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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Ele há coisas!…

Por: Fernando Calado
(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)


A tia Justina Rezadeira gostou muito que a luz elétrica tivesse chegado à aldeia, alumiando ruas e becos, mesmo junto à sua porta. À sua casa, porém, só chegou muitos anos mais tarde, quando o filho veio de França, na força da emigração. Duas lâmpadas e uma tomada eram quanto bastava para os dias de festa.

- O lume bem alumia e, se for preciso fiar, também acendo a candeia de azeite, que alumia que é uma beleza.

Dizia a tia Rezadeira e ria com aqueles dois dentes que lhe ornamentavam a boca. O cabelo alvejava… serrania de dores e sofrimentos.

Mas a eletricidade chegou à aldeia e o medo foi-se embora. Nos serões de inverno, em nossa casa, deixou-se de falar da Prudência Costureira, que morreu tuberculosa e que, nas noites de ventania, vagueava pela aldeia em gritos lancinantes, confundida com as sombras projetadas pelo candeeiro com que se ia acomodar as vacas. Também o tio Alves, que morreu no monte sem confissão, deixou de aparecer a pedir missas pela sua alma. E até a tia Graça, que era bruxa, deixou de se transformar em pita à meia-noite em ponto.

- Esta luz virá de Bragança ou de Lisboa? Perguntava o tio Rodrigo, que já lia o jornal e se fartava de dizer que a Terra anda e o Sol está parado. Ninguém acreditava.

E esta pergunta ficava sem resposta… Ele há coisas!…

Mas as almas penadas, as bruxas e os medos foram descansar. E ficou só o pai, a contar histórias fantásticas do tempo em que os animais falavam, agora à luz serena da eletricidade.


Fernando Calado
nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança. 
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.

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