29.janeiro.1919 – 13.março.1919
FREIXO DE ESPADA À CINTA, 28.11.1868 – VILA REAL, 11.9.1920
Oficial do Exército.
Governador civil de Bragança (1919). Senador (1919-1920).
Natural de Freixo de Espada à Cinta.
Filho de Miguel Augusto Ferro de Beça, condutor no Ministério das Obras Públicas, e de
Antónia Maria Lages da Trindade.
Casou com Maria do Céu Braga Pimentel, de quem teve três filhos: Miguel Luís Augusto (n. 17.8.1892), Maria do Céu (n. 23.6.1900) e Cândida Teolinda (n. 29.8.1909).
Primo de Abílio Augusto de Madureira Beça, governador civil do distrito de Bragança.
Medalha de prata por comportamento exemplar (1907). Cavaleiro da Real Ordem Militar de S. Bento de Avis (1908). Medalha de ouro por comportamento exemplar (1918). Comendador da Ordem de Santiago da Espada (1919).
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Embora natural de Freixo de Espada à Cinta, foi em Bragança que Desidério Augusto de Beça, descendente de uma das mais influentes famílias do Nordeste Trasmontano, sob o ponto de vista económico e social, se criou e morou boa parte da sua vida.
Assentou como voluntário no regimento de Caçadores n.º 3 em 17 de julho de 1887 e a 26 de junho de 1891 foi promovido a alferes e transferido para Infantaria 24, em Pinhel, mas em 29 de agosto seguinte estava de regresso a Bragança.
Três meses depois, a 28 de novembro de 1891, contraía matrimónio na Sé brigantina com Maria do Céu Braga Pimentel, que granjeou grande fama na cidade enquanto cultora das artes e das letras.
Depois de casado, continuou a sua carreira militar em Bragança, sendo colocado, em abril de 1893, no comando da guarda fiscal ali sediada. Atingiu a patente de tenente em março de 1897 e de capitão em novembro de 1901. Em junho de 1903, foi enviado para Angola, para comandar a 7.ª Companhia Indígena de Infantaria.
Embora se notabilizasse na guerra contra os sobas, sobretudo num combate em setembro de 1903, o governador da Lunda, em duas avaliações conduzidas em 1903 e 1904, considerou-o um “oficial tímido e triste. A sua ação de comando é frouxa, sempre pronto a defender falhas dos subordinados”. Um outro superior confirmava o seu temperamento nervoso, excessivamente impressionável e histérico, além de o afirmar propenso a doenças. No entanto, um e outro eram unânimes em louvar as capacidades organizativas de Desidério Beça.
Em finais de julho de 1904, regressou a Bragança, sendo colocado no regimento de Infantaria 10, mas no ano seguinte foi nomeado secretário da direção do Montepio Oficial, rumando com a família para Lisboa. Todavia, a distância não iria esmorecer o amor pela sua terra. Pelo contrário, logo nesse ano ajudou a fundar o Club Transmontano, uma associação que agremiava trasmontanos e seus descentes com o objetivo de promover “os progressos morais, materiais e económicos da província”.
Mas não era só a geografia que mudava na sua vida. Esta transferência assinalava também o início de um notável percurso no setor do mutualismo que o levaria a elaborar diversos estudos em torno desta matéria. Começou por elaborar um relatório sobre a história do Montepio desde a sua fundação em 1867, para justificar perante o Governo a necessidade de reformar os seus estatutos e tomar medidas para melhorar a sua situação económica. Em junho de 1911, ano em que abandona o Montepio debaixo dos maiores louvores, apresenta ao Congresso Nacional de Mutualidade uma tese, sob o título “Mutualidade militar – Vantagem do seu estabelecimento no exército português”. Poucos meses depois, por portaria de 21 de dezembro, integrou uma comissão para estudar assuntos referentes à organização do mutualismo e à lei sobre associações de socorros mútuos.
De resto, revelou sempre uma superior atenção no que concerne às condições de bem-estar, aos mais diversos níveis – material, físico, intelectual – dos seus camaradas de armas. Logo após a implantação da República, em 5 de outubro de 1910, tomou parte numa comissão encarregue de melhorar as condições económicas dos sargentos e demais praças do Exército. Em 1911, tornou-se vogal do conselho de administração da Fraternidade Militar, cargo que acumulou com o de encarregado da instrução militar preparatória de Lisboa. Em dezembro de 1912, apresenta uma palestra sobre “O Estado, a Família e as Sociedades de Instrução Militar Preparatória”, e em 1916, uma comunicação no I Congresso de Educação Física, promovido pelo Ginásio Club Português, sobre “Instrução Militar Preparatória”, que faria publicar nesse mesmo ano, em versão mais desenvolvida.
Em fevereiro de 1913, foi de novo colocado no regimento de Infantaria 10, em Bragança, mas menos de um mês depois estava de regresso em Lisboa, em Infantaria 5, regimento que conduziu até Mondim de Basto para combater uma incursão monárquica. Ainda neste ano, depois de promovido a major, a 28 de setembro, foi chefe da 3.ª secção da 3.ª repartição da 1.ª direção-geral da Secretaria da Guerra (passaria à 4.ª repartição em 1915). Ainda em 1913, foi nomeado vogal da comissão encarregada de elaborar um regulamento para o tiro nacional, e mais tarde chegaria a diretor dos serviços gráficos do Exército. Nesse período, continuou a ascender na hierarquia militar, atingindo a patente de tenente-coronel em 1916 e de coronel em 1918.
Em 1919, regressa a Bragança, como comandante daquela região militar e governador civil do distrito, assumindo estas funções por duas vezes num curto espaço de tempo. No primeiro mandato, tomou posse do lugar “como alto-comissário do Governo neste distrito”, a 21 de fevereiro de 1919, tendo sido nomeado por decreto de 29 de janeiro anterior. A justificação para este interregno entre a data de nomeação e a data de posse encontra-se no facto de, na altura, a cidade de Bragança estar ocupada pelo movimento insurrecional monárquico, que só retirou para Espanha a 19 de fevereiro.
Um dia antes de tomar posse, a 20 de fevereiro, tinha sido nomeado um outro governador civil, Germano Roque dos Santos, mas essa nomeação seria anulada oito dias depois pelo ministro do Interior, uma vez que este militar, regressado das campanhas da Primeira Guerra Mundial, era contrário aos ideais republicanos, razão pela qual houve fortes protestos no distrito contra a sua nomeação, levando mesmo o administrador do concelho de Moncorvo a demitir-se. Face a tais protestos, Roque dos Santos não chegou a tomar posse do cargo de governador civil, continuando Desidério Beça no desempenho do cargo até ser exonerado a 13 de março.
Todavia, menos de um mês depois, a 4 de abril de 1919, era de novo nomeado para as mesmas funções, que exerceu até 6 de junho seguinte, saindo para tomar assento no Senado da República, para o qual fora eleito pelo círculo de Vila Real, nas listas do Partido Democrático.
No Senado, fez parte das comissões de Instrução, Guerra e Higiene e Assistência e foi vogal do Instituto de Seguros Sociais. Interveio numerosas vezes a respeito destas matérias, mas não deixou de pugnar pelos interesses de Trás-os-Montes, província que “fica lá muito longe, e por isso tem sido sistematicamente esquecida”. Chamou a atenção de diversos ministros para o atraso da viação na província e a necessidade de dar continuidade às obras rodoviárias e ferroviárias, nomeadamente as linhas do Corgo e Sabor e a ponte sobre o Tua na estrada de Alijó a Carrazeda. Relembrando os acontecimentos da Monarquia do Norte, falou sobre a necessidade de Bragança ter divisões de artilharia e cavalaria que, juntamente com Infantaria 10, constituíssem um comando militar independente.
Discursou sobre variadíssimos temas ligados aos interesses trasmontanos, como a falta de veterinários e engenheiros agrónomos no distrito de Bragança; o proveito de desenvolver a indústria sericícola na região; a necessidade de se proceder à arborização no distrito; o problema da emigração que, quando governador civil, conhecera de perto; o potencial turístico de Trás-os-Montes; e a urgência de combater as epidemias que grassavam em Vila Real.
Foi um colaborador entusiasta na realização do 1.º Congresso Trasmontano, que teve lugar em Vila Real, em setembro de 1920, vindo a falecer precisamente no decurso do Congresso, contava apenas 51 anos. Seria, contudo, na sua amada Bragança que seria sepultado. Dele diria Lobo Alves, no momento em que o substituía no Senado após a sua morte, ser “um português do mais fino quilate, um patriota dos de melhor têmpera e um trasmontano que sempre cuidou da prosperidade da sua província”.
O seu nome encontra-se inscrito na toponímia das cidades onde mais tempo viveu: em Bragança, numa rua da freguesia da Sé; e em Lisboa, na sequência de uma proposta da Câmara da capital, aprovada em 1933, para a atribuição de nomes de “prestigiosos mutualistas”, como Brás Pacheco e Costa Godolfim, a um conjunto de ruas na zona do Arco do Cego.
Desidério Beça e o Governo Civil de Bragança no rescaldo da Monarquia do Norte (1919)
Aos dois dias do mês de março nesta cidade de Bragança e edifício do Governo Civil compareceram, além do Exmo. governador civil, coronel Desidério Augusto de Madureira Beça, e os secretários-gerais, Dr. Henrique Augusto Rodrigues Paz Júnior e Antero Artur Lopes Navarro, os seguintes cidadãos:
D. João de Almada, administrador do concelho; Dr. Francisco Martins Morgado, major-médico; padre António Augusto Teixeira, capitão-capelão; Miguel Bernardo Rodrigues da Costa, secretário da administração deste concelho; Dr. Carlos Alberto Teixeira Direito, notário; António Bastos Pereira, pagador de Obras Públicas; Acácio Mariano, farmacêutico; Dr. Eduardo Ernesto de Faria, professor do Liceu e advogado; Adrião Martins Amado, reitor do Liceu; Olímpio Artur de Oliveira Dias, diretor da Escola de Ensino Normal; António Augusto Pires, professor do Liceu; Augusto Ladeiro, inspetor escolar; capitão António José Teixeira; Álvaro Carneiro, Augusto César Moreno e Francisco do Patrocínio Felgueiras, professores da Escola de Ensino Normal; Domingos Bernardo Vinhas, regente e professor da Escola Central primária do sexo masculino; Aníbal Augusto Teixeira, correspondente do Primeiro de Janeiro; Aníbal Montanha, correspondente do Século; Marcolino Videira, negociante; Joaquim Pinto, empregado público; Augusto César Matos, Candeias Duarte e Arcádio Fernandes, estudantes.
Constituída a Mesa pelo Exmo. governador civil e secretários-gerais, por aquele magistrado foi dito que convocara aquela reunião de representantes de todos os partidos políticos republicanos, da instrução, comércio, indústria e academia para se assentar nos melhores processos de fazer uma propaganda eficaz e imediata da República em todas as povoações, ainda as mais remotas do concelho, pondo em destaque todos os crimes praticados pela horda monárquica, e eleger uma comissão política que auxiliasse o Sr. governador civil na escolha de bons republicanos para o desempenho de funções e cargos administrativos, em harmonia com o determinado na circular do Ministério do Interior n.º 126, recebida neste Governo Civil no dia 20 do mês de fevereiro último.
E, passando-se a fazer a eleição da mencionada comissão de consulta política e também de propaganda, verificou-se que ficou constituída pelos seguintes cidadãos: Dr. Francisco Morgado, António Bastos Pereira, Dr. Eduardo Ernesto de Faria, capelão António Augusto Teixeira, José Montanha, tendo sido agregado à comissão, mas somente com intervenção em assuntos de propaganda, o académico Augusto César de Matos.
Encerrada a discussão sobre a matéria de reunião, a assembleia deliberou por unanimidade que ficaria a cargo da dita comissão:
1.º Dirigir a publicação de uma folha de propaganda republicana, salientando o procedimento brutal e feroz dos revoltosos, em linguagem chã e simples, de modo que seja facilmente compreendida pelo povo das nossas aldeias.
2.º Informar o governador civil da idoneidade dos cidadãos indicados para desempenhar funções administrativas.
3.º Organizar a propaganda nas escolas e em quaisquer reuniões públicas.
Outrossim foi deliberado por aclamação:
a) dar um voto de plena confiança ao Sr. administrador do concelho pela sua ação enérgica e justa e obra republicana que tem levado a efeito.
b) oficiar a todas as câmaras municipais do distrito, convidando-as a enviar representantes ao Porto por ocasião da comemoração do glorioso aniversário do dia 31 de Janeiro.
Pelo Sr. inspetor escolar foi ainda informada a assembleia de que já marcara a 1.ª conferência de propaganda republicana para o próximo dia 6, no salão da escola central primária do sexo masculino.
E, não havendo mais nada a tratar, foi encerrada a sessão por entre entusiásticos aplausos à Pátria, à República, ao Sr. governador civil, administrador do concelho, etc.
E para constar se lavrou a presente ata, que vai ser assinada pelo Sr. governador civil e mais pessoas presentes, depois de subscrita por mim, Henrique Augusto Rodrigues Paz Júnior, que a fiz escrever e assino = Desidério Augusto Ferro de Beça, coronel.
Fonte: Boletim Republicano do Distrito de Bragança, ano 1.º, n.º 1, 26.3.1919.
Fontes e Bibliografia
Arquivo Distrital de Bragança, Autos de Posse (1845-1928).
Arquivo Histórico Militar, processo individual de Desidério Augusto Ferro de Beça.
Boletim Republicano do Distrito de Bragança, ano 1.º, n.º 1, 26.3.1919.
Traz-os-Montes. Órgão Regionalista da Província, 1.10.1925.
ALVES, Francisco Manuel. 2000. Memórias arqueológico-históricas do distrito de Bragança, vol. VII e X. Bragança:
Câmara Municipal de Bragança / Instituto Português de Museus.
MARQUES, A. H. de Oliveira (coord.). 2000. Parlamentares e Ministros da 1.ª República (1910-1926). Lisboa: Assembleia da República.
PEREIRA, Hugo da Silva. 2014. Os Beças, João da Cruz e Costa Serrão – protagonistas da Linha de Bragança.
Projeto Foz Tua. Disponível em https://issuu.com/foztua/docs/protagonistas_final_1ba46cbc52dc4f.
Publicação da C.M. Bragança

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