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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 8 de agosto de 2026

As Mãos que Sustentaram a Terra


Em Trás-os-Montes, durante séculos, o campo teve voz de mulher. A terra, dura e generosa, reconhecia-lhe o passo ligeiro, o lenço atado à cabeça, a força escondida sob o avental. Eram elas que amanheciam com o dia, antes do sol, quando o galo ainda hesitava em cantar, punham-se a caminho das leiras, do curral, da fonte. O seu trabalho era o primeiro a começar e o último a acabar e, no entanto, era o que ninguém contava nas estatísticas nem nas conversas da taberna.

As mulheres trasmontanas foram o alicerce de uma economia familiar que se fazia de suor e esperança. Quando os homens partiam para a França, o Porto ou Lisboa, em busca de trabalho e de sorte, eram elas que ficavam a cuidar da casa, dos filhos, dos animais e da terra. Ficavam a remendar o tempo e a alimentar o futuro. E faziam-no sem alarde, com uma dignidade que dispensava reconhecimento.

Nos campos, viam-se dobradas sobre a terra, de enxada na mão, o corpo curvado mas o olhar firme. Acompanharam o ciclo das estações como quem reza, semearam no frio, ceifaram no calor, colhiam o cereal com as mãos calejadas e faziam do grão o sustento do lar. O seu rosto guardava o sol de muitos verões e o frio de muitos invernos. As rugas eram uma história de esforço, de perda, de resistência.

O que fazia delas diferentes era o modo como faziam o trabalho. Enquanto lavravam, cuidavam, enquanto mondavam, ensinavam os filhos, enquanto tiravam água do poço, levavam consigo as dores do mundo e lavavam-nas ali. A força vinha-lhes de dentro sem pompa nem medalhas, feita de fé e teimosia.

Nas festas da aldeia, via-se nelas o rosto mais bonito da coragem. As mãos marcadas, o lenço colorido, o sorriso discreto. Eram as primeiras a preparar os tabuleiros, a cozer o pão, a acender o lume do convívio. A comunidade sabia, ainda que raramente o dissesse, que sem elas nada acontecia. A terra só dava fruto porque elas a compreendiam, a aldeia só resistia porque elas a seguravam.

Nos serões de inverno, à volta do lume, eram também as guardiãs e transmissoras da memória. Contavam histórias de lobos, de milagres, de amores e desgraças. Nelas cabia a sabedoria antiga, os remédios das ervas, as rezas contra o mau-olhado, as formas de fazer o pão e o queijo. Eram livro e biblioteca, arquivo e oração. Tudo passava por elas. O saber, a fé, o futuro.

Mas, apesar disso, durante muito tempo o seu papel permaneceu invisível. Nos registos, eram “ajudantes de lavrador”, “domésticas”, “mulheres de”. E, no entanto, foram elas que mantiveram o campo vivo quando a vida parecia desistir. Foram elas que, com mãos pequenas e costas curvadas, sustentaram a grandeza humilde de uma terra esquecida.

Hoje, quando muitas aldeias se esvaziam e os campos se cobrem de mato, é relativamente fácil romantizar o passado. Mas o que aquelas mulheres viveram não foi poesia, foi resistência. Trabalharam com a mesma intensidade com que amavam, suportaram a ausência dos maridos, a dureza do clima, a pobreza dos anos maus. Fizeram-no porque era preciso, porque não havia outro caminho, porque a terra lhes pedia.

O futuro, esse que tantas vezes lhes escapou, está agora nas mãos de quem quiser honrar e lembrar a sua força. Talvez o maior tributo que se possa prestar às mulheres dos campos de Trás-os-Montes seja lembrar que a terra, quando floresce, ainda cheira às suas mãos.

HM
8 de Agosto de 2026

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