(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)
Depois da epopeia no início da esperada reforma do Ensino o esforçado e corajoso ministro Fernando Alexandre respirou, finalmente, de alívio com a publicação do resultado das candidaturas ao Ensino Superior, sobretudo pelo número de alunos colocados na primeira fase, sem casos nem complicações a ensombrar o processo. Porém há um número que por si mesmo é deveras preocupante, sendo-o muito mais por se situar numa trajetória decrescente: apenas 3% dos alunos que entraram na universidade são originários das famílias mais pobres. O chamado elevador social, “assegurado” pela Constituição da República Portuguesa, está em velocidade lenta e, além disso, a abrandar. Algo que nos deve preocupar a todos, enquanto sociedade e, muito mais, por razões óbvias, aos naturais do interior onde as oportunidades são muito mais escassas e difíceis de serem alcançadas por quem não tem acesso às facilidades e apoios existentes nos grandes centros.
Antes do 25 de abril, a porta para este alçapão invertido que retirava do ciclo de pobreza e desventura alguns jovens, dando-lhes asas para poderem voar e singrar na vida profissional, estava nos seminários diocesanos onde centenas de jovens acediam aos primeiros anos de formação complementada, posteriormente, nas instituições públicas, em grande percentagem pelos que, a seu tempo, deixavam de prosseguir na formação eclesiástica. A minha geração é testemunha dessa realidade.
Com a revolução a formação de seminaristas decaiu muito, em boa verdade, haverá que reconhecê-lo, não só pelo conhecido fenómeno de diminuição de vocações pela vida religiosa mas também porque o acesso à formação passou a ser universal e com a instituição da Ação Social Escolar, a atribuição de bolsas e apoios, bem como a isenção de propinas para as famílias de menor rendimento, estava assegurada a equidade no que toca às oportunidades, independentemente dos recursos de cada um. Assim aconteceu, durante as décadas finais do século passado, com resultados a todos os títulos assinaláveis.
Porém, com o decorrer do tempo, os números foram decrescendo, paradoxalmente, na proporção inversa do aumento dos alunos a frequentarem o Ensino Superior. Se, quer a Ação Social Escolar quer a atribuição de bolsas não diminuiu, antes pelo contrário, por que razão reduziu a incidência na base da pirâmide social?
O motivo é evidente: o aumento da competição em resultado da perversa introdução do “numerus clausus” exigiu novas ferramentas que não estavam ao alcance de todos. A prova disso está na inflação das famigeradas notas (muito pouco) mínimas de acesso. Entrou-se numa espiral crescente de classificações, inicialmente inflacionadas pelos elitistas colégios privados a que, obviamente, as escolas públicas acabaram por acompanhar, não querendo eu lançar qualquer suspeição sobre a real correspondência até porque se por acaso existe alguma “condescendência” será totalmente justificável por uma questão de equidade. Mas, convenhamos, para se atingirem valores tendencialmente encostados ao topo da tabela, mesmo com alguma contemporização, é necessária uma dedicação e um acesso a ferramentas que não estão ao alcance de todos.
Ora, é muito difícil de aceitar que num país com claro déficit de técnicos de saúde só possa aspirar a ser Médico de Família quem, à entrada do curso, saiba resolver, sem pestanejar, a segunda derivada de uma equação do terceiro grau! Onde estão os estudos que podem sustentar tão bizarra teoria?
José Mário Leite, Nasceu na Junqueira da Vilariça, Torre de Moncorvo, estudou em Bragança e no Porto e casou em Brunhoso, Mogadouro.
Colaborador regular de jornais e revistas do nordeste, (Voz do Nordeste, Mensageiro de Bragança, MAS, Nordeste e CEPIHS) publicou Cravo na Boca (Teatro), Pedra Flor (Poesia), A Morte de Germano Trancoso (Romance) e Canto d'Encantos (Contos), tendo sido coautor nas seguintes antologias; Terra de Duas Línguas I e II; 40 Poetas Transmontanos de Hoje; Liderança, Desenvolvimento Empresarial; Gestão de Talentos (a editar brevemente).
Foi Administrador Delegado da Associação de Municípios da Terra Quente Transmontana, vereador na Câmara e Presidente da Assembleia Municipal de Torre de Moncorvo.
Foi vice-presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes.
É Diretor-Adjunto na Fundação Calouste Gulbenkian, Gestor de Ciência e Consultor do Conselho de Administração na Fundação Champalimaud.
É membro da Direção do PEN Clube Português.


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