Noutros tempos, dezembro era frio, muito frio! Caíam grandes geadas e formava-se codo por todos os lados. Tempo dos capotes de três capas e das samarras d pele de raposa prôs homes e xales prás mulheres.
Miotes e camisolas de lã de obelha, q as patroas faziam ó serão, no lar depois da ceia e de rezar o terço.
A erba desaparecia e os animais de trabalho tinham a bianda prá' judar a aguentar o imberno. No Natal o meu pai achaba q os animais tamém mereciam consuada. E ntão, além das batatas dos recos, da botelha, dos nabos e das caubes, punham-se uns punhados de figos dos recos, e uma mancheia de rabeiras d trigo e pão. Eu ía sem pre co Fancisco levar a bianda.
Púnhamos palha nova nas camas e, depois deles se deitarem, nós sentávamo-nos ao lado e encostávamos - nos á barriga deles.
Eu gostava daquilo!
O Francisco, de bez im quando, contava uma estória.
Olha una bez, eu jå estaba a ressonar ali no quarto e comecei a aubir um ai, ai, ai . Abri a janela e, ca pôrra era aquilo?! Uma abantesma, umfantasma?! Se calhar uma alma penada. Fui logo buscar o pau de marmeleiro. E pus-me a espreitar. Ai, ai, ai e cada bez crecia mais!
De repente,
CATRAPUM,!!
Rebentou q nem um taco da dinamite!
Ca cagaço rapazes! Caratcho, larguei a correr e bim - me deitar aqui cos bois!
Durante praí um mês dormi aqui !
O Francisco num era home de mêdo! E eu, que se recôsa, nem ai, nem meio ai, a janela é q num abro de noute!
António Magalhães

Sem comentários:
Enviar um comentário