sábado, 24 de julho de 2021

Benza-se com a mão esquerda

A sério! Juro mesmo. De oras em quando, dou por mim a benzer-me com a mão esquerda, gesto, que não sei se sabem, era feito pelos antigos quando se deparavam com alguma coisa muito estranha. Persignando-se três vezes com a mão canhota era uma maneira de afugentar o mafarrico, apontado autor de tudo quanto era mau e fora do comum.

Não é que que encontre muitas vezes assim coisas de por aí além, até porque pouca existe já que me cause espanto digno de registo, mas a paginas tantas do viver quando dou por mim, a verificar o que vai pelo mundo e mais a maneira como nós humanos nele estamos nesta era da nossa modernidade, assombro-me.

Não tenho que mais me fazer. Sou de um tempo em que os mais jovens e sem muitas preocupações, mais não fosse por tédio, almejavam mudar o mundo para que ele fosse melhor, mais justo e mais livre. Ainda era rapaz da escola primária num canto de terra esquecido, mas abençoado, não me apercebi, mas sei bem por exemplo dos sucedimentos do chamado maio de 1968 quando o querer mudar encheu as ruas de Paris de rapazes e de raparigas a exigirem que fosse proibido proibir.

Bem sei que lá e noutras bandas se consumiam coisas que faziam rir muito, mas isso é tabaco de outro cachimbo. Considerações políticas à parte, porque hoje são fora de contexto e de tempo, o grosso dos intelectuais ocidentais apoiavam e incentivavam o querer a mudança, algo que para que se saiba, é a única coisa permanente. O resto vai-se alterando.

Mas voltando ao meu espanto e ao meu benzer-me. Sucede que a realidade que vem ter comigo, diz-me de um mundo sem regras de equilíbrio entre o capital e o trabalho, num contexto periclitante para milhões que com toda a insegurança ganham pouco mais que tostões, mas não se procuram soluções de equidade mínima, pois quem pode sabe que os robots estão a chegar para dar e vender. Dizem mesmo que mais tarde até para mandar.

Indo na ligação que se faz tarde. Com os nossos desmandos, o planeta está sobreaquecido e feito um caco, mas quem pode e dever fazer parar a agressão, não o faz porque não interessa aos mais imediatos, insanos e gananciosos interesses. A sua defesa está na onda, mas pouco mais é que uma moda em jeito de folclore.

Seguindo. Nunca se criou tanta riqueza em tão curto espaço de tempo graças à novas tecnologias, mas nunca o valor acrescentado foi tão mal distribuído, chegando-se ao ponto de trinta pessoas deterem metade de toda a riqueza mundial. Nem se pode dizer que são podres de ricos, porque o seu estado é ainda mais que isso. Tirando um ou outro, nunca o mundo foi tão pobre até nos ricos.

Enquanto isto, no jogo de loucos que é a vida, sobre o palco onde a todo o instante pode cair o pano antes do aplausos, as lutas rebeldes ficam-se pelo fascismo higiénico que pretende impor modos de vida, pelo se questionar se o pirilau e a pombinha chegam para nos fazer o género, pelo se não poder comer um ovo porque se mata um bebé, e pelo se tapar a alma que devendo ser branca se não pode ou não se consegue mostrar.

Diria mesmo que as almas e o discernimento, estão tapados pelo manto da estupidez, que não pagando impostos ainda que ocupe lugar, anda à solta quem nem uma cavalgadura desabrida.

Não lhe ouço os cascos a baterem nas pedras da calçada na noite escura, mas que a sinto, lá isso sinto. Por isso me benzo quando calha, três vezes com a mão esquerda. Experimente e verá que se sentirá melhor. A sério.

Manuel Igreja

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