Número total de visualizações do Blogue

Pesquisar neste blogue

Aderir a este Blogue

Sobre o Blogue

SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Quando o fungo é um estranho viajante à boleia da natureza

 Os fungos estão a aparecer em novos locais com consequências inesperadas.

AGORASTOS PAPATSANIS - Os cogumelos-porcelana, como estes que crescem numa bétula do monte Olimpo, podem medir 2,5 a 8 centímetros.

Anne Pringle examinava cogumelos num campo do Parque Estadual de Tomales Bay, a norte de São Francisco, quando teve um problema. Estava rodeada por um mar de um dos cogumelos mais perigosos do mundo: Amanita phalloides, conhecido como cicuta-verde ou amanita-falóide.

Anne Pringle examinava cogumelos num campo do Parque Estadual de Tomales Bay, a norte de São Francisco, quando teve um problema. Estava rodeada por um mar de um dos cogumelos mais perigosos do mundo: Amanita phalloides, conhecido como cicuta-verde ou amanita-falóide.

A cicuta-verde é a culpada da maioria dos envenenamentos relacionados com cogumelos. As suas potentes toxinas começam a atacar o organismo humano seis horas após o seu consumo, causando dor abdominal, náusea e vómitos. Se não forem tratadas, podem provocar insuficiência hepática fatal. Em Agosto do ano passado, três pessoas morreram na Austrália devido à ingestão de cicuta-verde. O cogumelo, com cerca de 12 centímetros de altura e um chapéu branco ligeiramente amarelo-esverdeado, pode facilmente ser confundido com um espécime comestível.

➖➖➖

Podendo ser facilmente confundida com um um cogumelo comestível, A cicuta-verde é responsável pela maioria dos envenenamentos relacionados com cogumelos.

➖➖➖

Contudo, a cicuta-verde não evoluiu para matar pessoas. Este cogumelo é um fungo micorrízico. Aflora de um emaranhado de filamentos fúngicos que crescem no solo e se enrolam em torno das raízes das árvores, ajudando-as a obter nutrientes. Esta actividade subterrânea intriga e preocupa cientistas como Anne Pringle, pois sabemos pouco sobre o reino dos fungos e sobre aquilo que acontece quando estas redes subterrâneas sofrem alterações.

No último século, o mundo tornou-se mais interligado do que nunca e os fungos embarcaram em deslocações globais, viajando à boleia de plantas importadas ou, simplesmente, voando centenas de quilómetros com o vento. Agora, as alterações climáticas estão a permitir que muitos destes organismos prosperem em ecossistemas que eram, no passado, demasiado frios e secos. Se a história já nos ensinou algo é que provavelmente não estamos prontos para o que aí vem.

➖➖➖

Os fungos embarcaram em deslocações globais, viajando à boleia de plantas importadas ou, simplesmente, voando centenas de quilómetros com o vento.

➖➖➖

Os fungos são uma dimensão terrestre escondida que estamos a aprender a ver. Prosperam no solo e produzem estruturas comestíveis, como as plantas, mas muitas características nada têm que ver com as das plantas. Enquanto estas têm paredes celulares com celulose, as dos fungos têm quitina, um tipo de fibra também encontrada nos exoesqueletos de insectos e crustáceos. E os fungos são heterotróficos – capazes de se alimentarem de outros organismos, ou de madeira e matéria vegetal morta, excretando enzimas e absorvendo os nutrientes. Sem os fungos, plantas e animais mortos acumular-se-iam no chão da floresta e a maioria das árvores teria dificuldade em encontrar os nutrientes necessários para sobreviverem. “Provavelmente são mais próximos dos animais do que pensamos”, diz Rabern Simmons, curador de fungos do Herbário da Universidade de Purdue.

Durante milhões de anos, evoluíram para viver em ambientes específicos, por vezes em parceria com apenas outra espécie. Porém, quando um fungo é movido para milhares de quilómetros de distância, essas relações complexas podem correr mal. “Os fungos patogénicos podem gerar uma tempestade perfeita”, diz Stephen Parnell, epidemiologista da Universidade de Warwick que estuda a disseminação de doenças em plantas.

➖➖➖

Sem os fungos, plantas e animais mortos acumular-se-iam no chão da floresta e a maioria das árvores teria dificuldade em encontrar os nutrientes necessários para sobreviverem.

➖➖➖

Existem diversas estratégias de reprodução que ajudam os fungos a sobreviver. Esporos aerotransportados de diferentes espécies podem misturar-se num novo habitat ou os cogumelos podem fundir os filamentos que formam as suas redes subterrâneas. Em caso de necessidade, porém, muitos podem reproduzir-se de forma assexuada.

AGORASTOS PAPATSANIS - Dando início à nova geração e ao ciclo de crescimento, os esporos de um cogumelo de chapéu cor-de-veado no monte Olimpo libertam- se e dançam no ar sob as suas lâminas.

Com os climas e as paisagens em mudança, estas características reprodutivas tornam os fungos singularmente adaptáveis. Fungos exógenos podem disseminar-se em novos ambientes e refazer a topografia em seu redor. Os castanheiros-americanos foram outrora gigantes dos Apalaches. No início do século XX, porém, o fungo Cryphonectria parasitica aterrou no território americano. No Japão e na China, era um mero incómodo para os castanheiros asiáticos. No castanheiro-americano, causou úlceras profundas que o privavam lentamente de água e nutrientes. Estima-se que quatro mil milhões de árvores tenham morrido no século seguinte.

Enquanto os últimos castanheiros-americanos definhavam, rãs e outros anfíbios enfrentavam um perigo semelhante devido a um patógeno fúngico conhecido como quitrídio. Este fungo, que se pensa ser originário da península coreana, vivia em harmonia com os anfíbios locais. Espalhou-se pelo mundo nos últimos 150 anos e está agora associado ao declínio de pelo menos quinhentas espécies de anfíbios. Causou o desaparecimento de 90 espécies dos seus habitats e foi descrito como a pior doença que afectou a vida selvagem em toda a história.

“Estamos a deslocar material biológico pelo mundo numa questão de horas para continentes que, durante muito tempo, estiveram separados”, diz o ecologista Ben Scheele. “No fundo, estamos a recriar uma Pangeia disfuncional.”

No outono passado, Anne Pringle e um dos seus alunos passaram semanas a colher centenas de cicutas-verdes em florestas do Reino Unido, Hungria, França e Polónia. Estas amostras poderão ajudar os cientistas a compreender melhor a razão pela qual a cicuta-verde prospera em alguns ecossistemas e não noutros.

➖➖➖

Um patógeno fúngico conhecido como quitrídio foi descrito como a pior doença que afectou a vida selvagem em toda a história.

➖➖➖

Os investigadores procuravam um predador ou patógeno que pudessem replicar, de forma a impedirem estes cogumelos de invadirem o solo das florestas – um método chamado biocontrolo. No entanto, uma das maneiras mais eficazes de manter os fungos no ambiente certo é através da prevenção e monitorização da importação de espécies estrangeiras, testando-as em busca de fungos.

➖➖➖

“Estamos a deslocar material biológico pelo mundo numa questão de horas para continentes que, durante muito tempo, estiveram separados”, diz o ecologista Ben Scheele.

➖➖➖

Quando não se consegue impedir que as doenças fúngicas entrem num determinado ambiente, o seu tratamento pode revelar-se uma tarefa colossal. Vários cientistas têm trabalhado em projectos de cultivo, com décadas de duração, destinados a restaurar o castanheiro-americano. Uma das campanhas envolve uma polémica árvore geneticamente modificada. E embora as rãs possam curar-se do quitrídio a nível individual, a erradicação do fungo em ambientes onde o fungo se estabeleceu é praticamente impossível. No ano passado, um novo estudo sobre a maneira como a cicuta-verde produz a sua poderosa toxina abriu a porta a um possível antídoto.

Algumas empresas tecnológicas emergentes e organizações sem fins lucrativos têm prometido soluções que ajudem os fungos a ajudar-nos. A Funga, uma empresa sediada no Texas, identifica fungos autóctones capazes de ajudar as árvores a armazenar mais carbono. A SPUN, uma organização de investigação científica, está a cartografar os fungos do planeta para identificar pontos críticos regionais que precisam de ser conservados. Existem pelo menos 350 espécies em risco de extinção, embora o número real deva ser muito superior.

➖➖➖

Um recente estudo sobre a maneira como a cicuta-verde produz a sua poderosa toxina abriu a porta a um possível antídoto.

➖➖➖

Para Rabern Simmons, vencer a corrida contra-relógio da biodiversidade é fundamental – tanto para a humanidade como para os fungos. “Estamos a descobrir facetas benéficas para a humanidade de alguma forma, seja na produção de compostos como biocombustíveis ou de compostos com possíveis fins medicinais.” Aquilo que for protegido poderá um dia resolver o próximo problema que possamos criar.

Artigo publicado originalmente na edição de Junho de 2024 da revista National Geographic.

Sarah Gibbens
Actualizado a 19 de junho de 2024

Sem comentários:

Enviar um comentário