(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)
«E obrigaram um certo Simão Cireneu, pai de Alexandre e de Rufo, que por ali passava, vindo do campo, a que levasse a cruz.» (Marcos 15, 21)
Há homens que entram na história sem o procurarem. São homens comuns, que seguem o seu caminho, ocupados com o trabalho de cada dia. Simão ajudou penosamente a levar a cruz e depois caiu no esquecimento dos séculos, sem templos, sem igrejas, sem catedrais.
Vinha do campo. Talvez regressasse a casa, cansado do trabalho, enquanto a mulher o esperava para almoçar. Não sabemos o que pensava, nem o que sentiu quando os soldados romanos o obrigaram a carregar a cruz de um condenado. Não foi por sua vontade. Foi obrigado.
Há coisas estranhas. Não sei porquê, esta noite entraste silenciosamente na minha casa, Simão de Cirene. Talvez porque ajudaste a carregar a cruz dos outros, repartindo a dor, oferecendo o ombro a quem já não consegue caminhar sozinho. E isso também é uma forma de amar.
Fecho a Bíblia, mas Simão de Cirene fica comigo o resto do serão.
Fernando Calado nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança.
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.


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