O mocho-galego, a andorinha-das-chaminés e o cuco estão entre as aves comuns que continuam a perder população em Portugal. A conclusão resulta de 22 anos de monitorização feita pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA). O declínio é particularmente acentuado nos meios agrícolas.
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| Cuco (Cuculus canorus). Foto: RSPB Images |
Segundo o Censo de Aves Comuns, em 2025, as dez espécies que registaram maior número de indivíduos foram o pardal (4812), o pombo-das-rochas (1764), o estorninho-preto (1588), a milheirinha (1564), o melro-preto (1552), a andorinha-dos-beirais (1503), a fuinha-dos-juncos (1442), a rola-turca (1378), a andorinha-das-chaminés (1324) e o verdilhão (1264).
Neste Censo, os indicadores ambientais calculados pela SPEA combinam as tendências populacionais de várias espécies representativas de cada habitat: 23 espécies agrícolas, 20 florestais e 25 urbanas.
Uma das conclusões deste Censo é que as populações de aves associadas aos campos agrícolas mantêm uma tendência negativa em Portugal Continental.
Em sentido contrário, as aves dos meios florestais apresentam uma evolução global positiva.
Pela primeira vez, a SPEA calculou também um indicador para os meios urbanos, que revela igualmente uma tendência positiva.
Ainda assim, no conjunto das 64 espécies analisadas, o indicador geral das aves comuns apresenta uma evolução negativa ao longo das últimas duas décadas.
“Os resultados deixam um alerta claro: a biodiversidade dos meios agrícolas continua sob forte pressão”, afirma, em comunicado, Hany Alonso, coordenador nacional do Censo de Aves Comuns e técnico sénior de Ciência da SPEA. Segundo o responsável, embora a evolução positiva dos indicadores florestal e urbano seja um sinal encorajador, ela não compensa a perda de biodiversidade nos meios agrícolas nem o declínio de espécies como a laverca, a andorinha-das-chaminés ou o cuco.
Quase metade das espécies agrícolas está em declínio
O indicador dos meios agrícolas é construído a partir da evolução de 23 espécies representativas deste habitat desde 2004. Dessas, dez (cerca de 43%) apresentam um declínio moderado, oito têm uma tendência estável e cinco têm uma tendência positiva.
“A andorinha-das-chaminés e o mocho-galego são as espécies que apresentam maiores declínios nos últimos dez anos”, destaca o Censo das Aves Comuns.
Destas 23 espécies de aves que dependem dos meios agrícolas, aquelas com maiores declínios nos últimos 22 anos são o mocho-galego, o carraceiro, o pintassilgo, o peneireiro, a andorinha-das-chaminés, o picanço-real, o abelharuco, o pardal, o cartaxo e a milheirinha.
As cinco espécies que registam tendência positiva são a cegonha-branca, a fuinha-dos-juncos, o milhafre-preto, a pega e o estorninho-preto.
Nos meios florestais, apesar da evolução positiva do indicador global, cinco das 20 espécies avaliadas registam tendências negativas: o picanço-barreteiro, o cuco, a cotovia-dos-bosques, o chapim-real e a rola-brava.
O pombo-torcaz foi a única espécie florestal a registar um aumento acentuado. Com um aumento moderado surgem a trepadeira, o chapim-azul, o pisco-de-peito-ruivo, o peto-ibérico e a toutinegra-de-barrete.
O relatório identifica ainda outras espécies em regressão, como a felosa-poliglota, o peneireiro-cinzento e a alvéola-cinzenta. A laverca e a águia-caçadeira registam declínios acentuados, enquanto a perdiz-comum, o chasco-ruivo e o rouxinol-grande-dos-caniços apresentam igualmente tendências negativas.
Segundo a SPEA, o declínio das aves é transversal a diferentes ecossistemas e grupos ecológicos, afetando espécies insetívoras, granívoras e carnívoras. Ainda assim, é nos meios agrícolas que a perda de biodiversidade é mais evidente, envolvendo tanto espécies residentes como migradoras.
Maior participação reforçou o censo em 2025
A campanha de 2025 contou com a monitorização de 52 quadrículas de 10 × 10 quilómetros em Portugal Continental, o valor mais elevado desde 2014 e mais de 40% acima do registado nos anos anteriores. No total, foram realizados censos em 1040 pontos de escuta distribuídos pelo território.
Segundo a SPEA, este aumento da participação permitiu recolher mais informação e melhorar a capacidade de acompanhar as alterações nas populações de aves. Cerca de 73% dos participantes completaram as duas visitas previstas na metodologia do programa.
Desde o início do censo, em 2004, já foram recolhidos dados em 179 quadrículas do continente. Dessas, 37 foram monitorizadas durante mais de dez anos e 92 durante mais de cinco anos, permitindo construir séries temporais particularmente importantes para avaliar alterações de longo prazo.
Nos Açores, o censo de 2025 decorreu nas nove ilhas, envolvendo 29 voluntários e colaboradores da administração regional, que monitorizaram 20 quadrículas. Foram calculadas tendências para 17 espécies, destacando-se o aumento da rola-turca e as tendências negativas da toutinegra-dos-Açores e do milhafre.
Na Madeira, foram monitorizadas cinco quadrículas e 86 pontos de escuta. Aqui, a SPEA quer reforçar a participação no arquipélago para obter avaliações populacionais mais robustas nos próximos anos.
Esta iniciativa assenta no trabalho de observadores voluntários que, durante a primavera, visitam áreas previamente selecionadas e registam todas as aves vistas ou ouvidas em pontos de escuta. Os dados recolhidos contribuem também para a avaliação das aves comuns à escala europeia.
Para garantir a continuidade do programa, a organização considera prioritário manter o apoio aos voluntários, promover ações de formação, reforçar a coordenação regional e assegurar financiamento estável para a recolha, análise e divulgação dos resultados.


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