Durante um século, Ormuz foi essencial para o domínio português no oceano Índico. Em 1622, porém, o xá da Pérsia reconquistou esta praça estratégica com apoio inglês.
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| BRIDGEMAN / ACI - O golfo Pérsico num mapa do "Atlas Universal" de Fernão Vaz Dourado. 1571 |
Um provérbio persa resume a importância de Ormuz: “O mundo é um anel e Ormuz é a sua jóia.” Não se trata de um exagero.
A ilha de Ormuz é uma rocha árida situada a cerca de dez quilómetros da costa, sem água doce, terras cultiváveis ou madeira, dependendo inteiramente do continente para o seu abastecimento. E, no entanto, durante séculos, foi uma das cidades mais ricas do mundo. A razão é fácil de compreender. Ormuz situa-se à entrada do golfo Pérsico, no estreito com o mesmo nome, que se abre para o oceano Índico. Por este canal, que na sua secção mais estreita não mede mais de 40 quilómetros de largura, circulava durante a Idade Média uma parte substancial do comércio entre a Índia, a Pérsia, a Arábia e a África Oriental. Cavalos árabes, especiarias das Molucas e pérolas do golfo Pérsico cruzavam-se com sedas persas, porcelanas chinesas, tecidos indianos e incenso da Arábia. Nesse imenso fluxo de riquezas, Ormuz posicionava-se como alfândega e nó comercial incontornável.
Foi nesta região que nasceu, no século XI, o reino de Ormuz, uma potência marítima assente no controlo das rotas navais. Os seus governantes transformaram essa posição estratégica numa fórmula política singular. Quando necessário, pagavam tributo às potências dominantes da região (persas, árabes ou indianos). Sempre que possível, porém, combatiam para preservar a sua autonomia comercial. A estratégia revelou-se eficaz. Mas, no início do século XVI, surgiu uma nova potência marítima.
Na sequência da viagem de Vasco da Gama à Índia, entre 1497 e 1498, Portugal irrompeu no cenário político do Índico com a ambição de dominar as principais rotas comerciais daquele oceano. Para o conseguir, procurou controlar pontos estratégicos: Goa, na costa da Índia; Malaca, mais a leste; e Ormuz, à entrada do golfo Pérsico.
No Outono de 1507, seis embarcações portuguesas tripuladas por homens exaustos avistaram Ormuz. O seu comandante, Afonso de Albuquerque, percebeu de imediato o valor da ilha: quem controlasse Ormuz poderia vigiar o comércio entre a Pérsia e a Índia, cobrar impostos sobre mercadorias essenciais e disputar a supremacia aos mamelucos, aos otomanos e aos venezianos.
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| ALBUM - Afonso Albuquerque tomou Ormuz com golpes de violência e actos de diplomacia. (Retrato de autor anónimo.) |
O Império Português
Com escassas centenas de homens, Albuquerque recorreu a um engenhoso estratagema: ordenou que os seus soldados trocassem diariamente de armadura para dar a impressão de que dispunha de um contingente muito maior. A artimanha resultou e a artilharia portuguesa destruiu rapidamente a frota local. Quando os enviados do xá da Pérsia reclamaram o tributo tradicional, Albuquerque respondeu com um gesto teatral: entregou-lhes balas de canhão e flechas, acompanhadas da mensagem de que aquela era “a moeda cunhada por Portugal”. A ilha, porém, foi abandonada.
Em 1515, Albuquerque regressou, aproveitando o facto de o soberano de Ormuz, Turan Xá, lhe pedir apoio para se libertar de um vizir usurpador. Combinando diplomacia e violência, Albuquerque eliminou o rival e transformou Ormuz num protectorado português. Para assinalar a vitória, mandou construir a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz.
Aos que consideravam os seus muros demasiado estreitos, respondeu: “Enquanto a justiça os sustentar, são mais do que suficientes.”
Ormuz não foi uma colónia convencional, mas sim o nó central do sistema imperial mais ambicioso do seu tempo. A fortaleza controlava as rotas entre o golfo Pérsico e o oceano Índico. Uma frota permanente patrulhava o estreito. As alfândegas transformaram Ormuz na segunda maior fonte de receitas da Índia Portuguesa, logo a seguir a Goa. A partir dali, Portugal projectava o seu poder sobre a região da Arábia à Índia Ocidental. Os soberanos de Ormuz continuavam a ocupar o trono, embora subordinados aos interesses portugueses. Tratava-se de uma forma de domínio indirecto, mais económica do que territorial, mas eficaz enquanto Portugal mantivesse a supremacia naval.
A corrupção administrativa foi, contudo, minando a eficácia do sistema. Uma parte crescente das receitas arrecadadas em Ormuz evaporava-se nos bolsos dos comandantes e dos funcionários. O enclave continuava a ser valioso, mas aqueles que o deviam proteger pensavam, muitas vezes, mais em enriquecer do que em preservá-lo.
A reacção persa
Ao longo do século XVI, Portugal manteve Ormuz graças à sua superioridade naval e aos acordos diplomáticos estabelecidos com a Pérsia. Beneficiou também do facto de os safávidas, a dinastia que governava a Pérsia desde 1501, passarem longos períodos envolvidos em guerras continentais contra os otomanos e os usbeques. Mas este frágil equilíbrio começou a desfazer-se quando o xá Abbas I ascendeu ao trono, em 1587.
Depois de consolidar o poder no interior do reino e de assinar um tratado de paz com os otomanos, Abbas voltou a sua atenção para o golfo Pérsico. Considerando a presença portuguesa em Ormuz uma anomalia, iniciou uma estratégia gradual destinada a recuperar posições estratégicas e a isolar a posição portuguesa.
Entretanto, Ormuz passara a integrar a monarquia hispânica a partir de 1580, com a coroação de Filipe como rei das duas coroas ibéricas e dos respectivos impérios. Os interesses portugueses e castelhanos em relação àquela posição nem sempre coincidiam. Para Portugal, Ormuz constituía uma prioridade estratégica; para a corte de Madrid, era apenas uma peça secundária no vasto tabuleiro imperial.
Abbas I propôs a Filipe II um acordo comercial que poderia ter preservado Ormuz para a monarquia hispânica. Porém, quando o soberano aceitou a proposta, em 1619, o xá já perdera a paciência e procurava um novo parceiro comercial.
A queda de Ormuz
Abbas encontrou-o em Inglaterra. A Companhia Inglesa das Índias Orientais via na Pérsia uma oportunidade comercial única. Os ingleses pretendiam aceder ao lucrativo comércio da seda e abrir caminho para mercados condicionados pela hegemonia ibérica. Abbas necessitava de uma frota, e a Companhia carecia de privilégios comerciais. Os interesses de ambos encaixavam: os ingleses forneceriam o poder naval e os persas o exército terrestre.
Em 1622, foi lançada a ofensiva decisiva. Com o apoio da armada inglesa, o exército persa cercou Ormuz e, no dia 3 de Maio, a cidade capitulou. A operação revelou as debilidades do Estado Português da Índia: navios envelhecidos, comandos divididos, financiamento insuficiente e uma administração deteriorada.
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| Getty Images - Vestígios do forte português de Nossa Senhora da Conceição, na ilha de Ormuz. |
A resposta filipina à ofensiva anglo-persa foi descoordenada e, perante esse fracasso, o veredicto do Conselho de Portugal foi implacável: “Não se perdeu Ormuz pelo poder e pela força dos inimigos, mas pela grande confusão, ignorância e medo dos que a tinham a seu cargo.” Após a retirada dos portugueses, Ormuz entrou rapidamente em declínio. Privada do poder que a transformara na chave da Ásia, a jóia deixou de brilhar.
Artigo publicado originalmente na edição nº 30 da revista National Geographic História.





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