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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 24 de outubro de 2026

A morte devia ensinar-nos a viver… mas parece que continuamos sem aprender


Há momentos na vida em que a morte deixa de ser uma notícia que ouvimos de vez em quando, ou algo que julgamos pertencer apenas aos outros. Há um dia em que ela começa a sentar-se à nossa mesa, a entrar nas nossas conversas, a ocupar o lugar de quem já não está e a deixar vazias as cadeiras daqueles com quem partilhámos tantos anos de vida. E, sem pedir licença, começa a levar consigo pedaços da nossa própria história.

É isso que sinto cada vez que vejo partir mais um amigo. Um atrás do outro, vão-se os homens da minha geração, os mais velhos que admirei, aqueles por quem nutri estima, respeito e amizade, os companheiros de tantas histórias, de tantas conversas, de tantos momentos que, na altura, pareciam banais, mas que hoje ganham um valor imenso. Rostos que fizeram parte do meu caminho, vozes que reconhecia à distância, abraços que não precisavam de palavras, memórias que julgava eternas e que, afinal, começam a transformar-se naquilo que resta de uma vida… a saudade.

Cada partida deixa uma marca. Não é apenas a falta de mais uma pessoa. É como se uma parte do tempo também desaparecesse com ela. Os que partem levam consigo um pedaço do mundo que conhecemos, das experiências que vivemos, dos segredos que guardámos, das alegrias que celebrámos e até das tristezas que, em conjunto, conseguimos suportar. Quando morre um amigo desaparece uma testemunha da nossa própria vida, alguém que se lembrava de quem fomos, dos nossos sonhos de juventude, das nossas ilusões, das nossas lutas e dos caminhos que percorremos.

De repente, olhamos à nossa volta e percebemos que somos cada vez menos os que ainda podem contar determinadas histórias. As mesas ficam mais vazias, os encontros mais raros, os telefonemas deixam de chegar e os nomes que antes faziam parte do nosso quotidiano passam a ser pronunciados no passado. Aqueles que julgávamos que estariam sempre por perto começam a faltar. E nós, os que ficamos, vamos aprendendo, à força, uma das lições mais duras da existência. Ninguém fica para sempre.

Sinto-me mais só todos os dias. Não necessariamente porque não tenha pessoas à minha volta, mas porque há uma solidão que nasce com a ausência daqueles que caminharam comigo durante tantos anos. Uma solidão que não se resolve com a presença de outras pessoas, porque cada amigo ocupa um lugar único, irrepetível, que ninguém poderá preencher da mesma maneira.

Há amizades que são feitas de uma vida inteira. Não precisam de contacto diário, de grandes demonstrações ou de palavras bonitas. Sobrevivem ao tempo, à distância, às mudanças e até aos silêncios. Basta um reencontro para tudo parecer regressar ao lugar certo. E talvez seja por isso que custa tanto aceitar a partida daqueles que fizeram parte de nós. Porque não estamos apenas a perder o presente; estamos também a despedir-nos de uma parte do passado que já ninguém poderá devolver.

Hoje, consigo escrever estas linhas. Amanhã, talvez seja eu a transformar-me numa recordação, numa fotografia guardada numa gaveta ou no nosso grupo do facebook, num nome pronunciado com emoção por alguém que ainda se lembre de mim. Hoje sou eu quem sente a ausência dos outros, amanhã poderei ser eu a ausência de alguém. Hoje recordo os que partiram, um dia, alguém poderá recordar-me a mim. E esta certeza, tão simples e tão inevitável, devia bastar para nos fazer parar, olhar para a vida de outra maneira e questionar profundamente a forma como tratamos os outros.

Afinal, o que levamos connosco quando partimos?

Levamos as riquezas que acumulámos? Os bens pelos quais nos sacrificámos? Os cargos que ocupámos, os títulos que exibimos, as vitórias que celebrámos à custa da derrota dos outros? Levamos o orgulho de termos tido sempre razão, a satisfação de termos humilhado alguém, a vaidade de termos sido mais poderosos ou a arrogância de termos feito sentir aos outros que eram inferiores a nós?

Não. Quando chega a hora da despedida, tudo isso perde o seu valor. O dinheiro fica, as casas ficam, os objetos ficam, os cargos passam para outras mãos e os títulos deixam de ter importância. A vida, com tudo aquilo que julgávamos possuir, acaba por nos recordar que nunca fomos verdadeiramente donos de nada. Fomos apenas passageiros de uma viagem cujo destino conhecemos, embora passemos grande parte do caminho a comportar-nos como se fossemos eternos.

E, no entanto, continuamos a viver como se o tempo fosse inesgotável.

Continuamos a alimentar invejas, a cultivar ressentimentos, a levantar muros entre pessoas, a transformar pequenas diferenças em grandes conflitos. Continuamos a disputar protagonismo, a medir forças, a querer demonstrar que somos superiores, a sentir desconforto perante o sucesso alheio e a fazer da vida uma competição permanente, como se a felicidade fosse um bem escasso e a alegria dos outros representasse uma ameaça à nossa.

A inveja continua a envenenar relações, a prepotência continua a esmagar os mais frágeis, o egoísmo continua a fechar corações e a intolerância continua a separar pessoas que, afinal, partilham a mesma fragilidade. Há quem passe uma vida inteira a tentar subir, mesmo que, para isso, tenha de pisar alguém. Há quem confunda autoridade com superioridade, firmeza com crueldade e inteligência com a capacidade de manipular os outros. Há quem precise de diminuir os demais para se sentir maior, sem compreender que a verdadeira grandeza de uma pessoa nunca se mede pela pequenez que consegue impor aos que a rodeiam.

E pergunto-me, muitas vezes, todos os dias para vos ser sincero, para quê?

Para quê tanta arrogância, se todos acabaremos por conhecer a mesma fragilidade? Para quê tanta maldade, se a vida é demasiado curta para desperdiçarmos os dias a fazer sofrer? Para quê guardar ódios durante anos, alimentar vinganças, destruir amizades e afastar pessoas por orgulho, quando um dia poderá não existir oportunidade para um simples pedido de desculpa?

Valerá realmente a pena magoar alguém só porque não pensa como nós? Será assim tão difícil aceitar que cada pessoa tem a sua maneira de ver o mundo, as suas convicções, as suas feridas e os seus próprios caminhos? Porque razão insistimos em querer controlar os outros, impor-lhes as nossas verdades e condená-los por não serem iguais a nós?

A morte devia ensinar-nos a humildade. Devia lembrar-nos que somos todos feitos da mesma matéria frágil, que todos sentimos medo, que todos conhecemos a dor, que todos precisamos de afeto e que nenhum de nós tem o poder de negociar eternamente com o tempo. Devia ensinar-nos que a vida não nos concede privilégios permanentes e que a posição que hoje ocupamos não nos torna imunes àquilo que amanhã poderá acontecer.

Mas parece que nem a morte consegue ensinar-nos aquilo que a vida, tantas vezes, já tentou mostrar.

As gerações sucedem-se, os anos passam, a humanidade acumula conhecimento, inventa máquinas, conquista o espaço, desenvolve tecnologias extraordinárias e descobre respostas para perguntas que, durante séculos, pareciam impossíveis. Somos capazes de comunicar instantaneamente com alguém do outro lado do planeta, de explorar os mistérios do universo e de transformar radicalmente a forma como vivemos.

Mas continuamos, tantas vezes, incapazes de aprender a viver uns com os outros.

É esta, talvez, uma das maiores contradições da humanidade: evoluímos no conhecimento, mas nem sempre na consciência. Avançamos na ciência, mas tropeçamos repetidamente na falta de humanidade, aprendemos a construir coisas extraordinárias, mas continuamos a destruir, com uma facilidade assustadora, aquilo que de mais precioso existe entre nós, a confiança, a dignidade, o respeito e a paz.

Os nossos pais viveram, os nossos avós viveram, os que vieram antes deles também viveram. Cada geração conheceu as suas dificuldades, as suas perdas, os seus medos e as suas despedidas. Cada uma viu partir pessoas que amava. Cada uma teve oportunidade de compreender que a existência é breve e que ninguém está aqui para sempre. E, no entanto, parece que essa consciência raramente se transforma numa aprendizagem coletiva capaz de mudar verdadeiramente o comportamento humano.

Porquê?

Talvez porque, enquanto a morte não nos toca de perto, acreditamos que ainda temos muito tempo. Talvez porque nos habituámos tanto à ideia de que tudo continuará amanhã que deixámos de valorizar aquilo que temos hoje. Talvez porque o orgulho fala mais alto do que a consciência, porque o desejo de vencer se sobrepõe à vontade de compreender e porque, tantas vezes, confundimos viver com conquistar, possuir e dominar. Ou talvez porque seja mais fácil apontar os defeitos dos outros do que reconhecer os nossos.

É sempre mais fácil condenar a intolerância alheia do que admitir a nossa própria intolerância. É mais confortável denunciar a prepotência de alguém do que perceber as pequenas prepotências que exercemos no quotidiano. É mais simples falar de solidariedade do que praticá-la, defender a justiça do que sermos justos quando isso nos custa alguma coisa, elogiar a amizade do que permanecermos amigos quando surgem dificuldades.

Gostamos de acreditar que somos melhores do que aqueles que criticamos. Mas a verdadeira reflexão começa quando deixamos de olhar apenas para o comportamento dos outros e temos a coragem de olhar para dentro de nós.

Que marca deixámos na vida de quem se cruzou connosco? Fomos motivo de alívio ou de sofrimento? Ajudámos alguém a levantar-se ou aproveitámos a sua fragilidade para nos sentirmos superiores? Alguém soube que podia contar connosco nos momentos difíceis? Pedimos desculpa quando errámos? Fomos capazes de perdoar? Demos carinho quando alguém precisava, ou adiámos esse gesto à espera de uma ocasião que talvez nunca chegasse?

São perguntas incómodas, eu sei. Mas talvez sejam as perguntas mais importantes que podemos fazer a nós próprios enquanto ainda estamos a tempo de mudar alguma coisa.

A vida não se mede apenas pelos anos que vivemos, mas também pela forma como passámos por ela. Não se mede apenas pelas coisas que conquistámos, mas pelas pessoas que ajudámos a ser mais felizes. Não se mede pelo número de pessoas que nos respeitam por medo, mas pela quantidade daquelas que nos estimam sinceramente. E não se mede pelo poder que exercemos sobre os outros, mas pela capacidade de os tratarmos com dignidade, sobretudo quando não temos nada a ganhar com isso.

O que verdadeiramente permanece não é a imagem de invencibilidade que tentámos construir, nem o poder que julgámos possuir. São os gestos, as palavras, as memórias e os sentimentos que deixámos no coração de quem connosco partilhou o caminho.

Há pessoas que partem e deixam bens materiais. Outras deixam cargos, obras ou nomes inscritos em placas. Mas há também aquelas que deixam algo muito mais valioso, a lembrança de terem sido boas pessoas. Pessoas que souberam ouvir, que estenderam a mão, que não humilharam, que não precisaram de diminuir ninguém para se sentirem importantes. Pessoas que fizeram do respeito uma prática, da amizade um compromisso e da bondade uma forma de estar na vida.

Essas pessoas continuam presentes mesmo depois de partirem. Vivem nas histórias que contamos, nos exemplos que recordamos, nas pequenas atitudes que aprendemos com elas e na saudade que sentimos quando percebemos quanto bem fizeram sem precisarem de anunciar ao mundo que o estavam a fazer.

Talvez seja essa a única forma de eternidade que verdadeiramente conseguimos alcançar, continuar a existir, de alguma maneira, na vida daqueles que tocámos.

Custa-me tanto ver partir os meus amigos. Cada despedida obriga-me a olhar para a minha própria existência com outros olhos. Os funerais, as notícias tristes, as ausências inesperadas parecem dizer-me, que o tempo não espera por ninguém. Que os encontros que hoje adiamos podem não acontecer amanhã. Que as palavras que não dissemos podem ficar para sempre por dizer. Que o abraço que não demos pode transformar-se numa saudade sem remédio.

Quantas vezes deixámos de procurar alguém por causa de uma discussão sem importância? Quantas amizades se perderam porque nenhum dos lados quis dar o primeiro passo? Quantas pessoas partiram sem ouvir de nós aquilo que mereciam ter ouvido em vida? Quantos afetos escondemos por vergonha, por orgulho ou por receio de parecermos vulneráveis?

E depois, quando já nada podemos fazer, dizemos que temos saudades.

Mas a saudade, por mais bonita que seja, não substitui a presença. O arrependimento não devolve as oportunidades perdidas. E as lágrimas derramadas junto de uma campa não conseguem levar até quem partiu o carinho que poderíamos ter demonstrado quando ainda estava ao nosso lado.

Por isso, talvez devêssemos aprender a dizer mais vezes aquilo que sentimos. A procurar quem nos faz falta. A reconciliar-nos quando ainda existe espaço para o entendimento. A não transformar cada divergência numa batalha, a opinião diferente numa ofensa ou o erro numa condenação definitiva. Devíamos aprender que pedir desculpa não nos diminui, que perdoar não significa esquecer tudo e que reconhecer o valor de alguém não nos retira valor a nós próprios.

Devíamos, acima de tudo, deixar de viver como se a nossa passagem pela Terra fosse uma competição cujo prémio é chegar ao fim com mais do que os outros.

Porque ninguém ganha verdadeiramente uma vida à custa da infelicidade alheia.

Podemos ter mais dinheiro, mais influência, mais bens e mais reconhecimento. Podemos até convencer o mundo de que somos pessoas importantes. Mas, se pelo caminho destruirmos relações, espalharmos sofrimento e deixarmos atrás de nós pessoas feridas pela nossa arrogância, que espécie de vitória será essa?

De que nos serve conquistar o mundo se perdermos a capacidade de sentir compaixão? De que serve sermos admirados por muitos se aqueles que nos conhecem verdadeiramente não encontram em nós bondade? De que vale termos sempre a última palavra se, por causa dela, perdermos alguém que gostaríamos de ter mantido na nossa vida?

A existência é demasiado breve para fazermos da dureza uma virtude e da indiferença uma defesa permanente. Ser bom não significa ser fraco. Ser tolerante não significa concordar com tudo. Perdoar não significa aceitar abusos. E tratar os outros com respeito não exige que abandonemos as nossas convicções. Exige apenas que reconheçamos que a dignidade humana não depende de pensarmos da mesma maneira.

Podemos discordar sem odiar. Podemos defender aquilo em que acreditamos sem humilhar. Podemos ser firmes sem sermos cruéis. Podemos querer crescer sem desejar que os outros diminuam.

E podemos, sobretudo, compreender que ninguém sabe verdadeiramente quantas oportunidades ainda terá para fazer o bem.

Hoje, enquanto escrevo estas palavras, ainda tenho memórias para recordar, histórias para contar e amigos cuja ausência já sinto. Ainda posso olhar para trás e reconhecer o caminho percorrido, com os seus momentos felizes, os seus erros, as suas desilusões e as suas aprendizagens. Ainda posso agradecer àqueles que fizeram parte da minha vida e reconhecer o privilégio de ter caminhado ao lado de pessoas que me deixaram marcas profundas.

Mas também sei que o tempo continua a avançar. Não faz pausas por nós, não espera que estejamos preparados e não devolve os dias que deixámos passar sem lhes dar o devido valor.

Hoje escrevo. Amanhã, talvez alguém leia estas palavras e se lembre de mim. Talvez reconheça nelas os sentimentos que também carrega, a dor de ver partir os seus, a perplexidade perante a persistência da maldade humana e a vontade de compreender por que razão continuamos a desperdiçar uma vida tão preciosa em conflitos tão pequenos.

Talvez alguém se reconheça nesta solidão que cresce quando o círculo de amigos começa a desaparecer. Talvez alguém compreenda que envelhecer não é apenas somar anos, mas também aprender a viver com as ausências, a aceitar que certas vozes já não voltarão a ouvir-se e a perceber que o passado se torna cada vez mais povoado por aqueles que já partiram.

E talvez, ao ler estas linhas, alguém decida telefonar a um velho amigo, visitar um familiar, pedir desculpa, abandonar um ressentimento ou simplesmente dar um abraço a quem tem ao lado.

Se isso acontecer, estas palavras já terão valido a pena.

Não precisamos de transformar o mundo inteiro para lhe dar um pouco mais de humanidade. Às vezes, basta mudar a maneira como tratamos a pessoa que está diante de nós. Basta não acrescentarmos mais sofrimento ao sofrimento que já existe. Basta termos a consciência de que cada pessoa que encontramos está a travar batalhas que desconhecemos e que um gesto de bondade pode significar muito mais do que imaginamos.

Não sei se a humanidade alguma vez aprenderá verdadeiramente a lição que a morte nos tenta ensinar. Não sei se algum dia conseguiremos libertar-nos da inveja, da prepotência, do egoísmo e dessa necessidade permanente de provar que somos melhores do que os outros. A história deixa-nos razões para duvidar. Mas recuso-me a acreditar que a nossa incapacidade coletiva de aprender torne inútil o esforço individual de sermos melhores.

Enquanto estivermos vivos, ainda podemos escolher. Não conseguiremos mudar toda a humanidade, mas podemos impedir que a desumanidade comece em nós.

A morte não nos pergunta quantos dinheiro temos no banco ou debaixo do colchão, quantas discussões vencemos ou quantas pessoas conseguimos impressionar. A morte não distingue o arrogante do humilde, o poderoso do desconhecido, o rico do pobre. No momento derradeiro, todos somos confrontados com a mesma verdade. A vida que nos foi dada teve um fim, e aquilo que fizemos com ela já não poderá ser alterado.

É por isso que, quanto mais amigos vejo partir, mais me interrogo sobre o sentido de tudo isto. Não porque tenha deixado de encontrar beleza na vida, mas precisamente porque compreendo cada vez melhor como essa beleza é frágil. Está nos encontros, nas conversas em qualquer lugar, nas gargalhadas inesperadas, na amizade sincera, no carinho sem interesse, na companhia de quem nos conhece há décadas e na tranquilidade de podermos ser nós próprios sem receio de sermos julgados. Está nas coisas simples que tantas vezes desprezamos enquanto corremos atrás daquilo que julgamos importante.

A vida acontece agora, enquanto adiamos a felicidade para amanhã. A amizade acontece agora, enquanto deixamos que o orgulho nos afaste. O amor acontece agora, enquanto esperamos por uma ocasião especial para o demonstrar. E o tempo passa agora, indiferente às nossas desculpas, às nossas ambições e à ilusão de que teremos sempre outra oportunidade.

Por isso, quando olho para os lugares vazios deixados pelos meus amigos, não vejo apenas a tristeza daquilo que perdi. Vejo também um apelo àquilo que ainda posso fazer. Uma espécie de aviso para não desperdiçar o tempo que me resta a alimentar sentimentos que nada constroem, a magoar pessoas que nada me fizeram ou a tentar provar uma superioridade que, perante a eternidade do universo, não passa de uma ilusão.

Vejo a necessidade de valorizar mais quem fica, de estimar quem caminha comigo e de não esperar pela ausência para reconhecer a importância de uma presença.

Um dia também serei memória. Um dia também alguém sentirá a minha falta, recordará uma conversa, um gesto, uma palavra ou um momento. E, nesse dia, gostaria que a minha passagem tivesse deixado alguma coisa de bom. Não preciso de ser recordado como alguém extraordinário, nem como alguém que nunca errou. Basta-me a esperança de ser lembrado como alguém que, apesar das suas imperfeições, tentou respeitar os outros, soube reconhecer os seus erros e compreendeu que nenhuma ambição vale mais do que a dignidade de uma pessoa.

E volto à pergunta que me acompanha sempre que mais um amigo parte:

Valerá a pena fazer sofrer os outros, ser intolerante, alimentar a inveja e viver dominado pelo egoísmo, sabendo que o tempo que temos é tão limitado e que, no fim, todos seremos apenas uma lembrança?

Valerá a pena perder amigos por orgulho? Destruir relações por ambição? Humilhar alguém para alimentar a nossa vaidade? Passar anos a guardar rancores que não nos deixam dormir em paz? Viver como inimigos quando poderíamos ter sido companheiros de caminho?

Não encontro uma resposta que justifique tanta dureza. Não consigo compreender que, sabendo todos que somos passageiros, continuemos tantas vezes a agir como se tivéssemos o direito de tornar a viagem dos outros mais dolorosa.

A morte devia fazer-nos refletir sobre o sentido da vida. Devia ensinar-nos que o tempo é demasiado precioso para ser desperdiçado em mesquinhices, que a felicidade não se constrói sobre a infelicidade alheia e que o respeito não é um favor que concedemos aos outros, mas uma obrigação moral que assumimos perante a condição humana que partilhamos.

Devia fazer-nos perceber que não estamos aqui para sempre, mas estamos aqui uns com os outros. E essa diferença devia mudar tudo.

Amanhã, qualquer um de nós poderá deixar de estar presente. A cadeira ficará vazia, o telefone deixará de tocar, o nome passará a ser pronunciado com saudade e as pessoas continuarão a sua vida, levando consigo a memória da nossa passagem. O mundo não vai parar. O sol continuará a nascer, as ruas continuarão cheias, as preocupações do quotidiano continuarão a ocupar as pessoas e a vida encontrará maneira de prosseguir.

Mas, para alguém, faltará uma voz. Para alguém, faltará um abraço. Para alguém, haverá uma ausência que nenhum movimento do mundo poderá preencher.

É essa a nossa dimensão humana, somos pequenos perante o tempo, mas podemos ser imensos naquilo que damos uns aos outros.

Enquanto ainda podemos falar, que usemos as palavras para aproximar, não para destruir. Enquanto ainda podemos abraçar, que não deixemos que o orgulho nos roube esse gesto. Enquanto ainda podemos amar, que não escondamos o afeto atrás de uma máscara de indiferença. E enquanto ainda estamos vivos, que não precisemos de assistir à morte de mais um amigo para percebermos que a vida merece ser vivida de outra maneira.

Não será a inveja que nos dará paz, nem a prepotência que nos tornará grandes, nem o egoísmo que nos fará felizes. Será a consciência tranquila de termos vivido sem fazer do sofrimento dos outros o preço da nossa própria felicidade.

E, quando chegar a nossa vez de partir, talvez não possamos levar connosco nada daquilo que acumulámos. Mas poderemos deixar algo que o tempo não apaga com facilidade. A lembrança de termos sido pessoas que fizeram bem, que souberam amar e que tornaram a vida um pouco menos dura para aqueles que tiveram a sorte de se cruzar connosco.

Hoje, vejo os meus amigos partir, um atrás do outro. E, com cada despedida, sinto que o tempo me fala mais alto.

Não quero que esta reflexão seja apenas mais um desabafo triste, perdido entre tantas palavras que se leem e depressa se esquecem. Quero que seja um apelo à consciência, à humildade e à humanidade que tanta falta nos faz.

Amanhã poderá ser tarde. Hoje ainda estamos cá.

Que a morte dos que amámos não sirva apenas para nos entristecer. Que nos ensine a viver.

No fim de tudo, quando as luzes se apagarem, talvez seja apenas isto que realmente importa. Termos passado por este mundo sem esquecer que, antes de sermos diferentes uns dos outros, somos todos seres humanos, frágeis, passageiros e igualmente merecedores de respeito, de dignidade e de amor.

Eu ainda estou a aprender... e o tempo escasseia… Apressai-vos para chegar a tempo!

HM
 24 de Outubro de 2026

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