas, em quintas gigantes, por isso este tipo de vida não é possível lá. Só se tiveres muita sorte e muito dinheiro para o fazer. E eu não tinha muito dinheiro, mas tinha o suficiente para vir para aqui".

Licenciada em Biologia, Wendy foi designer gráfica, o que, de certa forma, explica a minúcia nos pormenores daquela casa de xisto e madeira, destruída pelas chamas em 2017 e agora já reconstruída. O fogo atingiu a todos naquele 15 de outubro, muitos perderam tudo, a maioria já reergueu as casas e a vida.

"Sinto-me em casa e gosto das pessoas que vivem nas montanhas. São praticamente iguais em todo o mundo: esforçadas, trabalhadoras, respeitadora e justas. E era disso que eu vinha à procura", diz a escocesa Wendy Howard, que vive na Benfeita há mais de dez anos.

Se nos invernos a companhia se queda pelos sete gatos e um cão (que vai com ela para todo o lado), no verão Wendy tem sempre gente em casa. "Recebo a visita de pessoas que vêm de todos os cantos do mundo para aprenderem e trabalharem comigo. Eu gostava muito de viajar, mas agora já não preciso, o mundo vem ter comigo", brinca. Dos sete que recebeu no último verão - voluntários para o campo e para a floresta em troca de alojamento -, cinco ficaram a viver na região. Aliás, o voluntariado é uma prática por ali. Não apenas no verão, por parte de quem vem de fora, mas também dos estrangeiros que vivem naquelas aldeias.

"Pouco tempo depois de cá chegar criei um website", diz Wendy. "Inicialmente mais para a minha família no Reino Unido, para verem o que eu andava a fazer, mas entretanto outras pessoas começaram a encontrá-lo. Foi assim que tudo começou. No ano passado comecei a dar cursos de Permacultura e agora vejo esse projeto a crescer." A escocesa não acredita em comunidades intencionais para a sustentabilidade, como as que vivem "isoladas, fora do resto da sociedade. Muitas delas dependem de fundadores carismáticos para a inspiração e a tomada de decisões. Outras têm um foco mais espiritual/ideológico do que prático - para mim são mais como mosteiros modernos. O que estamos a construir aqui é mais prático e realista. Estamos a trabalhar no sentido de recriar o nível de autossuficiência que estas aldeias montanhosas tinham há apenas uma ou duas gerações. A ideia não é apenas ser sustentável, mas regenerativo do ambiente, da comunidade e da economia local."

"As nossas organizações governamentais tornaram-se tão grandes que não podem tomar decisões contextualizadas e apropriadas para as suas diversas comunidades", sublinha Wendy. No fundo, o que quer dizer é que a regionalização seria o melhor que poderia acontecer ao interior, no sentido de aproximar os centros de decisão das comunidades. "Decisões à distância tornam-se divorciadas de pessoas reais e são facilmente influenciadas por outros interesses", acrescenta. Ela, que acredita num futuro feito de "organização biorregional", sustenta essa tese na relocalização das economias e das redes de distribuição, onde a economia "não se baseie no crescimento, mas na manutenção de uma circulação saudável de recursos, para que todos tenham o que precisam para uma vida feliz e saudável, sem explorar e destruir o nosso ambiente. Isso é criar resiliência e flexibilidade na comunidade com um senso de responsabilidade e autonomia. Esta visão garante também que a riqueza e o poder não se podem concentrar nas mãos de tão poucos", frisa.

"A comunidade criou uma moeda - estrela - que usa para comercializar produtos entre todos, nos mercados, depois de registados numa página da internet criada para o efeito. "Fixamos o preço de cada coisa e depois usamos créditos."

Foi nessa linha de pensamento e ação que, depois dos incêndios, um grupo de moradores da Benfeita (maioritariamente estrangeiros) bateu à porta da da Câmara Municipal de Arganil. "Fomos muito bem recebidos, mas depois de muita pesquisa e aconselhamento a câmara não conseguiu encontrar uma forma de criar a tal entidade dentro da atual estrutura administrativa."

Foi assim que nasceu a ideia de tornar Benfeita uma ecofreguesia. "A comunidade imigrante trabalhou com a junta de freguesia e fomos bem-sucedidos. Benfeita é a primeira freguesia do concelho de Arganil a obter esta designação. Na realidade, é apenas um crachá, mas estabelece a intenção e a capacidade de trabalhar como comunidade para atingir um objetivo", diz Wendy. E foi assim que acabou por nascer a ideia de formar uma associação "para agir como uma organização de cúpula para projetos regenerativos que a comunidade cria na área. Apesar de ainda não estar concluído o processo legal e administrativo, deverá chamar-se ARBOR - Associação da Região de Benfeita para Objetivos Regenerativos. Nesta altura, Wendy e um grupo de amigos e vizinhos estão a reunir vários membros fundadores, que representem todos os segmentos da comunidade e que tenham experiência em áreas diversas: biólogos, ecologistas, administradores, angariadores de fundos.

Saudável e feliz
Elsa, uma holandesa de 34 anos, guia-nos até ao centro comunitário a que chamam de "escola". Mudou-se há três anos para Benfeita, já fez voluntariado no lar de idosos algumas vezes. Foi quando descobriu como gostava de trabalhar com a terceira idade. "Mas os salários são muito baixos, é um dos problemas", diz a antiga professora de Geografia.

Duas gerações: Alice Ventura, 73 anos (esq.), e Elsa Leeft, uma holandesa de 34.© Maria João Gala/Global Imagens

Para ganharem dinheiro, muitos estrangeiros fazem temporadas nos países de origem, precisamente a tomar conta de idosos. Quando chegamos a casa de Laura Williams, no Sardal, tem a mala quase pronta para rumar a Londres por quatro semanas e acompanhar uma idosa. Saudável e feliz

Laura tem 44 anos, chegou à Benfeita há menos de dez, como voluntária na Quinta da Mizarela (projeto Vida Desperta, uma comunidade espiritual, também dedicada a permacultura). "Na altura pesquisei na internet por uma vida diferente. Queria viver perto da natureza." De Portugal sabia muito pouco, só aquilo que os pais lhe contaram da lua-de-mel que passaram na região de Espinho, há muitos anos.

Em Inglaterra foi ativista ambiental, ecologista, com formação de base em ornitologia - o ramo da biologia que se dedica ao estudo das aves. Depois de se mudar para Portugal, viveu cinco anos na quinta, até que um dia encontrou umas ruínas na floresta. Conseguiu saber quem era proprietário e comprou os dois hectares de terreno por 19 mil euros. Na altura, era ela e o marido - que acabou por regressar à Áustria depois do fogo de 2017, traumatizado com aquilo que Laura descreve como "um pesadelo" - deitaram mãos à obra. "Só o revestimento de xisto é que foi feito por uma empresa. O resto fomos nós. Tudo o que é de madeira fizemos por nós, e a madeira era daqui mesmo, da floresta."

As mãos de Laura são calejadas. Nos últimos tempos ela e os amigos cortaram muitas das árvores que apodrecem agora nas encostas, depois de carbonizadas pelo fogo daquele outubro negro. Ali, no Sardal, mora também o irmão, David, que acabou por render-se a Portugal e à serra do Açor. "Tornei-me muito saudável e muito feliz", diz. A irmã conclui: "Ele via-me tão bem que um dia veio morar para cá." De vez em quando recebem a visita dos pais, embora o casal britânico não se adapte completamente àquele modo de vida, mesmo que em férias. "Como a casa de banho é seca [os dejetos são usados para compostagem], a minha mãe tem alguma relutância em ficar aqui. Não está habituada."

Estrela, a moeda de Benfeita
Por maior que seja a vontade de cultivar a terra, é preciso perceber o que ela pode dar, em cada lugar. Ali é difícil cultivar batatas, cenouras e outros hortícolas, mas é sempre a troca de produtos que norteia este modo de vida. "Tenho castanhas, tenho bolotas, posso trocar com outros, por outras coisas."

Laura (a cozinhar num forno solar) tem 44 anos e chegou à Benfeita há menos de dez, como voluntária na Quinta da Mizarela. “Na altura pesquisei na internet por uma vida diferente. Queria viver perto da natureza.”
© Maria João Gala/Global Imagens

"Elsa, como se chama a moeda que usamos aqui?", pergunta Laura à amiga holandesa que aproveitou a nossa boleia para uma visita. "Euros?!", responde Elsa. É uma risada sonora. Não é disso que se trata, afinal. Com o passar do tempo, a comunidade acabou por criar uma moeda - estrela - que usam para comercializar produtos entre todos, nos mercados, depois de registados numa página da internet criada para o efeito, entre eles. "Fixamos o preço de cada coisa e depois usamos créditos", conta Laura.

Todos os dias levanta-se cedo para meditar, entre as sete e as oito da manhã, faz exercício. "É muito importante." Depois responde aos e-mails, passa muito tempo ao computador. Continua uma ativista, agora na luta contra a exploração de lítio na serra da Estrela. Neste outono plantou quatro hectares de floresta, entre os lugares de Sardal e Pardieiros. Por esta altura alguém lhe toma conta da casa, em Portugal, enquanto ganha dinheiro em Inglaterra.

Voltaram a trabalhar a terra, plantam e colhem a maior parte dos alimentos que consomem, criam ovelhas. Tentam garantir o futuro como nos tempos passados.

Bárbara Sá faz parte do grupo de portugueses que se misturam com todas as outras nacionalidades nas encostas e vales. Ela, natural de Braga, e o companheiro, Miguel, natural de Viseu, decidiram há dez anos ir à procura de "um cantinho no mundo, no meio da natureza, que pudéssemos tratar e cuidar". Trabalharam no estrangeiro, juntaram dinheiro e compraram um vale no lugar de Luadas, na serra do Açor. "Apaixonámo-nos pelo ar silvestre deste lugar", diz enquanto uma dúzia de crianças almoçam no Centro Comunitário Folha Verde. Na vila, chamam-lhe escola, embora não o seja.

Também lá está a pequena Olívia, filha do casal, que já nasceu na freguesia de Benfeita. E Bárbara contribui voluntariamente (como todos os outros) para a atividade do centro comunitário. É licenciada em Filosofia e Serviço Social, aos sábados ensina português a adultos estrangeiros. O marido é professor de artes marciais e dá aulas nas localidades vizinhas.


"Quando aqui cheguei, a ideia era viver sozinha com o Miguel, no meio da montanha. Rapidamente percebemos que havia outras pessoas, algumas da nossa idade e com as mesmas ideias. E gostei de me sentir abraçada", conta Bárbara, habituada que estava a ser "sempre questionada e contrariada". Não foi fácil para a família de ambos perceber aquela opção. Com o tempo, Bárbara acredita que uns e outros se vão habituar à ideia. "Quem quer realmente que eu seja feliz vai ter de aceitar que a minha maneira de ser feliz é esta. O amor também é isso."

“A ideia não é apenas ser sustentável, mas regenerativo do ambiente, da comunidade e da economia local.” As 35 crianças entre os 3 e os 12 anos que frequentam o centro comunitário estão em ensino doméstico. O projeto começou antes do incêndio de 2017.© Maria João Gala/Global Imagens

As crianças que frequentam o centro comunitário Folha Verde estão todas em ensino doméstico. Atualmente são 35, entre os 3 e os 12 anos. O projeto começou antes do fogo de 2017, que consumiu as instalações. O Folha Verde acabaria por ficar suspenso um ano, mudando-se para o vale da Lomba do Pousio em outubro de 2018.

E o que fazem as crianças ao longo de todo o dia? "Brincam muito, que é essencial. Aprendem muito sobre as relações, com os outros, consigo próprias - sobre as suas emoções - e a relação com a natureza. Porque tudo se resume a isso: olhares para ti, para o outro e para a terra que te rodeia", conclui Bárbara.

Renascer das cinzas
Na Folha Verde o dia começa pelas 09.30, altura em que se define quais os pais que vão ajudar naquele dia e se fazem turnos de atividade. Cá fora encontramos Adrian Jennings, um dos pais envolvidos no projeto, que cedeu parte do espaço físico. Era um antigo lagar de azeite em ruínas quando o comprou. Carpinteiro de profissão, o inglês de 59 anos foi ajudando a moldar o centro.

O inglês Adrian Jennings cedeu parte do seu terreno para o espaço educativo Folha Verde.
© Maria João Gala/Global Imagens

Juntaram-se vontades e meios, através de um crowdfunding, e assim apareceram os materiais para a cozinha, a sala de refeições, e até uma pequena biblioteca. "A única condição para fazer parte do projeto é os pais terem disponibilidade e energia para o integrar. Não é chegar aqui e deixar as crianças, porque isto não é um jardim de infância nem uma escola."

Cá fora, perto de 20 crianças brincam, saltam num trampolim ou andam de balouço, mas sobretudo mexem na terra. Algumas andam descalças, alheias ao frio de dezembro. Todas sabem plantar, regar e colher da terra.

"Estou convencido de que hoje há mais crianças nesta freguesia do que havia há trinta anos", diz Nuno Pereira, o empresário de Oliveira do Hospital que conhece quase todos os habitantes da região. Leva-lhes pés de framboesas e de mirtilos para plantarem, ajuda nas burocracias municipais, tem estado sempre ao lado da comunidade estrangeira desde o fogo. Por estes dias, alguns desses habitantes de Benfeita estão empenhados em criar uma associação que lhes sirva de base legal para alguns projetos.

Não tem sido fácil renascer das cinzas. "Ainda me sinto agarrada às memórias do que esta serra era antes do fogo." Mas a tragédia do incêndio uniu-os: "Começámos a ter ideias muito mais sólidas sobre o que queremos fazer e o que queremos transformar", diz Bárbara.

Naquela "comunidade não intencional" (como lhe chama Bárbara) há várias correntes políticas e espirituais, com total liberdade. Até porque, na base, todos têm a mesma intenção: "Regeneração daquilo que nos rodeia. Ajudar a mãe Terra a mostrar o que pode ser e todo o potencial que pode ter. É isso que tem de ser o futuro. Não é explorar, não é estar sempre a usar como se tivéssemos algum direito sobre a terra, enquanto afinal todos nós somos parte dela."

Mas não tem sido fácil renascer das cinzas dos grandes incêndios. "Ainda me sinto muito agarrada às memórias do que esta serra era antes do fogo." Mas, por outro lado, a tragédia do incêndio uniu-os: "Começámos a ter ideias muito mais sólidas sobre o que queremos fazer e aquilo que queremos transformar, o que para mim foi altamente inspirador. Ao nível da resiliência, trouxe-nos muito", sublinha Bárbara, ainda surpreendida com os que chegaram já depois do fogo.

Integração com a população local
"A ideia sempre foi integrarmo-nos e aprendermos com os locais. Alguns de nós querem iniciar negócios próprios, querem ajudar. Alguns vão ao lar de idosos e fazem festas de anos lá", conta Bárbara Sá, mesmo que nem sempre a convivência seja fácil com todos. "Por vezes as pessoas não compreendem, é preciso explicar que não estamos a fazer nada de ilegal, por exemplo, com o ensino doméstico das crianças."

Folha Verde, espaço educacional que pretende complementar o ensino doméstico das crianças tendo como base os princípios do Agile Learning Centre.© Maria João Gala/Global Imagens

No centro da Benfeita, Alice Ventura borda um pano de cozinha de linho branco, sentada numa poltrona da moradia que serve de apoio a muitos dos habitantes estrangeiros da região. Aos 73 anos, viúva, é uma espécie de mãe e avó para a comunidade que viu nascer há mais de vinte anos, quando chegou a Benfeita a primeira família de alemães. "Os mais novos foram criados comigo, a menina até dormiu muitas vezes." Os pais, já falecidos, estabeleceram-se com um ateliê de feltro. Depois chegaram Pete e Cynthia, proprietários da Quinta da Mizarela. "Ficámos muito amigos, ainda hoje somos. Vou lá às festas e eles vêm cá", conta Alice, cujo terraço da casa serve de base logística "quando vêm os camiões de França com as comidas deles". Porque para a sustentabilidade que esta comunidade procura "é preciso uma negociação, sermos realistas", como diz Bárbara. "Não é possível produzir tudo o que comemos", acrescenta Laura. Mas é possível "aprender a trabalhar com a natureza, e não contra ela", diz Wendy.

O interesse de Harvard pela Benfeita: Depois do incêndio de 2017, a Universidade de Harvard interessou-se pela Benfeita. No ano passado, duas alunas da Escola Superior de Design da universidade norte-americana criaram o projeto O Que Leva a Levada, desenvolvido em conjunto com o município de Arganil, orientado pela professora Sílvia Benedito, uma arquiteta natural de Silves e licenciada em Coimbra que há anos leciona em Harvard. Durante algum tempo, Inés Benítez Gómez e Melissa Naranjo exploraram o impacto dos antigos socalcos e dos sistemas de gestão da água da região na vida da população local. À pequena escala, é o que fazem agora as novas comunidades. Wendy Howard sublinha esse trabalho tão importante: "Tal como com o projeto Eco-Freguesia, o que se pretende é estabelecer as bases. Neste caso, para o desenvolvimento de projetos de restauro deste património nacional, no futuro."

Paula Sofia Luz

Combate à cana-comum integra ações da 1.ª Semana Nacional sobre Espécies Invasoras

 A 1.ª Semana Nacional sobre Espécies Invasoras (SNEI) decorreu de 10 a 18 de outubro organizada pela equipa da Plataforma INVASORAS.PT, com o objetivo de aumentar a sensibilização sobre as invasões biológicas a nível nacional e combater esta ameaça. No âmbito desta iniciativa, foram organizadas, em todo o território nacional, ações diversificadas de combate às espécies exóticas invasoras em Portugal.

Corte de cana-comum na Ribeira da Vilariça, em Torre de Moncorvo. Fotografia Palombar.

Enquadradas no Grupo Nordeste (www.nordeste.eu), a Palombar - Conservação da Natureza e do Património Rural e a Associação dos Produtores Florestais do Nordeste Transmontano (APFNT) contribuíram para as ações da 1.ª SNEI, através de uma ação de combate à cana-comum (Arundo donax), uma espécie invasora, na Ribeira da Vilariça, em Torre de Moncorvo.

Durante esta ação, que teve lugar de 12 a 26 de outubro, um grupo de quatro colaboradores da Palombar e quatro da APFNT procedeu ao corte e à remoção de canaviais de Arundo donax. Esta espécie invasora é considerada uma praga para rios, lagos e ribeiras devido à sua rápida propagação e consumo excessivo de água.

Combate à cana-comum na Ribeira da Vilariça, em Torre de Moncorvo. Fotografia Palombar.

A cana-comum provoca a diminuição dos caudais de água e contribui para a seca, afetando também o desenvolvimento de plantas ribeirinhas autóctones. Esta é uma espécie muito resistente, de difícil eliminação e, quando secas, facilitam a propagação de incêndios.

As espécies invasoras são uma das principais ameaças à biodiversidade a nível global, regional e local, além de promoverem outros impactos significativos a nível ambiental, assim como no plano socioeconómico.

Saiba mais sobre as espécies invasoras AQUI.

Grifos marcados em Montesinho reforçam rede Sentinelas contra o furtivismo

 O jornal Público acompanhou a equipa do projeto Sentinelas - Rede de Monitorização de Ameaças para a Fauna Silvestre que esteve no Parque Natural de Montesinho nos dias 30 e 31 de outubro de 2020 para marcar grifos com dispositivos GPS para integrar a rede de espécies sentinelas contra o furtivismo.

Grifo. Fotografia Luigi Tozzi/Palombar.

O Sentinelas é um projeto da Palombar - Conservação da Natureza e do Património Rural realizado em parceira com a Universidade de Oviedo, em Espanha, em territórios da Rede Natura 2000 e da Rede Nacional de Área Protegidas, com financiamento do Fundo Ambiental - Ministério do Ambiente e da Ação Climática.

Ao todo, a rede conta já com 12 grifos marcados com dispositivos GPS e está a ser alargada para incluir novas espécies e ferramentas para combater de forma mais eficaz as ameaças para a fauna silvestre.

A reportagem está disponível para assinantes na edição online e foi publicada na edição impressa do dia 2 de novembro de 2020.

Detido bancário suspeito de desviar 1,8 ME a clientes em Carrazeda de Ansiães

 Um bancário de 52 anos foi detido em Carrazeda de Ansiães, no distrito de Bragança, por suspeitas de ter desviado, durante uma década, 1,8 milhões de euros de clientes, informou hoje a Polícia Judiciária (PJ).
De acordo com aquela polícia, o bancário oferecia-se para aplicar as poupanças dos clientes e ficava com o dinheiro para proveito próprio, sendo agora suspeito de ter praticado os crimes de falsificação de documentos, abuso de confiança e burla qualificada.

Os factos suscetíveis de enquadrar os referidos crimes, segundo a PJ, “foram cometidos ao longo de cerca de 10 anos, enquanto o suspeito exerceu funções ligadas à atividade bancária, numa instituição financeira situada na localidade de Carrazeda de Ansiães”.

A investigação policial apurou que “o arguido abordava os clientes da instituição financeira onde trabalhava, com os quais mantinha uma relação de confiança, e oferecia-se para aplicar os montantes correspondentes às poupanças das vítimas em aplicações financeiras de alta rentabilidade”.

“Obtido o acordo das vítimas, o arguido apoderava-se dos valores dos clientes em proveito próprio”, informa a PJ.

De acordo ainda com a informação divulgada, “para a evitar que as vítimas se apercebessem da situação, o bancário emitia e entregava-lhes um documento falso, que pretendia representar o depósito dos montantes que lhe haviam sido confiados numa aplicação financeira efetivamente comercializada pela instituição financeira”.

A PJ concluiu que, “através de tal atividade fraudulenta, o arguido causou danos patrimoniais às vítimas estimados em cerca de 1.800.000 euros.

O detido não tem atualmente ocupação laboral e vai ser presente a interrogatório judicial para aplicação das medidas de coação tidas por adequadas, segundo a PJ.

Foto: AP