Esta semana a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) revelou o resultado do Censo de Aves Comuns. O seu coordenador, Hany Alonso, fala à Wilder sobre a importância das aves que estamos tão habituados a conhecer e de as continuar a monitorizar. Ainda que não haja financiamento assegurado.
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| Mocho-galego (Athene noctua). Foto: El Golli Mohamed/Wiki Commons |
WILDER: Porque é preciso preocupar-nos com espécies comuns e não apenas com as raras e ameaçadas?
Hany Alonso: O nosso planeta é composto por uma diversidade incrível de espécies e essa é a sua maior riqueza, a nossa biodiversidade. À medida que a ação humana tem conduzido a alterações profundas nos nossos ecossistemas, as espécies vão respondendo às mesmas; algumas mantêm-se e outras vão diminuindo em abundância e chegam mesmo a desaparecer. Para melhor compreendermos o que está a acontecer não basta olharmos para as espécies ameaçadas ou raras, que são, apesar de tudo, em termos quantitativos, uma pequena parte do todo. Olhando para as espécies comuns – as que têm uma distribuição alargada, compõem a maior parte da biomassa da biodiversidade e desempenham papéis cruciais nas relações tróficas – podemos ter uma ideia muito mais fidedigna do que está a acontecer. Na América do Norte, olhando para as aves comuns, percebemos que em 50 anos perdemos 29% da avifauna. Na Europa, a perda foi de cerca de 25% em pouco mais de 30 anos. Tudo isto foi-nos dito pelas espécies de aves comuns, através de monitorizações similares ao Censo das Aves Comuns.
Mas o mais importante é que as aves comuns também funcionam como um indicador do que está a acontecer nos ecossistemas e o significado real destas perdas é exponencialmente maior. Para que as aves insetívoras estejam em declínio houve perdas muito significativas de insetos e invertebrados, e para que os meios agrícolas tenham perdido muitas aves, outros grupos de organismos, incluindo plantas e outros pequenos vertebrados também foram muito afetados.
É obviamente importante monitorizar e trabalhar prioritariamente na conservação das aves ameaçadas, mas aquilo que as espécies comuns nos estão a dizer é o que se passa no nosso ambiente, e é bastante alarmante.
W: Há alguma espécie que o preocupe particularmente?
Hany Alonso: Infelizmente, há várias espécies que me preocupam, pois são várias as que apresentam uma situação de declínio de longo-termo, incluindo espécies bastante comuns como os pardais, pintassilgos ou milheirinhas. Mas destaco três casos que, não sendo novidade, merecem alguma atenção, sendo que estas três espécies partilham algumas características, todas elas são insetívoras e migradoras de longa-distância: 1) o picanço-barreteiro, por ser uma das espécies que evidenciam um declínio mais acentuado. Tanto os seus números como a sua área de distribuição têm estado a cair. 2) o cuco, por ser uma espécie icónica que as pessoas conhecem bem por causa da sua vocalização característica. Este migrador de longa-distância, tem diminuído quer na sua área de distribuição enquanto nidificante, quer na sua abundância em Portugal. Não são claras as razões para este declínio, que também está a ocorrer noutros países europeus, mas pode estar relacionado com diminuição de presas ou alterações na abundância das espécies hospedeiras. 3) Finalmente, a andorinha-das-chaminés. Esta é uma espécie cujo declínio surpreende a maior parte das pessoas. Para já, não é evidente nenhum declínio na sua área de distribuição mas a diminuição da sua abundância em Portugal e Espanha é significativa. As razões para o declínio são provavelmente multi-fatoriais: a perda de locais de nidificação, a diminuição de presas e as alterações climáticas estão entre as principais prováveis causas.
W: Acredita que este Censo consegue tirar uma boa fotografia do que está a acontecer às nossas aves comuns? Ou ainda são precisos mais voluntários?
Hany Alonso: Acredito que, para a maioria das espécies, o censo consegue uma fotografia bastante razoável do estado das populações a nível nacional. Tanto assim é, que para uma grande parte das espécies, é evidente uma consistência nos resultados, apesar da cobertura espacial e dos participantes variarem um pouco de ano para ano. E quando olhamos para os resultados do censo realizado em Espanha, também são consistentes com os nossos. Muitas das espécies comuns que estão em declínio em Portugal também estão em Espanha, embora existam obviamente algumas diferenças.
Mas uma boa fotografia não é a fotografia que nós queremos. Queremos a melhor fotografia possível e queremos que essa fotografia nos permita avaliar bem o estado da avifauna em todas as regiões do país. Sabemos que ainda temos um esforço de amostragem heterogéneo e que o estado das espécies não é igual em todo o território. Por isso são precisos ainda mais voluntários e, simultaneamente, tentar cobrir regiões do país que estejam menos cobertas pelo censo.
Em 2025 tivemos 52 voluntários no continente e mais de 30 voluntários e colaboradores nos arquipélagos dos Açores e da Madeira. É um resultado muito positivo, e devemos isso ao incrível esforço e dedicação dos nossos voluntários, e no caso dos Açores também à colaboração com a Secretaria Regional do Ambiente e Ação Climática, que se tem disponibilizado para colaborar e participar nas monitorizações. No entanto, sendo este um projeto de monitorização de longo-termo, esta é uma corrida contínua e que tem sempre bastante desgaste. Envolver os cidadãos implica dedicar tempo a angariar novos voluntários e sobretudo a cuidar dos que participam no censo, ano após ano. Acho que também temos muitas melhorias para fazer e o desafio de concretizá-las com recursos muito limitados. Este ano (2026) ainda não fechámos as contas da participação no censo, porque ainda estamos a receber dados, mas é provável que não ultrapassemos os números de participação de 2025.
W: Porque decidiram incluir, pela primeira vez, um indicador ambiental urbano e qual a sua importância?
Hany Alonso: Ao longo dos últimos anos, temos equacionado a hipótese de lançar um programa de monitorização específico para as aves no meio urbano, algo que nos permita avaliar as tendências das espécies de aves nestes ambientes, mas que também permita avaliar o estado geral da biodiversidade nas cidades e outros aglomerados urbanos. É uma necessidade evidente, visto que há poucos indicadores ambientais no meio urbano e essa informação pode ajudar-nos a definir estratégias e medidas concretas que possam promover ou beneficiar a biodiversidade, ou mitigar ameaças existentes nos meios urbanos. Já concorremos com essa ideia em algumas candidaturas a projetos, mas infelizmente não avançaram. Decidimos por isso, para já, avançar com este indicador ambiental urbano no âmbito do Censo de Aves Comuns pois, apesar de não ser um programa direcionado exclusivamente aos meios urbanos, também recolhe informação nesses habitats. Mas não desistimos da ideia anterior, pois achamos que é importante ter um programa de monitorização ambiental desenhado especificamente para o meio urbano, e que permita uma avaliação mais detalhada dos estado das suas populações de aves.
W: Este Censo já existe há mais de 20 anos e é usado como indicador ambiental. O que mudou nas políticas desde 2004 e porque é que, apesar disso, as aves dos meios agrícolas continuam a diminuir?
Hany Alonso: Têm existido mudanças nas políticas agrícolas desde 2004, mas é difícil dizer que têm sido no sentido de inverter estas tendências negativas das espécies dos meios agrícolas. Aliás, basta olharmos para a situação de algumas espécies ameaçadas dependentes dos meios agrícolas como o sisão ou o tartaranhão-caçador, cujos declínios têm sido acentuados, isto apesar de existirem medidas de conservação dirigidas a estas espécies. A verdade é que é necessário um maior compromisso por parte dos decisores políticos e a necessidade de dar mais prioridade à conservação da natureza. Não se trata de comprometer a atividade agrícola, bem pelo contrário, é simplesmente assumir que a promoção da biodiversidade tem de fazer parte da atividade agrícola. Precisamos trabalhar todos em conjunto para que os nossos campos agrícolas sejam compatíveis com a biodiversidade e todos saem a ganhar com isso, sobretudo as gerações futuras. Tenho noção de que estamos em contraciclo, mas nunca foi tão necessário que a política se envolva mais na conservação da natureza.
W: O que revelam os resultados deste Censo sobre o estado da natureza e a conservação em Portugal?
Hany Alonso: Infelizmente, revelam que a perda de biodiversidade tem vindo a ocorrer ao longo das décadas, sobretudo nos meios agrícolas. Vale a pena frisar que os sistemas agrícolas e agroflorestais compõem uma parte muito significativa dos ecossistemas em Portugal, e que muitas das espécies dependem deles direta ou indiretamente, e foram-se adaptando lentamente aos mesmos à medida que o homem modelava a paisagem. São precisamente estes ecossistemas que recentemente têm sofrido transformações profundas mas sobretudo muito rápidas, deixando menos margem de manobra para que as espécies se adaptem às mudanças.
A intensificação agrícola é o grande problema, mas na verdade ela congrega ameaças muito diferentes que afetam a sobrevivência ou produtividade de muitas espécies. O uso de pesticidas e fertilizantes, as grandes monoculturas, o desaparecimento do mosaico agrícola, o abandono rural, a perda e a degradação do habitat, entre muitas outras. Para os insetívoros, o uso de pesticidas e a falta de diversidade na vegetação são problemas sérios. Para espécies que nidificam no solo – como a laverca, o tartaranhão-caçador, e muitas outras espécies – as alterações de larga escala nas práticas agrícolas tradicionais (nomeadamente o corte antecipado das culturas para feno, ao invés do corte tardio para produção de cereal) afetam a produtividade e demografia dessas espécies.
Sabemos que a produção agrícola é necessária e que temos de trabalhar para garantir a nossa independência na produção alimentar. Mas precisamos de refletir sobre o estado da natureza e apostar em práticas e medidas que realmente beneficiem a biodiversidade e que compensem os efeitos negativos da intensificação agrícola. Não se trata de ir contra a agricultura, mas de trabalhar em conjunto com o setor para garantir práticas agrícolas mais amigas da natureza. Pode parecer estranho, mas proteger as galerias ripícolas, evitar a contaminação das linhas de água, dar preferência às sebes vivas, manter poisios e limitar o encabeçamento são práticas conciliáveis com uma produção agrícola eficiente e que promovem a biodiversidade e podem até ajudar na regeneração dos solos.
Mas há outros problemas noutro tipo de habitats, como as zonas húmidas ou habitats costeiros, sujeitos a inúmeras pressões relacionadas com atividades humanas. Olhando para o futuro de forma positiva, temos agora no Plano Nacional de Restauro, uma boa oportunidade de melhorar o estado da natureza em Portugal.
W: De onde vem o financiamento para este Censo?
Hany Alonso: Neste momento, o censo não tem financiamento assegurado. A execução da maioria do trabalho de campo tem sido garantida por voluntários, assim como a coordenação regional, sendo que os gastos com a preparação e análise dos dados, produção de relatórios e divulgação dos resultados do censo tem sido garantida pela SPEA, com recurso aos seus próprios fundos.
Sem dúvida que a importância deste programa de monitorização justificava mais apoios, até porque isso permitiria investirmos mais nas atividades formativas e na melhoria da cobertura do censo, o que significaria mais dados e mais qualidade. E os dados têm sido muitíssimo utilizados. Os dados obtidos têm sido partilhados e utilizados pelas entidades administrativas, por exemplo, para que possam reportar o estado das espécies de Portugal na União Europeia. Têm sido partilhados com parceiros europeus para avaliação das tendências das espécies à escala europeia e também com a academia, para projetos científicos e para os estudantes desenvolverem as suas teses.
Há muitas razões para se investir mais nos programas de monitorização de longo-termo, pois os dados são a base do conhecimento, das avaliações do estado das espécies, da produção de indicadores e, em última instância, são a base para a tomada de decisões. Sabemos que sempre que forem precisos, os dados deste censo vão ser requisitados, por inúmeras entidades, e a SPEA irá fornecê-los pois sabemos da importância que têm. Mas sem querer repetir-me demasiado, ainda falta que se reconheça a importância de investir neste e noutros programas de monitorização da biodiversidade.


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