(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)
...continuação
Um repentino e forte vendaval soprou de nascente, dos lados de Bragança, fazendo agitar os castanheiros de inquietação.
- É berdade! Eram mesmo grães da mesma ´spiga...Credo, quinté fic´á gente arrepiada.
- A este, mataram-no à ´stadulhada, por o que me contas e o meu Tchico Zé foi morto à traição, por trás. Só assim é que conseguiram dar cabo dele. Doitro modo, cara a cara, num sei s´os três tchigariam pra ele. O Cipriano ´spatou-l´uma nabalhada nas costas quinté le furou o pulmão.
- Oh...sabemos lá c´mé cas cousas se passaram...
- Sabemos, sabemos. – afirmou convictamente com acenos de cabeça. - O Adriano lá contou tudo no tribunal ó juíz. Lá dixo qu´o meu Tchico Zé ´staba descuidado imentes o Adriano le passaba as notas prás mãos e que o Cipriano beio sorrateiro por trás co a nabalha e ´spatou-o.
- Pois...tamãe oubi decer isso – disse a Celeste encolhendo os ombros.
- Pois, pois ...Atcho qu´eró destino deles – disse conformada, puxando o xaile para os ombros e o lenço para a testa. - Agora só ´stou priocupada é co este inuncente – disse apontando o netinho de quatro anitos, que se mantinha sentado ao lado dela, alheio a tudo, sem se aperceber que tinha ficado sem Pai.
- Esse tamãe seria um desinfeliz, se num fosse bomecê qui o acarinhou, sem saber sequera s´era seu neto, sendo filho da corjidade. Lá seria um imporém, por i... Bem le pode q´rer, qu´i o ´stá a criar com todo o amor!!Num há dúbda! O amor e a fé, nos actos se bê!!
- Num será bem assim. Será filho d´alguma puta, mas num é ninhum filho da puta. Por o menos no que depender de mim, naquilo que ´stiber ó meu alcance. Mas ele é filho do meu Pascoal, tanho a certezinha. Assim eu tibesse o Céu tão certo. Atão tu num bês qué a cara ´scarrada e ´scupida dele, os olhos inguaizinhos e inté tem o peido na testa, c´mó meu Pascoal?!! – disse causticamente, com alguma indiferença.
- Lá parcido, é. Num há dúbda. Dá todo ares ó Pascoal, lá isso dá!!
- Pois é claro que dá! Olha qu´admiração...inda te digo mais: nem erba no trigo e nem suspeitas no amigo – lançou-lhe uma pequena farpa camuflada na ironia.
- Sabe-se lá quem será a mãe!! – perguntou fingindo não ter percebido.
- Eu num na conheço, mas ó que dizem por aí, é uma badia ruça, qu´andaba por aí, por as feiras e romarias. É uma ´stoubada qu´anda praí a tchutchar o dinheiro ós rapazes e ós homes casados. Foi botá-lo na roda e nunca ninguém mais a biu...! – disse num encolher de ombros. – Óbi decer qu´era prá i dos lados de Bimioso, prós lados da ´Spanha.
- Oh...Sabe lá a gente donde são essas pessoas!Mas tamãe, agora já co essa idade, pró qu´habia de ´star calhada, pra essa trabalheirama toda!
- Num me dá trabalho ninhum. O qu´é questoso, num é custoso – disse mansamente. – E é c´mo tu dissestes : o amor e a fé, nas obras se bê. – acrescentou.
- Ora, pois! Essa é qu´é essa!!. Quem corre por gosto num cansa – concordou acenando que sim com a cabeça.
- Agora que bai tchigar a Primabera, só tanho arreceio que m´apanh´ alguma intrite ou cous´assim.
- Ou sarampo, ou garrotilho. Eu sei lá...alguma doença própria das crianças. Mas num se priocupe, que Deus num le dará um fardo que num posso suportar. Cruzes, credo! Bai de retro...- disse benzendo-se.
Pascoal era de porte altivo de olhos e cabelos claros. Tinha ombros largos, maciços e uma boca de rã. Era indomesticável. Procurava a sua verdade; um sentido para a vida. Os maus fígados do Pai tinham-se repetido no filho.
- E pra teu goberno, inda te digo mais oitra. Inté tãe uma marca na nalga direita, c´mó Pascoal e inté c´mó meu Tchico Zé, que tamãe tinha uma ingual! Aquilo já é cousa herdatária. E olha qu´a minha palabra bale mais do qu´um alforje de moedas d´oiro – disse com voz firme.
Celeste chorou copiosamente lágrimas de dilúvio e lá foi falsamente compungida com a situação. Era uma mulher redonda, exuberante de carnes. Tia Inácia sabia bem que ela era de lágrima conveniente e calculista. Esta tal Celeste era tida como uma das quatro feitceiras da aldeia; era uma das que espalhava sal nas encruzilhadas, como fazia o inimigo em tempos remotos, nas cidades destruídas, para não renascerem das cinzas. Era uma mulher alta, de rosto balofo, pesada, mas segura de movimentos. Era possante e maciça, de olhar curioso. Tinha a alcunha de “ Zarolha “, porque não via quase nada do olho direito. Era uma autêntica rata de sacristia. Passava demasiado tempo na igreja, na intenção de salvar a alma no dia do juízo final. Era capaz de enlamear o nome de qualquer um com a mesma facilidade com que tomava a hóstia de Cristo. Vivia no terreiro da igreja, tendo como vizinha a Doroteia de Jesus, que era Mãe do homem da Esmeralda, filha da Tia Inácia, que vivia em França com os dois filhos. A Doroteia e a Inácia nunca morreram de amores uma pela outra, pois aquela não queria, por nada deste mundo, que o filho casasse com a Esmeralda - mas o amor, mais uma vez, venceu! A tia Doroteia fazia parte do quarteto de feiticeiras da aldeia. O terreiro onde vivia era um semi-círculo formado por cinco casas todas elas com balcão e varanda de madeira e loja. No centro do terreiro havia um enorme olmo, onde prendiam os burros à sombra e a garotada brincava no Verão.
Tia Inácia não era mulher de bater muito no peito e nem de mastigar Pais Nossos e Ave-Marias. Nunca o sentimentalismo a arrastou de modo exagerado para a igreja e para o confessionário. No entanto, não perdia a missinha aos domingos e confessava-se uma vez por mês para poder engolir o corpo do Filho de Deus, semanalmente e calar as bocas do povo. Fora disso, não ia às novenas de maio, não participava na encomendação das almas na Quaresma, embora soubesse de cor os cinco mistérios dolorosos, desde o primeiro – Agonia de Jesus no Horto, o segundo – o flagelo de Jesus, o terceiro – a coroação de espinhos, o quarto – o carregamento por Jesus da cruz até ao Calvário e o quinto – a crucificação e morte na cruz. Também não confiava muitas orações a Santa Bárbara – sua vizinha - , quando os trovões, os relâmpagos e as trovoadas traziam a aldeia em pânico, de credo na boca. Sabia, apesar disso, a cantilena:
que no Céu está escrita
com cruzes e água benta
p´rá pagar esta tormenta”.
.
que tens na palma da mão,
pede a Nosso Senhor
que não mande mais trovão.
.
qu´ engrandece o Senhor
nem espírito se alegra
no Divino Salvador.
Que nos livre do trovão
qu ´anda tão ameaçador.
Tinha, no entanto, a paz da aceitação de tudo o que a vida lhe dava sem questionar e, talvez isso, fosse a mais nobre e salutar sabedoria.
A vida seguia sossegada e rotineira, sobressaltada apenas com alguma festa de casamento, de baptizado, por algum fogo ou alguma morte.
Quando a Celeste foi embora, já o dia declinava lânguido e amarelecido em tons de salmão coral, sobre o cume sul do Reboredo e o sol se tinha escondido lampeiro para os lados do Pocinho. O dia caía rabujento e rugoso, no doce e majestoso adormecer das coisas e da natureza. No lugar onde o sol se pôs, ficou uma mancha avermelhada, lembrando vinho derramado numa toalha de linho e a lua irrompia cautelosa e encolhida, por entre as nuvens. O escuro da noite espalhava-se apressadamente pela abóboda celeste. As estrelas, fixas e cintilantes, já brilhavam cada vez mais num céu plúmbeo, onde parecia que tinham espalhado poeira de ouro. Havia um luaceiro claro, mole e taciturno de fim de inverno. Uma nebelina transparente e frouxa envolvia a aldeia triste e pobrezinha, na sua interminável pobreza e acumulava-se nos baixios. A noite conquistara a sua obscuridade, e o silêncio, o seu mistério. Tia Inácia estava melancólica, debaixo de um impiedoso céu estrelado e vigiada por inúmeras estrelas que dava a impressão de que a perscrutavam, para lhe adivinhar os pensamentos! Só ali era possível uma completa comunhão com o Universo. Todos faziam parte de um ser único, impelidos pela mesma bioenergia imanente.
Tia Inácia entrou em casa com o neto e acendeu a candeia de petróleo, que projectava umas sombras agigantadas pelas paredes despidas, num círculo desmaiado. Bruxuleava um ténue raio amarelo pálido, tremeluzente. Na lareira havia a panela de ferro onde coziam as couves e a " lata da bianda", onde cozinhava restos para dar à jerica. Uma luz cinzenta e parca entrava pela boeira. A lua ia alta, cheia e lustrosa e espargia uma claridade limpa e crua. Quando examinou as couves tronchudas, viu que estavam já espapaçadas, tal como as batatas.
- Ó rais palir´ó rapaz, quinté na morte me ´stroba. - lamentou-se ao verificar que tanto as batatas como as couves, estavam cozidas demais.
Com a espumadeira escoou as couves e as batatas e deitou-as em dois pratos fundeiros de barro grosseiro do Felgar, com um ovo cozido. Esmagou tudo com o garfo de pé de osso e temperou-as depois com unto. Deu um prato ao neto e ambos comeram no escano, sentados em mochos de madeira, ao lume já quase apagado. Tia Inácia pegou nas tenazes e revolveu o lume para o espevitar, mas pouco lhe adiantou. Apenas umas tristes brasas escarlate esmoreciam também num sono de despedida. Ali os sonhos dormitavam juntamente com os grilos, os besouros e as flores silvestres.
- Quem é que moieu, Bójinha? - perguntou o neto subitamente com olhar interrogador.
- Oh...Num foi ningãe. Com´as coubinhas e cala-te, que faizem bem às tripas – respondeu encolhendo os ombros, olhando para o neto com olhar incomodado.
O menino calou-se e continuou a comer a ceia.
- Mas a Xinhóia dicho qu´um home tinha moído! - insistiu mais tarde, o menino na pergunta inocente, com olhos envolventes.
- Prontos, bá. Foi o teu Pai. Mas deixa lá, que todos habemos de morrer um dia; uns mais nobos, outros mais belhos, mas ninguém cá fica.
- Atão eu e Ábojinha tamãe bamos moiê?!- perguntou num olhar de espanto.
- De certezinha. Mas agora cala-ti come.
A velha e o neto cearam calados e ficaram sentados à lareira até à hora de deitar. O menino olhava com olhos de sono e de incompreensão para o lume, que também ia desfalecendo, dando já pouco calor. Umas já desfeitas cavacas de zimbro, moribundas, tinham arrefecido em dores cinzentas, pouco vivas.
- Tanho fio, Bó – disse o menino a tremer. – Tou inganhado - acrescentou
-´Stás ingranhado? – perguntou a Avó num sorriso terno. – Tamãe eu, mas já bamos a dromir, que já bão sendo horas, qu´isto aqui num é c´mo na casa do oitro, sempr´atiçar-ló lume coas tenazes. – resmungou a velha. - Tchega-te mais ó lume e quece-te.
Na lareira, apenas o "lato da bianda" e a panela de ferro.
continua...
Fontes de Carvalho
Fontes de Carvalho, pseudónimo de Luís Abel Carvalho, nasceu no Larinho, uma aldeia transmontana do Concelho de Torre de Moncorvo, Distrito de Bragança. É o filho do meio de três irmãos.
Estudou em Moncorvo, Bragança e no Porto, onde se formou em Engenharia Geotécnica. É casado e Pai de três filhos.
Viveu no Brasil, onde passou por momentos dolorosos e de terror, a nível económico e psicológico. Chegou a viver das vendas de artesanato nas ruas e a dormir debaixo de Viadutos.
No ano de 1980 e 1981 foi Professor de Matemática em Angola, na Província de Kwanza Sul, em Wuaku-Kungo. Aí aprendeu a desmistificar certos mitos e viveu uma realidade muito diferente da propagandeada.
Em Portugal deu aulas de Matemática em diversas cidades, nomeadamente em São Pedro da Cova, Ponte de Lima, Cascais (na Escola de Alcabideche, onde deu aulas aos presos da cadeia do Linhó), Alcácer do Sal, Escola Francisco Arruda e Luís de Gusmão, em Lisboa. Frequentou durante quatro anos, como trabalhador-estudante, o curso de Engenharia Rural, no Instituto Superior de Agronomia.
Em 1995 fundou a empresa Bioprimática – Reciclagem de Consumíveis de Informática, onde trabalha até hoje como sócio-gerente.


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