terça-feira, 6 de junho de 2017

NÓS: Transmontanos, Sefarditas e Marranos - FRANCISCO LOPES, DR. (BRAGANÇA 1585 – BORDÉUS 1659)

Na galeria dos mais ilustres sefarditas, o Dr. Francisco Lopes merece ocupar um lugar de destaque. Porventura, ninguém como ele conseguiu estabelecer “alianças familiares” com os grandes empórios financeiros e comerciais do seu tempo.

Qual patriarca ou eminência parda, foi cedendo o palco para os seus 10 filhos, 5 rapazes e 5 raparigas, que casou em famílias sefarditas das mais prestigiadas, como se verá. Por agora fiquemos com o testemunho de D. Luís da Cunha, embaixador de Portugal em Londres, referindo-se a um dos casamentos no seio da família:

- Eu me achei em Amesterdão nas bodas de um dos filhos do barão de Suasso, e sua mãe, a quem eu por derrisão chamava a rainha Ester, me perguntou em quanto eu avaliava os cabedais dos convidados que ali estavam, que seriam até 40; e dizendo que o ignorava, me respondeu: - “Bem pode Vª Exª contar sobre 40 milhões de florins, que nenhum mal fariam a Portugal, se lá estivessem”. – “Nem à inquisição, se ela os agarrasse” – lhe respondi eu. (1)

Situemo-nos agora em Bragança no último quartel do século XVI na casa do médico Dr. Francisco Lopes e sua mulher Catarina Álvares. Ali lhe nasceram 2 filhos e uma filha, sendo o primogénito o nosso biografado, Francisco Lopes como o pai e também médico.

Na década de 1590, a comunidade hebreia de Bragança foi varrida por um tremendo vendaval soprado pela inquisição que ali fez largas centenas de prisioneiros. E certamente para não serem presos, Francisco e Catarina pegaram nas crianças e fugiram para a cidade italiana de Livorno. Com eles fugiriam também os Mendes Sotto, seus parentes.

Em Livorno lhes nasceu outra filha, batizada com o nome de Francisca, que viria a casar com Francisco Mendes Sotto, seu tio, fixando-se o casal na cidade de Ruão. (2) Três filhos (as) do casal viriam a casar com filhos (as) do Dr. Francisco Lopes.

Da filha de Francisco e Catarina nascida em Bragança não sabemos o nome. Mas sabemos que casou com seu parente António Mendes Sotto. (3) Em 1632, aquando da “traição de Ruão”, António Sotto era já viúvo e de sua mulher tivera uma filha chamada Isabel Mendes Sotto, que seria a mulher do nosso biografado.

De Livorno, o casal rumou a França, estabelecendo-se em Bordéus, com o velho Dr. Francisco Lopes a receber a carta de “bourgeois” em 27.7.1613. Dois anos depois (22.10.1615), seria padrinho de seu neto Pedro Dias França e, na mesma cidade, viria a falecer em 1630.

O pequeno Pedro era filho de António Dias França, um dos filhos do médico de Bragança e nesta cidade nascido por 1590 e sua mulher Marta Rodrigues. Formado em medicina, Pedro Dias França foi o herdeiro da biblioteca de seu tio e sogro, o Dr. Francisco Lopes.

Nascido em Bragança por 1585, Francisco Lopes não ficaria muito tempo com a família em Livorno. Logo seguiria para a cidade francesa de Montpellier, em cuja universidade foi estudar medicina. Concluiu o curso em dezembro de 1602 e, em 1604, casou com sua sobrinha Isabel Mendes Sotto, como atrás se disse. Ainda em Livorno, em 1606, nasceu o filho mais velho, Pedro Lopes., que seria professor na universidade de Bordéus.

Enquanto o Dr. Francisco Lopes e a família, (incluindo os pais) deixaram Livorno e foram instalar-se em Bordéus, Francisco Mendes Sotto e a família dirigiram-se para a cidade de Ruão, também na França. Em Bordéus o nosso médico foi admitido na respetiva universidade e dois acontecimentos vieram engrandecer o seu estatuto social. Em 1632, teve a honra de ser escolhido para tratar o poderoso ministro de França, cardeal Richelieu, que sofria de uma doença no aparelho urinário. Em outra ocasião, tendo surgido uma forte epidemia na cidade, coube ao Dr. Francisco Lopes dirigir as operações de tratamento público. E de um e outro acontecimento saiu muito prestigiado, pelo que foi nomeado “médico do Rei na universidade de Bordéus”. Faleceu em 1659, sendo enterrado na igreja católica de Saint-Projet. Na verdade, ele sempre viveu como católico. E Jerónimo, um dos seus filhos, foi frade dominicano, cura da igreja de Santo André, matriz da paróquia de Saint-Projet e professor de teologia na mesma universidade.

Dissemos atrás que o Dr. Francisco Lopes foi mestre na política de casamentos de seus filhos e respetivas alianças económicas. Não caberá aqui falar de todos eles menos ainda alongar-nos sobre o assunto.

António Lopes Suasso foi um de seus filhos. Nascido em 1614, o pai destinou-lhe também uma carreira eclesiástica, que ele abandonou. De parceria com seu tio António Dias França meteu-se no negócio das lãs que acabou por dominar. Com o centro em Bordéus e Ruão organizaram uma rede de negócios que lhe permitia comprar em Segóvia lãs de Espanha e conduzi-las para Antuérpia e Amesterdão. O negócio cresceu imenso e ele tornou-se o assentista do governo espanhol na região da Flandres, assim como o correspondente privilegiado dos bancos espanhóis na Europa do Norte. Ao comércio da lã juntou o dos diamantes e pedras preciosas e el passou a intitular-se mercador-banqueiro. Em 1653 mudou-se para Amesterdão e aderiu abertamente ao judaísmo e tomando o nome de Isaac Israel Suasso. No ano seguinte fez “o melhor casamento do mundo” – no dizer de Jacques Blamont, consorciando-se com Violante (Rachel) Pinto, filha do banqueiro Gil (Abraham) Lopes Pinto, grande mercador de açúcar, pau-brasil e diamantes. Violante era já viúva de Isaac Pereira, um rico mercador originário de Vila Flor e proprietário da primeira refinaria de açúcar instalada em terras de Holanda. Violante levou em dote a “colossal” fortuna de 130 000 florins. António Lopes Suasso era então “o judeu mais rico de Amesterdão”. Apesar de judeu, foi nomeado “Fator de Sua Majestade o Rei de Espanha em Amesterdão” e elevado por Carlos II à nobreza de Castela com a atribuição do título de Barão de Avernas le Gras.

Três dos casamentos dos filhos de Francisco Lopes foram celebrados com filhos de Francisco Mendes Sotto. Um deles nasceu em 1620 em Bordéus e foi batizado com o nome de João Lopes. Em 1643 morava em Amesterdão e usava o nome de Jacob de França, aliás, Jacob de Berahel e ainda Francisco de Liz. Era casado com Raquel de Sotto e em 1666 foi síndico da comunidade. Seu filho Abraham Berahel, aliás, Francisco Lopes de Liz, nascido em 1648, cedo rumou para Inglaterra tornando-se um dos banqueiros mais ricos da praça de Londres. Casou com sua prima Rachel Suasso Pinto.

Duas filhas do Dr. Francisco Lopes casaram fora do agregado parental. Uma delas, Francisca Lopes, casou com Rafael Henriques, alias Jacob Israel Henriques, originário de Miranda do Douro, filho de Ana Rodrigues e Francisco Henriques, o manco. Rafael era um prestigiado banqueiro de Bordéus, sobrinho de António Rodrigues Mogadouro. (4)

A outra filha, Catarina Lopes casou com o Dr. Duarte Henriques, originário de Aveiro, de uma prestigiada família de médicos e grandes mercadores. Ainda solteiro, vivendo em Bordéus em casa de seu pai Henrique Fernandes de Cáceres, (5) Duarte foi denunciado à inquisição de Coimbra. Disse o denunciante que eles tinham uma sinagoga em casa e nela “se juntavam  os cristãos-novos portugueses que naquela cidade viviam (…) aos sábados e festas da lei de Moisés se ajuntavam a rezar juntos orações judaicas em língua portuguesa”.

NOTAS e BIBLIOGRAFIA:

1-CUNHA, D. Luís da – Testamento Político, Iniciativas Editoriais, p 57, Lisboa, 1978.

2-ROTH, Cecil – Les Marranes à Rouen, un chapitre ignore de l´histoire des jufs de France, in: Revue des Études Juives, pp. 113-155.

3-António Mendes Sotto fugiu de Bragança para Madrid onde se estabeleceu como mercador. Dali transitou para Ruão, ao final da década de 1620. Terminou os seus dias em Amesterdão.

4-ANDRADE e GUIMARÃES – A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa, ed. Nova Vega, Lisboa, 20--

5-Vivendo em Portugal, Henrique Fernandes foi prebendeiro da universidade de Coimbra e entre as suas atividades refira-se a de armador de barcos de pesca do bacalhau, de parceria com os Biscainhos. Três de seus filhos foram prisioneiros da inquisição e um deles, casado com Ana Maria Mendes de Brito, faleceu nos cárceres.

BLAMONT, Jacques – Le Lion et le Moucheron, Histoire des Marranes de Toulouse,

ALMEIDA, A. A. Marques de – Dicionário dos Sefarditas Portugueses, Mercadores e Gente de Trato, Campo da Comunicação, Lisboa, 2009.

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães
in:jornalnordeste.com

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