Em Trás-os-Montes, durante séculos, o campo teve voz de mulher. A terra, dura e generosa, reconhecia-lhe o passo ligeiro, o lenço atado à cabeça, a força escondida sob o avental. Eram elas que amanheciam com o dia, antes do sol, quando o galo ainda hesitava em cantar, punham-se a caminho das leiras, do curral, da fonte. O seu trabalho era o primeiro a começar e o último a acabar e, no entanto, era o que ninguém contava nas estatísticas nem nas conversas da taberna.
As mulheres trasmontanas foram o alicerce de uma economia familiar que se fazia de suor e esperança. Quando os homens partiam para a França, o Porto ou Lisboa, em busca de trabalho e de sorte, eram elas que ficavam a cuidar da casa, dos filhos, dos animais e da terra. Ficavam a remendar o tempo e a alimentar o futuro. E faziam-no sem alarde, com uma dignidade que dispensava reconhecimento.
Nos campos, viam-se dobradas sobre a terra, de enxada na mão, o corpo curvado mas o olhar firme. Acompanharam o ciclo das estações como quem reza, semearam no frio, ceifaram no calor, colhiam o cereal com as mãos calejadas e faziam do grão o sustento do lar. O seu rosto guardava o sol de muitos verões e o frio de muitos invernos. As rugas eram uma história de esforço, de perda, de resistência.
O que fazia delas diferentes era o modo como faziam o trabalho. Enquanto lavravam, cuidavam, enquanto mondavam, ensinavam os filhos, enquanto tiravam água do poço, levavam consigo as dores do mundo e lavavam-nas ali. A força vinha-lhes de dentro sem pompa nem medalhas, feita de fé e teimosia.
Nas festas da aldeia, via-se nelas o rosto mais bonito da coragem. As mãos marcadas, o lenço colorido, o sorriso discreto. Eram as primeiras a preparar os tabuleiros, a cozer o pão, a acender o lume do convívio. A comunidade sabia, ainda que raramente o dissesse, que sem elas nada acontecia. A terra só dava fruto porque elas a compreendiam, a aldeia só resistia porque elas a seguravam.
Nos serões de inverno, à volta do lume, eram também as guardiãs e transmissoras da memória. Contavam histórias de lobos, de milagres, de amores e desgraças. Nelas cabia a sabedoria antiga, os remédios das ervas, as rezas contra o mau-olhado, as formas de fazer o pão e o queijo. Eram livro e biblioteca, arquivo e oração. Tudo passava por elas. O saber, a fé, o futuro.
Mas, apesar disso, durante muito tempo o seu papel permaneceu invisível. Nos registos, eram “ajudantes de lavrador”, “domésticas”, “mulheres de”. E, no entanto, foram elas que mantiveram o campo vivo quando a vida parecia desistir. Foram elas que, com mãos pequenas e costas curvadas, sustentaram a grandeza humilde de uma terra esquecida.
Hoje, quando muitas aldeias se esvaziam e os campos se cobrem de mato, é relativamente fácil romantizar o passado. Mas o que aquelas mulheres viveram não foi poesia, foi resistência. Trabalharam com a mesma intensidade com que amavam, suportaram a ausência dos maridos, a dureza do clima, a pobreza dos anos maus. Fizeram-no porque era preciso, porque não havia outro caminho, porque a terra lhes pedia.
O futuro, esse que tantas vezes lhes escapou, está agora nas mãos de quem quiser honrar e lembrar a sua força. Talvez o maior tributo que se possa prestar às mulheres dos campos de Trás-os-Montes seja lembrar que a terra, quando floresce, ainda cheira às suas mãos.

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