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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Quase poema... ou da minha Sara

Por: Fernando Calado
(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)


Hoje passei à tua porta. As memórias doem em sangue vivo... Tantas.

A casa da Sara, a nossa casa.

A Sara envelheceu. Mulher austera, coração de água. Nunca casou. Amores antigos levaram-lhe a juventude, a alma e a alegria.

Aqui viveu com a sua mãe, Guilhermina. Sem filhos, encontrou a maternidade perdida ajudando a minha mãe a criar seis filhos, em tempo de fome e servidão. Eu fui o último a nascer.

Noite velha. Os irmãos, à velada, falavam de almas penadas, bruxas e demónios... e eu tremia.

- Vamos para a nossa casa, meu rei.

A casa da Sara era um paraíso... um lugar seguro.

Foi desta parreira que caí, quando espreitava o ninho altaneiro do pintassilgo. Não parti uma perna para todo o povoado dizer:

- Partiste uma perna... bem feita! Quem te mandou subir à parreira?

Foi desta porta que saiu a nossa gatinha branca. Morreu atropelada. Chorei copiosamente durante toda a noite.

- Não chores, meu rei... Arranjamos outra gata.

- Mas não é a nossa gatinha, Sara...

Envelheci, Sara... Sou mais velho do que tu quando partiste.

E escrevo estas coisas que não interessam a ninguém... para adoçar as mágoas.

...Coisas de idosos.


Fernando Calado
nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança. 
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.

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