sábado, 9 de junho de 2018

SER ESCRITOR EM TRÁS-OS-MONTES

Por: Fernando Calado
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Confesso que talvez já não saiba dividir uma oração, talvez seja mais simples identificar o sujeito, ou o predicado. De estilos literários só conheço aqueles que me emocionam e me dizem que a perfeição é possível e os outros que navegam nos remansos da mediocridade de quem não é capaz de descobrir o tal golpe de asa que nos leva mais além. Por isso, a minha concepção da escrita remeto-a para o indizível, para aquilo que perdura à beira das emoções e por isso não tenho uma teoria literária reduzindo-me tão somente a este sentir das coisas que estão por aí descansadas à beira do dizer.
E é por isso que para mim é fácil ser escritor em Trás-os-Montes porque só é preciso olhar e permanecer  bem perto da imensidão da nossa paisagem austera, rude, mas plena de cambiantes de beleza, só é necessário estar atento nesta observação antropológica às mulheres e aos homens transmontanos que se gastam em jeiras infindas, arrecadam trigo, namoraram o sol e são verdadeiramente sábios para além da sabedoria dos livros.
É por isso que eu só sei escrever no Nordeste, em Lisboa, no Porto, ou nos confins do Planeta, falta-me o ar, o cheiro a alfazema, a rosmaninho e a esteva brava, sufoco, pois só o meu provincianismo consentido me inspira e me devolve as palavras da nossa ruralidade, da nossa beleza, do imaginário da nossa aldeia, porque nós orgulhosamente ainda temos uma aldeia.
Estou sempre de regresso a casa onde é possível escrever como quem come pão centeio, bebe do vinho da pipa e embebeda-se com a água do ribeiro a regurgitar de peixes avaros dos mistérios dos poços fundos.
Então tudo é fácil, o grande livro do Nordeste está aberto e só é preciso copiar a copia cem vezes repetida na Escola da vida.
A tia Augusta, de avental de cotim às riscas penteia-se na varanda, com o bigode muito bem posto  e chama as suas pitas que comem o renovo da vizinha, mulher avara, enviuvou, quando era nova e ficou seca por dentro numa segunda virgindade consentida e dedicada às sete Virgens de Alcanices. O Tio Lopes, há anos que não fala com a tia Augusta, coisa de namoricos antigos, ciúmes velhos em tempos da Senhora da Ribeira. Contudo a Tia Augusta admira-se como o tio Lopes lavra o seu quintal, rasgando a terra num namoro perene com os sulcos direitos e fundos, acariciando a semente para que a planta nasça num anúncio cúmplice com a natureza.
Um homem velho, orgulha-se da sua leira de alfaces, tenras como manteiga, enquanto colhe as ervilhas temporãs para desfastio do presunto que até se estragava na adega não fossem os amigos que chegam de Bragança amigalhados pela abastança e frescura da adega.
O Jaime que já esteve em França, vocês conhecem, pois então, ele até tinha uma irmã que estava casada com um filho do irmão do Padre de Travanca, que esteve de Pároco muitos anos em Laviados e tinha uma irmã que andou a aprender à costura em Milhão e depois casou com um filho do Esteves da Padaria que depois até comprou uma camioneta para ir ao negócio, mas as coisas não lhe correram bem, pois, vocês conhecem o Jaime, anda agora a erguer o seu pombal, com dinheiro fresco vindo da Europa de fundos sem fim. A brancura do pombal será o renascer do Nordeste afeito a voos largos emprestados no esvoaçar de mil pombas.
O forno também já coze de novo, trigo alvo arrancado com valentia ao coração do Nordeste que se cansou de trazer ao colo fraguedos infindos e se resolveu na maternidade da farinha, do azeite, das cerejas vermelhas e amêndoas doces, anunciando esta terra prometida onde corre leite e mel.
O moleiro também está de regresso ao rio depois de tanta ausência do convívio das noites cheias do cantar de rouxinóis que vigiavam o moinho e a pedra alveira amante da farinha branca como a neve das invernias. O milagre aconteceu, porque o Turismo rural reclama que se acorde o moleiro, se avise o pastor, se erga a forja, se renove a casa de pedra que enterrou mil Invernos, que se povoe a capoeira, que se acenda o forno, que se abra a adega, que se faça o folar, que se encomendem as almas, que se solenizem as Endoenças, que vamos às romarias, que matemos o porco, que façamos alheiras e curemos os presuntos, porque o Turismo rural reclama que tenhamos está força telúrica em preservar as nossas memórias sem descorar o futuro e o desenvolvimento. Memórias que vêm do princípio dos tempos à mistura com a  pasmaceira da nossa aldeia em que não há quase nada que fazer. O trigo já esta na tulha, as vinhas vindimadas e as castanhas ainda esperam mais umas chuvas bem caídas até que os ouriços se comecem a rir para a gente. Os lavradores mais cuidadosos lá vão fazendo uma potada de aguardente, mais para acenderem o lume, assarem umas batatas, com meia dúzia de sardinhas, ou um cibo de cordeiro quando o almocreve de Argoselo se lembra de o matar do que por causa da aguardente que quase não dá para a lenha que se gasta. Outros para entreter lá vão fazendo um garrafão de jeropiga, juntando o mosto das uvas tardegas com a aguardente acabada de destilar, enquanto as mulheres se entretêm a fazer compotas de quase tudo. Compotas de pêssegos, cerejas, ginjas, amoras, marmelos, figos, numa infusão de açúcar em ponto, outras fazem o mesmo, mas juntam aos frutos uma calda de açúcar guardando a compota em frascos fechados hermeticamente depois de lhe extrair o ar.
Depois, também é preciso fazer a marmelada, para que os marmelos não se estraguem. O dia de fazer a marmelada é uma azafama como a matança. É ver as mulheres, todas assoberbadas, cozendo os marmelos, ralando-os para um tacho enorme de esmalte azul e depois, juntando-lhe o açúcar mexendo sempre, até a marmelada ficar no ponto para se poder aguentar todo o Inverno, em malgas cobertas com um papel fininho que se comprava na Livraria do Sr. Mário Péricles, ou do Sr. Silva.
A marmelada era mais um petisco do que outra coisa, para quando se tinha visitas, ou para um doente, ou para a garotada quando Inverno fora não se cansam de cantar os Reis.
Aqueles mais descuidados ainda trasfegam o vinho, que acabou de ferver à pouco, guardando-o sacramentalmente em pipos de cem litros para se ir bebendo ao longo do ano, à hora das refeições, nos trabalhos do campo, ou no remanso da frescura da adega na companhia dos amigos enquanto mordiscam duas azeitonas curadas com casca de laranja e ervas do monte.
E assim homens e mulheres se vão entretendo nesta alquimia domestica à boa maneira da sábia cigarra que guarda do riso para o choro que é o mesmo que dizer do Verão para o Inverno.
Desta maneira as memórias chegam até à taberna da nossa aldeia, onde os clientes escasseiam para animar o convívio. O tio Pepe de Argoselo, com a mula carregada de peles e sempre cheirando a naftalina, já se foi embora depois de ter comido um pote inteiro de batatas à espanhola, tendo a taberneira refogado só para ele meio peixe de bacalhau com um bom quilo de batatas, malaguetas e pimento espanhol. Depois o comentário era sempre o mesmo:
- A espanholada estava divinal, até o São Bartolomeu a podia comer, mas também me levasteis os olhos da cara por ela.
Então, o Tio Pepe, lá abalava por esse mundo de Cristo, com a consciência tranquila sabendo que em nenhuma taberna comeria uma espanholada tão boa e ao mesmo tempo tão barata. Só falava por vício e por não ter mais nada que dizer. Noutros sítios faziam uma batatas parecidas com estas que lhe chamavam batatas à Gomes de Sá, mas que se ficasse lá com as batatas o Gomes de Sá que não há nada melhor do que uma boa espanholada, regada com vinho quanto baste e comidas no sossego da taberna.
Já o taberneiro se preparava para fechar o soto, contando os magros tostões dum dia de pouca clientela quando chega o tio Guadramil, homem rico que de criado de servir levou a filha dos patrões a morrer de amores por ele. O casamento fez-se para desgosto dos pais da rapariga. Mas no povoado comenta-se naquela sabedoria duma experiência secular que o que valeu à casa dos Morgados foi o Guadramil para salvar o casal duma ruína anunciada. Contudo, o tio Guadramil nunca se habituou ao estatuto de novo rico e como ele se regalava ir à taberna, comprar o maior peixe de bacalhau que lá havia e levá-lo às costas, passeando-se devagar na tranquilidade da estrada. Os vizinhos haviam de comentar: Como o Guadramil se trata bem! E isso dava-lhe uma alegria enorme na recordação do tempo da fome em que uma sardinha chegava para dois, tocando a cabeça aos garotos e o rabo ao adultos pois se gastavam no trabalho.
Vaidades do tio Guadramil que o taberneiro explorava para lhe vender sempre o maior bacalhau do saco, ou a maior polveira da tarifa, naquela sagueza de quem conhece a alma humana, melhor do que ninguém, sem nunca ter ido a outra Universidade a não ser à disciplina da observação aturada, atrás do balcão feito duma só tábua de castanho onde os homens do povoado, os foragidos e os viajantes sempre aproveitam para repousar dos cansaços infindos das longas caminhadas da vida.
E finalmente, vejam como é fácil ser escritor em Trás-os-Montes, e se no meu caso, não escrevo melhor a culpa é só minha pois o tema é infindo como os segredos do Nordeste, a terra do nosso futuro, porque se adivinha que vindos de longe, das canseiras e do desassossego do mundo, outros Povos chegarão a este último reduto onde a vida ainda é possível, onde o homem foi capaz de humanizar a natureza sem se desumanizar, nesta cumplicidade de quem sabe que a cultura tem que estar ao serviço da humanidade, independentemente deste despudor que se chama aldeia global, onde perdemos a privacidade da nossa casa e a diferença de comer as batatas com a casca porque não gostamos delas doutra maneira.
Com esses homens vindos de antiquíssimas paragens virá dinheiro e principalmente mulheres à beira de ser mães e nascerão crianças e de novo abriremos a nossa escola na alegria do giroflé giroflá cantado em jogo de roda pelas crianças que vieram de longe.
O Nordeste povoar-se-á na alegria dum desenvolvimento sustentado, de novo correrá leite e mel nos nossos vales tão floridos de estevas e giestas e faremos, sem dúvida, a nova Páscoa, nem que seja a Páscoa duma utopia consentida, mas que desejamos.

Fernando Calado nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança. 
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.

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