(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)
A tia Justina Rezadeira gostou muito que a luz elétrica tivesse chegado à aldeia, alumiando ruas e becos, mesmo junto à sua porta. À sua casa, porém, só chegou muitos anos mais tarde, quando o filho veio de França, na força da emigração. Duas lâmpadas e uma tomada eram quanto bastava para os dias de festa.
- O lume bem alumia e, se for preciso fiar, também acendo a candeia de azeite, que alumia que é uma beleza.
Dizia a tia Rezadeira e ria com aqueles dois dentes que lhe ornamentavam a boca. O cabelo alvejava… serrania de dores e sofrimentos.
Mas a eletricidade chegou à aldeia e o medo foi-se embora. Nos serões de inverno, em nossa casa, deixou-se de falar da Prudência Costureira, que morreu tuberculosa e que, nas noites de ventania, vagueava pela aldeia em gritos lancinantes, confundida com as sombras projetadas pelo candeeiro com que se ia acomodar as vacas. Também o tio Alves, que morreu no monte sem confissão, deixou de aparecer a pedir missas pela sua alma. E até a tia Graça, que era bruxa, deixou de se transformar em pita à meia-noite em ponto.
- Esta luz virá de Bragança ou de Lisboa? Perguntava o tio Rodrigo, que já lia o jornal e se fartava de dizer que a Terra anda e o Sol está parado. Ninguém acreditava.
E esta pergunta ficava sem resposta… Ele há coisas!…
Mas as almas penadas, as bruxas e os medos foram descansar. E ficou só o pai, a contar histórias fantásticas do tempo em que os animais falavam, agora à luz serena da eletricidade.
Fernando Calado nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança.
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.


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