Mensageiro de Bragança: Como foi assumir, pela primeira vez, uma mulher os destinos da autarquia? Sentiu alguma desconfiança por parte de colegas e funcionários pelo facto de ser mulher?
Maria do Céu Quintas: Sempre trabalhei num “mundo de homens”. Antes de ser eleita presidente de Câmara, fui vereadora, vice-Provedora da Santa Casa da Misericórdia, professora e fiz carreira no setor bancário. Em todas estas etapas, nunca me senti diminuída, nem nunca ninguém me diminuiu pela circunstância de ser mulher. Tive, sim, gosto e orgulho em ser presidente de Câmara, e ter contribuído para melhorar o meu concelho.
MB.: Acha que a situação evoluiu até aos dias de hoje? De que forma?
MCQ.: Julgo que sim. Para além do contributo da Lei da Paridade, tem havido, ao que me apercebo, uma crescente participação feminina no exercício de cargos políticos e também no contexto partidário.
MB.: Que constrangimentos sentiu?
MCQ.: Sinceramente, nunca senti qualquer constrangimento. Enquanto presidente da Câmara fui sempre bem recebida, independentemente dos Governos com quem me relacionei.
MB.: Na sua opinião, que características/qualidades pode aportar uma mulher a um cargo autárquico relativamente a um homem?
MCQ.: Repito, a esse propósito, o que manifestei, numa ocasião, quando era presidente da Câmara. Simone de Beauvoir, figura de referência do movimento Existencialista referiu, um dia, que: “não acredito que existam qualidades, valores, modos de vida especificamente femininos: seria admitir a existência de uma natureza feminina, quer dizer, aderir a um mito inventado pelos homens para prender as mulheres na sua condição de oprimidas. Não se trata para a mulher de se afirmar como mulher, mas de tornarem-se seres humanos na sua integridade”.
O importante é o caminho das escolhas e, através delas, como tomamos decisões.
MB.: O que é preciso para haver mais mulheres na Política?
MCQ.: Ainda antes da chamada Lei da Paridade, sempre tivemos mulheres na política, inclusivamente uma Primeiro-Ministro e, também, Presidentes de Câmara. Obviamente que essa Lei impulsionou a participação feminina, mas continuo a acreditar que o exercício de um cargo político tem de nascer, sempre, da vontade própria.
MB.: No contacto com autarcas masculinos dentro, da CIM ou associações de municípios viu/sentiu alguma hostilidade?
MCQ.: De todo! Antes pelo contrário. As reuniões e os contactos institucionais pautaram-se sempre com a normalidade própria.
MB.: Em Freixo, foi a primeira mulher presidente da Câmara. Como sentiu esse facto?
MCQ.: Senti-me agradecida pela confiança. Propus-me fazer o melhor que sabia e podia.
Nunca alimentei um discurso feminista. As pessoas são iguais nos seus direitos, é assim que eu me vejo.


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