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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Como estão as ondas de calor estivais a mudar o turismo

 Segundo os especialistas, o aumento da frequência e da intensidade das ondas de calor faz parte do futuro, mas os destinos e os viajantes estão a adaptar-se depressa.

Filippo Bacci, Getty Images - O Arizona alcançou 43ºC em Março de 2026, durante uma onda de calor primaveril sem precedentes.

Para Heike e Robert Taylor, dois viajantes experientes, a sua estadia na Umbria durante o Verão de 2022 foi um ponto de viragem. As memórias do casal de uma viagem stressante ao vale do Loire em Julho de 2019 – quando a região derreteu sob um calor de 40ºC – ainda estavam frescas, mas eles foram perseverantes e reservaram uma villa italiana para um grande encontro de família. 

Os membros do clã Taylor adoram explorar durante as férias. No entanto, a onda de calor que se abateu sobre a região central de Itália naquele Verão foi tão feroz que eles acabaram por sair mais cedo da casa que tinham arrendado. “O que foi realmente assustador foi estar deitada ao lado da piscina e ver o fumo dos incêndios florestais lá ao fundo e os helicópteros a voarem para apagar as chamas. Acho que nunca me vou esquecer disso”, diz Heike. Quando regressou a casa, o casal jurou para nunca mais. Agora, o pico do Verão é passado na sua casa, no Surrey, e arredores – e os meses meia-estação de Maio e Setembro estão reservados para férias activas em locais como a Sicília e a Córsega.

É um padrão que se tornou comum entre os viajantes à medida que as ondas de calor deixaram de ser anomalias desconfortáveis para se tornarem eventos quase anuais altamente disruptivos. O Verão de 2022 foi particularmente extremo, com um número estimado em 60.000 mortes relacionadas com o calor na Europa, a China a murchar sob uma onda de calor inédita de 70 dias e algumas zonas do Reino Unido a ultrapassarem os 40°C pela primeira vez, em Julho. No mesmo mês do ano seguinte quase 20.000 pessoas, muitas delas turistas, tiveram de ser evacuados da ilha grega de Rodes devido a incêndios florestais exacerbados por uma onda de calor.

As ondas de calor também estão a espalhar-se pelo calendário. Em Maio de 2022, a agência meteorológica espanhola Aemet relatou uma onda de calor com uma ‘intensidade extraordinária’, com temperaturas até 15ºC acima da média sazonal. Em 2023, um calor forte prolongou-se Setembro adentro em França, afectando o Campeonato Mundial de Râguebi. E grande parte do sudoeste dos EUA foi assolada por uma onda de calor em Março deste ano, com as temperaturas a alcançarem 43ºC em algumas zonas do estado do Arizona. Nas palavras de António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, “o calor extremo já não é um evento raro – tornou-se o novo normal”.

Oleh Slobodeniuk, Getty Images - Com temperaturas entre os 15ºC e os 22ºC em Agosto, a Finlândia está a tornar-se cada vez mais popular entre os viajantes que procuram ‘férias frescas’.

Em termos estatísticos, não existe uma definição universal para uma onda de calor. Há demasiada variabilidade nas temperaturas globais. Contudo, refere-se sempre a um período de temperaturas anormalmente altas durante dias consecutivos. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) adopta a definição da Organização Meteorológica Mundial para onda de calor, evento que ocorre “quando, num período de pelo menos 6 dias consecutivos, a temperatura máxima diária é superior em 5°C ao valor médio mensal do respectivo local”. Já o Gabinete de Meteorologia do Reino Unido define uma onda de calor como pelo menos três dias durante os quais as temperaturas máximas ultrapassam um limiar regional. Em Londres, esse limiar é 28ºC. Na Escócia, 25ºC. Ambos seriam considerados amenos para um sítio como Atenas.

Com a actividade humana a impulsionar ‘inequivocamente’ o aquecimento global e o aumento de eventos climáticos extremos, segundo o Painel Intergovernamental Sobre Alterações Climáticas das Nações Unidas, a situação só pode piorar. “Temos bastantes certezas de que, nas próximas décadas, se não séculos, só vai ficar mais quente”, diz Alejandro Saez Reale, especialista em ondas de calor e no seu impacto da Organização Meteorológica Mundial, em Genebra. “O impacto nos países que dependem do turismo poderá ser enorme.”

A Europa está no epicentro das dificuldades turísticas relacionadas com as ondas de calor. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, é o continente que está a aquecer mais depressa em todo o mundo e é também o mais visitado. França, Espanha, Itália e a Grécia são nomes sempre presentes na lista dos 10 principais destinos. Cada vez mais popular, a expressão ‘férias frescas’ resume muito bem a tendência emergente de viajantes de todo o continente que procuram locais mais temperados.

Os destinos no norte da Europa e na Europa de Leste são dos que estão a crescer mais depressa em termos turísticos, segundo o relatório apresentado pela European Travel Commission (ETC), com a Finlândia, a Noruega, a Polónia e a Islândia a registarem um aumento de visitantes na casa dos dois dígitos. Um estudo conduzido pela ETC em 2025 concluiu que 81% dos europeus estavam a ajustar os seus hábitos de viagem ao clima em mudança, com 15% a procurar activamente climas mais frios e 14% a evitar destinos propensos a calor extremo. Operadores turísticos como a TUI e a Thomas Cook também relatam uma procura crescente pelos países nórdicos.

No entanto, França (102 milhões) e Espanha (96,8 milhões) continuaram a ser os países mais visitados do mundo em 2025, segundo o Turismo da ONU. Itália ocupou o quinto lugar (64,5 milhões). A taxa de crescimento pode ter abrandado, mas o número de visitantes a estes países não está a diminuir.

A Association of British Travel Agents (ABTA) está céptica em relação à possibilidade de as ondas de calor terem a capacidade de redesenhar o mapa turístico, pelo menos no curto prazo. “O feedback que recebemos dos nossos membros sugere que, de um modo geral, as pessoas continuam a viajar como sempre, desfrutando de destinos mediterrânicos durante os meses de Verão”, disse um porta-voz. “O aumento do interesse em destinos ligeiramente mais frescos continua a ser a excepção e não a regra.”

Existem grandes incentivos para os destinos dependentes do turismo assegurarem que as ondas de calor não desencadeiam um êxodo turístico. Isto está a promover inovações que, a seu tempo, poderão tornar-se generalizadas. Sevilha, situada numa zona de Espanha conhecida como ‘forno ibérico’ devido aos ventos que sopram vindos do norte de África, é o epicentro de um dos países mais afectados por ondas de calor em todo o mundo. Os sevilhanos estão habituados a medidas requintadas para mitigar o calor, incluindo sistemas de aspersão de água alimentados por águas pluviais em zonas muito movimentadas, uma rede de câmaras subterrâneas semelhantes a aquedutos que podem baixar até 9ºC a temperatura ambiente ao nível da rua, toldos que cobrem as ruas e ‘ilhas urbanas frescas’ – santuários com vegetação densa que também existem em Los Angeles, Singapura, Paris e dezenas de outras cidades.

A criação de horários de visita nocturnos em atracções como o Real Alcazar de Sevilha é outra medida ditada pelo senso comum. O conceito de ‘nocturismo’ – visitar os locais de interesse após o anoitecer, em parte para mitigar as temperaturas altas diurnas – está a ser adoptado noutros sítios, desde o Coliseu de Roma à Acrópole de Atenas, que enfrentou encerramentos regulares no pico do Verão devido às ondas de calor recentes.

A Arcas Travel Services, que organiza viagens na Grécia, diz que começou a empurrar as suas viagens a sítios arqueológicos para a meia estação de modo a evitar o encerramento de sítios importantes devido ao calor. As viagens de ciclismo promovidas pela empresa também estão a ser organizadas de modo a começarem e acabarem mais cedo. Frequentemente, é a operadora e não os turistas a tomar a iniciativa, realçando uma das preocupações-chave: a falta de consciência sobre os perigos do calor extremo.

Mehri Khosravi é uma especialista em calor da University of East London e cresceu em Teerão, onde não é invulgar as temperaturas ultrapassarem os 40ºC. A investigadora diz que parte do problema é a ausência de uma “cultura de calor” nos turistas que visitam as regiões afectadas por ondas de calor – adaptações sociais e comportamentais que vão desde o vestuário ao planeamento do dia. “A percepção ainda é que o calor é uma coisa desejável”, afirma. “O comportamento [no turismo] vai ter de se adaptar e a comunicação de risco será fundamental.”

O crescente rigor das previsões meteorológicas a longo prazo é um grande trunfo no que diz respeito aos alertas climáticos. Saez Reale acha que vai ser cada vez mais comum os serviços meteorológicos comunicarem com os organismos turísticos sobre o clima extremo, da mesma forma que comunicam actualmente com as autoridades de saúde. Outra das tendências previstas é os turistas reservarem as suas viagens para mais tarde e serem mais flexíveis em termos de destino e datas. “As boas notícias é que há muita coisa que se pode fazer”, afirma. 

StevanZZ, Getty Images - Umbria é uma região italiana que tem sido assolada por incêndios florestais durante o Verão.

As vantagens das alterações dos padrões turísticos motivadas pelo calor são possíveis de ver. Uma delas é o potencial de uma distribuição mais homogénea dos viajantes, tanto geograficamente, como em termos sazonais. O turismo exerce uma pressão enorme sobre recursos naturais como água e cuidados de saúde – sobretudo em épocas de calor. O investimento em infra-estruturas resilientes ao clima para acalmar os turistas preocupados também traz benefícios evidentes para as populações locais.

No entanto, o ponto mais positivo, segundo Jenny Southan, directora executiva da agência de previsões de tendências de viagens Globetrender, pode ser a mudança de perspectiva. “Os turistas estão a tornar-se mais conscientes em relação ao clima, mesmo que haja uma tensão inerente entre o desejo de explorar e os custos ambientais de o fazer. As pressões exercidas pelo clima podem funcionar como catalisador para uma era turística mais ponderada e intencional.”

Para os convertidos à meia-estação, como Heike e Robert Taylor, as ondas de calor podem ter alterado a estrutura e o ritmo do seu ano, mas não necessariamente para pior. “Viajar mais cedo ou mais tarde, em vez de no pico do Verão, pode permitir-nos ter uma noção mais autêntica de como um sítio é na verdade”, diz Heike.

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.

Duncan Craig
Actualizado a 17 de junho de 2026

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