(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
O tio Manel era o “pastor de crianças”, nos longínquos anos 70. Todos os dias saía para o seu passeio até à bouça conhecida como Fonte dos Alhos, nome herdado de uma famosíssima fonte de águas cristalinas que lá existia. Atrás dele, materializava-se um “rebanho” de crianças saídas de todos os lados e que o seguiam num acordo tácito de que estariam vigiadas por um adulto.
Durante umas horas, enquanto ele descansava sentado numa pedra, a criançada corria e saltava em volta das árvores e pelos caminhos calcados que enxameavam o pequeno bosque. Aqueles momentos, representavam para mim uma aventura em terras longínquas, a dez minutos de distância da segurança da minha casa.
Mas o papel do tio não se esgotava aí; a par da mulher, o ti Manel Padeiro e a tia Laura, eram um dos casais emblemáticos da Ilha do Costa. Na altura, quase todos os adultos eram tios e tias, pelo que eu não sabia ainda que ele era irmão do meu avô Domingos, pai da minha mãe, que também residia noutra casa na mesma ilha.
Ele era o “mau exemplo”, divertido, não perdia uma oportunidade para fazer uma partida a alguém, de que se gabaria sempre que pudesse.
A minha mãe contava que, estava ela casada há pouco, mostrou-lhe uns enchidos que tinha comprado no Alentejo e que estavam esbranquiçados. Ele respondeu de imediato que estavam estragados e que não os comesse. O meu pai disse-lhe depois “Ele levou-os não foi? Consolaram-se a comê-los!” Durante muito tempo o tio Manel quando passava pela minha mãe perguntava-lhe, divertido, se havia mais chouriço estragado…
A tia Laura era trocista e acompanhava nas brincadeiras, mas era a mais silenciosa do casal. O seu divertimento fazia-se a distorcer o sentido das palavras dos outros e a trazer a conversa para a malícia. Referindo-se à minha bisavó Rita, mãe do marido e que casou com dois irmãos, dizia que tinha tido um filho de cada pai, o que era quase verdade.
Nos tempos em que as crianças nasciam em casa, foram as suas mãos que trouxeram muitas delas ao mundo. Para ela, todas as dificuldades tinham um lado melhor que outro e enquanto houvesse que comer, haveria de dar para todos.
Quando eu ia lá a casa, havia sempre algo para oferecer, um afago e um beijo, mesmo correndo eu pelo bairro todo quase diariamente. À medida que os anos passaram, a Fonte dos Alhos continuou o sítio preferido de brincadeiras, depois com companheiros mais crescidos, que não necessitavam da vigilância dos adultos. Os meus caminhos foram-se distanciando daqueles locais de infância, da Ilha do Costa e dos tios-avós que lentamente desapareceram na bruma da existência, mas nunca foram esquecidos.
Manuel Amaro Mendonça é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
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