Há insultos que não ficam nas bancadas. Atravessam o campo, atingem quem joga e transformam um jogo de futebol numa experiência que ninguém deveria ter de enfrentar por causa do apelido que carrega. Foi o que, segundo o treinador do Montalegre, aconteceu a Mário Borges, médio de 25 anos e filho de Rui Borges, técnico do Sporting, no encontro frente ao Ponte da Barca, que terminou com a derrota da equipa transmontana por 0-1, decidida através de uma grande penalidade.
O episódio levou José Manuel Viage a tomar uma decisão pouco habitual: retirar o jogador aos 79 minutos, não apenas por razões desportivas, mas para o poupar ao ambiente que, segundo o próprio, o estava a afetar emocionalmente.
Em declarações ao Canal N, o treinador do Montalegre não esconde a indignação perante aquilo que descreve como linguagem “demasiado baixa e ofensiva”, dirigida ao médio e relacionada com a identidade do pai.
“O Mário Borges é um excelente jogador e extremamente educado, bem formado. Como é evidente, aquele tipo de insultos tão ofensivos estava a perturbá-lo e, para o poupar, optei por tirá-lo do jogo aos 79 minutos”, explica José Manuel Viage.
O técnico faz questão de sublinhar que Mário é um jogador correto no relacionamento com os colegas e com os adversários, considerando injusto que tenha sido colocado naquela situação. Havia ainda um fator que tornou o momento particularmente difícil: o futebolista tinha familiares a assistir ao encontro.
“Foi linguagem demasiado baixa e ofensiva que alguém tão correto para com os colegas e até mesmo com os seus adversários não merecia ouvir, até porque tinha familiares na bancada”, lamenta o treinador.
UM JOGADOR JULGADO PELO NOME, NÃO PELO FUTEBOL
Mário Borges tem 25 anos e procura afirmar o seu percurso no futebol ao serviço do Montalegre, no Campeonato de Portugal. A sua presença em campo deveria ser avaliada pelo rendimento desportivo, pelas decisões que toma e pelo contributo que dá à equipa. Porém, de acordo com o relato do treinador, os insultos tiveram como alvo o pai, Rui Borges, uma das figuras mais expostas do futebol português.
É precisamente essa transferência da contestação de um treinador para o seu filho que torna o caso particularmente sensível. Mário não estava em campo pelo Sporting, nem era responsável pelas decisões tomadas em Alvalade. Estava a representar o Montalegre, a sua equipa, num jogo que acabou por ficar marcado por razões que ultrapassaram o resultado.
José Manuel Viage conta que o jogador ficou triste e incomodado com o sucedido. No final da partida, o diretor do Ponte da Barca terá procurado falar com Mário para lhe pedir desculpa pela atitude dos adeptos. O médio, contudo, não quis conversar com o dirigente.
A decisão de o retirar aos 79 minutos foi, nas palavras do treinador, uma forma de o proteger. Num jogo em que o Montalegre procurava um resultado positivo, a preocupação passou também pelo bem-estar de um jogador que, segundo o técnico, estava a ser afetado por aquilo que ouvia.
A situação ganhou outra dimensão quando Rui Borges abordou publicamente o episódio, na conferência de imprensa de antevisão ao encontro do Sporting com o Casa Pia. O treinador, natural de Mirandela, falou não apenas como profissional sujeito à pressão e à crítica, mas sobretudo como pai confrontado com o impacto que essa exposição pode ter na família.
“Só há uma coisa que me magoa. Quem sofre não sou eu, é o meu filho, a minha mulher, os meus pais, as minhas irmãs. Isso magoa-me”, afirmou.
Rui Borges foi ainda mais direto ao referir-se ao que aconteceu ao filho no jogo do Montalegre.
“O meu filho joga futebol e foi enxovalhado no último jogo por ser filho de quem é. E isso não admito. É grave”, declarou.
O treinador do Sporting reconheceu sentir falta de respeito desde que chegou ao clube de Alvalade, mas distinguiu as críticas dirigidas ao seu trabalho das consequências que os ataques podem ter sobre quem lhe é próximo. É essa fronteira que considera ter sido ultrapassada.
As palavras do técnico dão dimensão pessoal a um episódio que, no futebol, volta a colocar uma questão essencial: a paixão e a rivalidade podem justificar tudo? A contestação a um treinador faz parte da exposição pública da profissão. Transformar a família desse treinador num alvo é outra coisa.
Em Montalegre, a derrota por 0-1 acabou por ficar ligada a um episódio que marcou o jogador e levou o treinador a intervir. Não foi o resultado que determinou a saída de Mário Borges aos 79 minutos, segundo José Manuel Viage, mas a necessidade de o afastar de um ambiente que considerou ofensivo e perturbador.
O caso tem uma particularidade que não deve ser ignorada: tanto Rui Borges como o filho têm raízes transmontanas. O pai, natural de Mirandela, chegou ao topo do futebol nacional; Mário continua a construir o seu próprio caminho, longe dos holofotes que acompanham o treinador do Sporting.
É por isso que o episódio ultrapassa a dimensão de um conflito entre adeptos e um jogador. Fala também da dificuldade em separar a figura pública da pessoa, o treinador do pai, o apelido do futebolista que procura afirmar-se por mérito próprio.
José Manuel Viage deixou claro que não queria ver o seu jogador sujeito àquele tipo de tratamento. Rui Borges foi igualmente explícito ao afirmar que não aceita que o filho seja enxovalhado por causa da sua profissão.
No fim, fica uma imagem difícil de ignorar: um jogador retirado de campo antes do apito final para ser poupado a insultos. E uma pergunta que o futebol não deveria continuar a adiar: em que momento é que a rivalidade deixa de ser paixão pelo jogo e passa a ser uma agressão a quem está dentro dele?
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