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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

"A moça da nota de um real"

Por: Antônio Carlos Affonso dos SantosACAS
São Paulo (Brasil)
(Colaborador do Memórias...e outras coisas)


 Em 1889, caía a Monarquia e iniciava-se a República no Brasil. Para o novo regime, novas estruturas foram criadas. Preconizada pelo imperador Pedro II e aceito como o maior dos eventos, surgia no Brasil uma novidade que era a mais incontestável prova de capacidade e de estruturação de um país moderno: o selo. O recém criado Ministério da Instrução Pública, Correios e Telégrafos, veio dar um ar da novidade mundial e difundir aos quatro cantos do país e ao mundo, a nova cara da nação. Em 20 de janeiro de 1890, saem os primeiros selos republicanos. 

Algumas estampas retratam Marianne, alegoria feminina à liberdade, surgida durante a Revolução Francesa, cujos lemas eram: liberdade, igualdade e fraternidade. E quem foi Marianne?

- Para a aristocracia contra-revolucionária, o nome de Marianne tornou-se pejorativo, porque era um nome comum, da plebe, do povo. Marianne foi retratada por Delacroix como a própria "liberdade", um dos valores revolucionários da República Francesa. E quem foi Marianne?

Marianne (Koobe) Cope nasceu em 23 de janeiro de 1838, em Hoppenhein-Hessen-Darmstadt (Alemanha). Quando tinha quase um ano de idade, a família Koob emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Nova Iorque, onde passaram a adotar o sobrenome Cope.

Em seus primeiros anos de vida, pensava em ser uma religiosa. Aos 24 anos de idade, em 1862, Marianne uniu-se às irmãs de São Francisco e fez os votos religiosos na Igreja da Assunção em Syracuse. Seu primeiro trabalho foi o apostolado em educação de crianças de origem alemã, filhos de imigrantes, como ela. Por seu bom desempenho, foi convidada a ser diretora de uma escola. Tal era seu desempenho que em pouco tempo foi diretora da irmandade franciscana, ajudando a erguer dois dos primeiros cinquenta hospitais gerais dos Estados Unidos da América, que existem e funcionam até hoje. Mas, nem tudo era fácil: Marianne foi muito criticada por ajudar e internar mães solteiras, mendigos e alcoólatras. No período em que dirigia o Hospital São José (1870 a 1877), Madre Marianne modificou o cenário médico americano, quando permitiu que alunos de medicina fossem ali, para receberem uma formação em clínica geral. Em 1877, Madre Marianne foi eleita Madre Superiora Provincial. Dois anos depois, Marianne foi dirigir o Hospital Geral das Ilhas Maui, onde em 1885 criou uma unidade para cuidar de leprosos e os filhos dos leprosos. Em 1888, época em que o Brasil acabava com a escravidão, com a assinatura da Lei Áurea, pela Princesa Isabel, Marianne substituiu o Padre Damião Veuster (canonizado pelo Papa João Paulo II em 1995), assumindo a direção da casa de jovens, ficando assim responsável pela casa das mulheres e pela casa de jovens. Madre Marianne passou trinta anos de sua vida em exílio voluntário, ao lado dos leprosos, em Kalaupapa, Ilhas Molokai. Foi através dela que o governo de Maui começou a se preocupar em cuidar da vila de leprosos, além de permitir que as crianças que ali viviam isolados, a frequentar a escola, trazendo-lhes um certo orgulho, ensinando-lhes higiene e mostrando que os marginalizados, como eles, são amados de modo especial por Deus. Marianne morreu em nove de agosto de 1918, sendo referenciada mundialmente como santa e mártir. Convém lembrar que Marianne ainda hoje é homenageada no Brasil, onde a nota de um real (R$ 1,00) mostra sua efígie.

Voltando aos primeiros selos, outras estampas mostram a constelação do Cruzeiro do Sul. Em ambas, tanto nas estampas de Marianne quanto nas do Cruzeiro do Sul, apareceu pela primeira vez os dizeres Estados Unidos do Brasil, nome adotado pelo então governo provisório (1889-1891) e depois confirmado pelo primeiro presidente da república.

O fato curioso é que, por problemas técnicos da Casa da Moeda, onde estavam sendo impressos os selos, alguns exemplares foram feitos com variações de impressão e com diferentes cores e formatos. Tais selos, juntos com o famoso "Olho de Boi", até os atuais dias fazem a festa, a cobiça e a fortuna de muitos colecionadores. Do mundo inteiro, naturalmente! 

Como não coleciono selos, não entendo tanto valor por tão pouco. Já quanto à Marianne, sua silhueta me faz ferver a imaginação; assim como aquele sorriso maroto, um tanto velado. Eu não trocaria Marianne por um olho de boi ou por um cruzeiro do sul; ainda que os dois piscassem para mim.

Acordo para os dias atuais; de aquecimentos globais, silicone, violências, “ficantes” e desrespeito com as instituições políticas, religiosas e familiares. Sou um escritor; assim, posso ter um flerte com Marianne, posso amá-la platonicamente. Sua imagem retratada pelo mundo afora a mostra linda, elegante. Em um sonho, tento falar de amor com ela, pois nos meus sonhos ela não é religiosa. Mas, ao voltar à realidade, eu a dispenso, antes de ser dispensado. Assim, antes que o olho de boi se vista de névoa e catarata e o cruzeiro do sul deixe escapar sua última luz refletida no céu deste país tropical, antes que a nota de um real saia da praça e antes que todos estes símbolos se desgastem e passem a valer bem pouco e antes ainda que Marianne seja beatificada ou canonizada, deixo a mensagem de nossa eterna gratidão a Marianne, ícone dos sentimentos de liberdade, igualdade e fraternidade, ainda que alguns líderes mundiais vilipendiem tais virtudes.

À Marianne, meus respeitos e minha admiração eterna; toda homenagem já feita e toda homenagem que ainda farão a ela, é pouco.  

PS: Nota do autor: A efígie da nota de R$1 é a alegoria da República, inspirada na Marianne francesa. Aqui, por licença poética a confundo, adrede, com Santa Marianne Cope, que dedicou a vida aos leprosos de Molokai.


Antônio Carlos Affonso dos Santos
ACAS. É natural de Cravinhos-SP. É Físico, poeta e contista. Tem textos publicados em 9 livros, sendo 4 “solos e entre eles, o Pequeno Dicionário de Caipirês e o livro infantil “A Sementinha” além de cinco outros publicados em antologias junto a outros escritores.

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