Durante uma audição da Comissão de Agricultura e Pescas, representantes de criadores de ovinos e equinos defenderam que a conservação do lobo ibérico não pode continuar a ser feita “à custa dos produtores” e pediram medidas urgentes para travar aquilo que classificam como uma “destruição silenciosa” do mundo rural.
“Os ataques de lobo estão a destruir a pecuária tradicional do Norte de Portugal e a empurrar produtores para o abandono da atividade”, denunciou Rafael Azevedo, da UPGALL – União de Produtores de Gado Lesados pelos Lobos.
O responsável alertou para perdas que ultrapassam o impacto económico imediato. “Falamos de património genético preservado ao longo de gerações, de raças autóctones que fazem parte do património nacional”, afirmou.
Na audição participaram ainda representantes da ACOB – Associação Nacional de Criadores de Ovinos da Raça Churra Galega Bragançana, da ACERG – Associação de Criadores de Equinos da Raça Garrana, da Associação de Criadores de Ovinos da Raça Churra Galega Mirandesa / Ovinos Mirandeses e do Grupo Lobo – Associação para a Conservação do Lobo e do seu Ecossistema.
As críticas centraram-se sobretudo na demora dos processos de averiguação e no pagamento das compensações do Estado. Os produtores queixam-se de avaliações demoradas, indemnizações incompletas e dificuldades administrativas que, dizem, tornam insustentável a continuidade da atividade.
“Nunca houve tantos problemas como há agora com o lobo”, afirmou Jorge Manuel Laranjinha, da ACOB. “Os ataques têm-se sucedido e, quando matam, não é um animal, é à dúzia”, acrescentou, relatando um caso em que “morreram mais de 30 animais e apenas 15 foram pagos”.
Andrea Curtinhas, representante dos criadores de ovinos mirandeses, afirmou que os produtores “já não conseguem continuar a suportar o peso da proteção do lobo ibérico”.
“Estamos aos poucos a destruir a produção animal. Não podemos preservar animais selvagens sem proteger a produção pecuária”, advertiu.
Também José Antonio Leite, da ACERG, alertou para o impacto crescente dos ataques na preservação da raça garrana, considerando que “salvar o lobo não pode significar condenar raças autóctones”.
Apesar do tom crítico, as associações frisaram não defender qualquer perseguição à espécie protegida, mas exigem um equilíbrio entre conservação ambiental e sustentabilidade da atividade agrícola.
Do lado parlamentar, houve consenso quanto à necessidade de rever os mecanismos de apoio aos produtores.
O deputado do PSD Fernando Queiroga afirmou que “o lobo tem de ser preservado, mas não à custa do produtor”, garantindo que o partido vai trabalhar para agilizar os processos de indemnização.
Pelo PS, Pedro do Carmo considerou que “não é solução que a proteção do lobo seja feita pelo esmagamento dos produtores de raças autóctones”, prometendo iniciativas de apoio ao mundo rural.
Pedro Frazão, do Chega, defendeu que “o peso da conservação do lobo ibérico não pode cair sempre sobre os mesmos”, alertando que muitos produtores poderão abandonar a atividade.
Já Jorge Pinto, do Livre, considerou essencial reduzir a burocracia para aproximar produtores e conservação da natureza, enquanto Alfredo Maia, do PCP, questionou os mecanismos existentes para acelerar a averiguação dos ataques e o pagamento das indemnizações.
O presidente do Grupo Lobo rejeitou críticas sobre alegados subsídios estatais à associação e assegurou que a organização está “do lado da resolução dos problemas”, defendendo medidas de prevenção e maior apoio aos criadores.
Em dezembro de 2025, a ministra do Ambiente anunciou que o Governo iria duplicar o valor das indemnizações pagas aos produtores afetados por ataques de lobo. Nesse ano, foram registadas 435 mortes de animais atribuídas a alegados ataques de lobos, depois de 670 ocorrências contabilizadas em 2024.
O Programa Alcateia 2025-2035, lançado pelo Governo, prevê para 2026 um orçamento de 3,3 milhões de euros destinado à proteção do lobo ibérico e à compensação dos produtores afetados.
Segundo os dados oficiais, Portugal conta atualmente com quatro núcleos populacionais da espécie, Peneda/Gerês, Alvão/Padrela, Bragança e Sul do Douro, totalizando 58 alcateias, das quais 56 estão confirmadas e duas são consideradas prováveis, numa população estimada em cerca de 300 animais.

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