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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Vinhais pede ajuda do Governo para prejuízos de 10 ME na castanha

 O município de Vinhais faz um balanço “dramático” da campanha da castanha, com prejuízos de “10 milhões de euros”, e quer ajudas financeiras do Governo aos produtores deste concelho do distrito de Bragança, divulgou hoje a autarquia.


O concelho concentra, junto com Bragança, a maior parte da produção nacional de castanha, o que num ano normal corresponde entre “13 a 15 mil toneladas”, que geram “entre 15 e 20 milhões de euros” na economia local.

A seca extrema do ano de 2022, junto com as doenças como a tinta, o cancro e a vespa das galhas do castanheiro, “originaram uma quebra acentuada na produção”, que a autarquia aponta na ordem dos “80%”, aproximando-se dos “90%” nos castanheiros mais antigos.

O balanço foi feito pela autarquia depois de ouvir as juntas de freguesia e organizações do setor, e consta de uma moção aprovada em reunião de Câmara e pela Assembleia Municipal de Vinhais.

No documento, divulgado hoje pelo município e dirigido aos órgãos de soberania nacionais e entidades regionais, “requer-se que o Governo adote medidas urgentes e concretas de apoio aos produtores de castanha, designadamente através de apoios financeiros diretos”.

A quebra na produção tem, como consta do documento, “como consequência uma perda de rendimentos para as famílias e agricultores do concelho de Vinhais no valor de 10 milhões de euros”.

A moção salienta que a castanha constitui-se “como um produto de alta rentabilidade, seja para os empresários do setor, seja para como suplemento do orçamento das famílias e até como rendimento para muitas famílias do concelho”.

O município de Bragança também já tinha aprovado uma moção no mesmo sentido e em ambas é destacado “o papel fundamental da cultura do castanheiro no desenvolvimento económico, social e ambiental destes territórios”.

O município de Vinhais lembra ainda que logo no início da campanha manifestou à ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes, “a preocupação da perda de rendimentos para as famílias e agricultores”.

Terminada a campanha e depois de feito o levantamento dos prejuízos, a autarquia transmontana quer que o Governo ajude os produtores e famílias locais face à perda de rendimento.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Domingo de Páscoa, 15 de Abril de 1963. Foto tirada pela minha mãe.

A GRANDE GUERRA 1914-1918 NA IMPRENSA REGIONAL. O CASO DO DISTRITO DE BRAGANÇA

 ADÍLIA FERNANDES*
A Grande Guerra (1914-1918) centralizou a atenção da imprensa portuguesa, acentuando-se essa atenção a partir da declaração de guerra da Alemanha ao nosso país.
Os acontecimentos e as crónicas de fundo preencheram as publicações, influenciaram os leitores e envolveram-nos emotivamente, sobretudo quando as nossas tropas entraram no conflito. A guerra adquiriu um significado absoluto, quando se teve a perceção de que seria devastadora e que mudaria a mentalidade e o mapa europeus para sempre.
Os jornais publicados no distrito de Bragança, durante o período da I Guerra Mundial, eram os seguintes:

Correio de Mirandela (1905-1918)
A Pátria Nova (1908-1915)
A Verdade (1910-1914)
Notícias do Nordeste (1910-1917)
Distrito de Bragança (1911-1915)
O Mogadouro (1912-1914
Notícias de Bragança (1912-1917)
O Lavrador Transmontano (1913-1915)
Legionário Trasmontano (1914-1915)
O Transmontano (1915-1917)
Eco de Dona Chama (1915-1921)
A Instrução (1915-1916)
O Povo de Mirandela (1916-1918)
O Libelo – de curta duração

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* Investigadora do CITCEM.
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A análise que fizemos, a alguns destes jornais1, permitiu-nos apreender as suas posições quanto ao cenário da Grande Guerra e à intervenção portuguesa na mesma.
Sobre este aspeto, registou-se um parecer maioritariamente favorável, por prevalecerem jornais de orientação republicana, sabendo-se, embora, que as posições não-intervencionistas respeitavam tanto aos monárquicos como aos republicanos mais conservadores.
Os artigos sobre a guerra começaram a aparecer ainda antes de ter sido declarada.
O primeiro foi publicado pelo Notícias de Bragança, órgão do partido democrático republicano, na primeira página da edição de 19 de março de 1914. Este e outros que se lhe seguiram foram escritos por um colunista não identificado, com o título de «Carta de Lisboa». Fez a antevisão da guerra entre a Alemanha e a Rússia, com as previsíveis alianças dum lado e do outro, marcadas pelos objetivos económicos e coloniais das potências intervenientes. Apesar do conflito ter no seu epicentro o antagonismo de interesses dos russos, por um lado, e dos alemães, por outro, perspectivava o seu alastramento a toda a Europa, incluindo Portugal. Os tratados de aliança compeliriam, de imediato, a entrada em cena da França a favor da Rússia e da Itália e da Áustria do lado da Alemanha. A Inglaterra interviria no momento oportuno junto de quem lhe conviesse. Desde logo, não desejava a expansão alemã além duns certos limites e menos lhe agradava a invasão eslava que, segura na Europa, iria pelo Oriente até à Índia. O jornalista acrescentou que as nossas províncias de África e o Congo belga eram alvo de cobiça, daí, precisarmos de estar preparados para todas as eventualidades, isto é, investir no desenvolvimento económico e civilizador naquelas paragens, a fim de que a concorrência alemã e inglesa não exercessem sobre nós uma acção eliminatória.
Antevia-se, em agosto de 1914, um conflito de curta duração, com consequências pouco desastrosas, pelo menos para Portugal, que sofreria apenas, e muito atenuadas, as económicas2. Estas e outras conjeturas iam sendo contrariadas pela evolução dos acontecimentos, que a imprensa acompanhou passo a passo. A guerra não foi breve, tornou-se em poucos meses total e revelou-se devastadora, obrigando a que as cheias militares e os governos dos diferentes países beligerantes adotassem medidas para responderem à cruel realidade: sobreviver. Tratou-se de uma dupla e impossível adaptação: a uma situação material que evoluía sem cessar e a um desequilíbrio moral rapidamente instalado. São inúmeras as páginas dedicadas pelos periódicos às notícias da guerra, aos avanços e recuos das nações envolvidas, às batalhas, às perdas humanas.

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1 Recorreu-se, para a sua consulta, à Biblioteca Pública Municipal do Porto. O Arquivo Distrital de Bragança dispõe de uma vasta colecção mas é incompleta. Alguns dos títulos não tinham uma saída regular ou correspondiam, apenas, a folhas informativas sobre assuntos político-partidários ou religiosos, sobretudo, de índole local. Daí, apesar do seu número ser relativamente significativo, poucos são os que se dedicam ao tema da I Guerra Mundial.
2 A nossa situação, in «Notícias de Bragança», 13 de agosto de 1914, p. 1.
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Profundas discrepâncias de como Portugal deveria comportar-se face ao conflito, que se iniciou no final de Julho de 1914, terminaram com a certeza da nossa participação.
No Congresso da República, de 7 de Agosto desse ano, Bernardino Machado sustentou que Portugal deveria manter amizade com todos os países beligerantes, incluindo a Alemanha, mas, ao mesmo tempo, permanecer fiel à tradicional aliada, a Grã-Bretanha. Esta neutralidade conveniente colidia com a integridade do nosso património colonial, atacado pelos exércitos alemães nas zonas fronteiriças de Angola e Moçambique. A posição intervencionista reforçou-se.
Em outubro de 1914, A Pátria Nova assinalava que a situação internacional do país exigia a entrada na guerra, para além do imperativo dever de continuar ligado aos destinos do «poderoso povo britânico»3. Neste ponto, coincidia com o Notícias de Bragança que registou neste ano e mês:
Nós estamos longe do teatro da guerra, se pode dizer-se que há longes nesse mundo tão pequeno para tão grandes inventos. Nós somos estranhos às divergências, às rivalidades que determinam a explosão. Mas é duvidoso que nos deixem sossegados no nosso canto (…) tudo indica que teremos de entrar na refrega à trela da nossa poderosa aliada4.
O articulista, face a esta previsão, alertava para a temível calamidade que se avizinhava e que era, para além da perda da mocidade, a crise da economia, que arrastaria o desemprego, a carestia de vida, a fome, infalível para muitos e que traria desassossego, doenças, desordem, crime. Acentuou ser de angústia a hora que passava, não podendo, «sem arrepios de pavor», imaginar-se o dia de amanhã. No Legionário Transmontano, de 31 de dezembro de 1915, a primeira página foi ocupada com o preocupante artigo «O povo na miséria», que abriu com um trecho do doutrinador Alfredo Pimenta. Enumeraram-se iguais adversidades, alastradas pela sociedade dos grandes centros e da província. Em estado de guerra, este desequilíbrio instalava-se ou agravava-se, porém, as causas, segundo as suas palavras, entroncavam, também, na crise política.
O jornalista do Notícias de Bragança acreditava, contudo, que o governo tomaria as providências que lhe competissem e que atuaria, sem reserva, segundo o seu patriotismo, tomando-se «oportunamente severas contas se não souber cumprir o seu dever».
Ao lado do dever de fidelidade à velha aliança com a Inglaterra, suportava a defesa do envio dos nossos soldados para os campos de batalha, a necessidade de consolidar

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3 Portugal e a guerra, «A Pátria Nova», 4 de outubro de 1914, p. 1.
4 A Guerra, «Notícias de Bragança», 6 de agosto de 1914, p. 1.
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o regime republicano, implantado quatro anos antes do deflagrar da guerra. Combater os alemães, o outro lado beligerante que tecia armas contra a Inglaterra e os demais aliados, era expurgar o país de falsos patriotas «que alvejam pelo triunfo do imperialismo alemão como garantia segura da restauração monárquica em Portugal». O colunista admitiu que ao falar-se de mobilização se reacenderam antigas pretensões monárquicas. Se em momentos passados, em que não estava comprometida a nossa existência por acontecimentos internacionais, o crime político tinha importância secundária, agora, a repetição de tal facto seria a expressão mais abjecta e uma ignóbil traição à integridade da Pátria5.
Um texto da autoria de António José de Almeida, intitulado «A hora grande vai chegar», publicado pelo jornal República e transcrito em A Pátria Nova, referia-se aos alemães como povo culto, mas que praticavam a tirania, a opressão, o crime e a infâmia. Pelo contrário, a Rússia, autocrática e ignorante, representava a justiça e o direito. Neste contexto, convocava os valores da civilização, como a humanidade e a liberdade, que só os aliados, pela vitória, podiam assegurar. Ao seu lado estaria Portugal, que beneficiaria do proveito material e respeito moral6.
Como exemplo de oposição à intervenção do país, surgiu, em outubro de 1914, um artigo de Francisco Manuel Alves, mais conhecido por Abade de Baçal, notável figura do panorama cultural e histórico da região. Colaborador dos diversos periódicos, foi em O Legionário Trasmontano, jornal de orientação clerical, que publicou a sua reflexão sobre este assunto, com o título «Entrar na Guerra?!».
Sublinhava que a participação de Portugal no conflito seria um crime, porque o país não dispunha de forças armadas, nem de armamento ou munições, fruto das crises financeiras que se repercutiam, especialmente, nas precárias condições de vida da população, pobre e analfabeta, enfraquecida pela emigração. A aliança com a Inglaterra também não a justificava, arriscando-se Portugal ao abandono e ao desdém a que este país, ao longo da História, o votara, como aquando do Ultimatum ou da Convenção de Sintra. Neste momento, essa aliança poderia redundar na perda das colónias. Na História fundamentou outras razões: Alcácer-Quibir ou a Guerra Peninsular, que traduziam morticínio, devastação, caos, que, de todo, dever-se-ia evitar que se repetissem. Remeteu para os franceses inauditas barbáries contra as gentes portuguesas, concluindo que uns e outros, «de execranda recordação», eram os «fieis espoliadores que tentam levar-nos no abysmo, fazendo crer que a Pátria corre perigo mantendo-se neutral». Referiu-se, ainda, ao interesse das nações beligerantes poderosas e desenvolvidas sobre as mais débeis, nomeadamente, na voracidade das suas matérias-primas e ao desejo destas obterem vantagens participando.

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5 Portugal e a guerra, «A Pátria Nova», 4 de outubro de 1914, p. 1.
6 A hora grande vai chegar, «A Pátria Nova», 18 de outubro de 1914, p. 1.
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O argumento da defesa da civilização latina, aduzido a favor da participação do país na contenda, foi igualmente refutado pelo Abade de Baçal. A atmosfera de ódio germânico estendia-se a este campo, esquecendo-se, nas suas palavras, o contributo alemão para os vários ramos da ciência em Portugal, nomeadamente, para o progresso dos estudos arqueológicos, históricos ou geográficos e para a valorização do património pictórico (com D. Fernando, marido de D. Maria II).
Assumiu-se devedor da Alemanha, por pertencer a corporações que, culturalmente, muito lhe deviam.
«Entrar na Guerra?… que demencia ó mentores portugueses, vos tomou?!», pergunta.
Este artigo corresponde ao primeiro dos quatro manuscritos do Abade de Baçal sobre o mesmo tema, igual título e finalidade. Num deles, numa anotação de 1923, registou que após a publicação do primeiro, houve alguns «patrioteiros» que queriam que fosse fuzilado atrás do forte da cavalaria de Bragança.
O Trasmontano, órgão do partido evolucionista no distrito de Bragança, registou, sob o título «Pressentimentos», na primeira página da edição de 24 de outubro de 1914, ter-se chegado a um dos momentos mais críticos da nossa existência coletiva, impondo-se a necessidade de congregar esforços e a boa vontade comuns para se conjurarem os perigos, conjugados com uma propaganda inteligente e ininterrupta.
Na mesma página, designado de «Preparação para a guerra», um outro texto informou que decorria a preparação militar para a guerra e se tentava comprar material bélico com esse objetivo, facto que não estava em consonância com o estado depauperado das finanças. Colocava em dúvida a urgência da necessidade desse material, cuja aquisição, insistia, agravaria o «pavoroso» desequilíbrio financeiro. Só poderia justificar-se pelo receio de qualquer agressão «dos nossos visinhos levados a isso pelas manobras germânicas», estendendo à península os horrores que assolavam a Europa inteira. E pergunta; «Será assim?! … Não o sabemos».
No ano seguinte, as dúvidas estavam dissipadas.
Agora já ninguém pode ter ilusões. Caminhamos a largos passos para o começo de uma aventura, cujas consequências podem ser tremendas (…). Enormes erros acumulados e agravados pelos governos que ultimamente temos tido, incapacitaram qualquer tentativa honesta e patriótica que ainda se fizesse para arripiar caminho e desviar-nos do temeroso conflito. E já não é possível deter a marcha dos acontecimentos (…). Vamos ter participação na guerra europeia7.

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7 Hora grave, «Legionário Trasmontano», 18 de novembro de 1915, p. 1.
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O autor deste artigo acusava a Inglaterra de nos conduzir para a guerra no momento em que já não vislumbrava a vitória, de exigir milhares dos nossos soldados, mesmo desarmados, para irem para o Oriente, com a promessa que ali teriam munições e armamento. A nossa intervenção não ia alterar o resultado final, os militares partiam sem preparação militar e tarde demais. Portugal, na sua opinião, deveria ter-se mantido neutral, só cedendo à Inglaterra aquilo a que nos obrigava a letra dos tratados de aliança. Os interesses nacionais impunham que nos tivéssemos alheado de sentimentalismos e sectarismos. A Espanha deveria ter sido o nosso exemplo, por manter a neutralidade, justificando-se uma aliança com este país como forma de garantirmos a independência territorial. Futurava uma convenção de paz humilhante para os aliados e vantajosa para a Alemanha.
Em «Situação definida», o Notícias de Bragança, em 15 de janeiro de 1916, deu a conhecer que todos os jornais de Lisboa e do Porto registaram a notícia que constava do telegrama que também publicou. Enviado de Londres, informava que o Times, em artigo de fundo, declarava que nenhum país, de todos os que permaneciam fora do conflito, se revelara tão cordial e espontaneamente em favor dos aliados como Portugal.
Uma interferência tinha sido proposta por Bernardino Machado, concretamente, através do envio de um corpo expedicionário para a Flandres, que só não se concretizou pelas vantagens que advinham, para a causa comum, evitar-se o rompimento das nossas relações com a Alemanha. Considerava que o zelo do governo honrara Portugal. O colunista alertava para a possibilidade de sermos chamados a intervir, caso a guerra se prolongasse. O governo foi de novo aplaudido, no dia 2 março de 1916, pelo ato, legal e juridicamente fundamentado, da requisição dos navios alemães ancorados nos nossos portos. Ainda sem represálias por parte da Alemanha, o Notícias de Bragança desvalorizava os receios de uma guerra iminente por aqueles que a tal ato se tinham oposto, isto é, «Não se arrasou o mundo»8.
No final deste mês, o Legionário Trasmontano publicou o artigo «Portugal em Estado de Guerra», anunciando que a Pátria estava diretamente envolvida no grande conflito que assolava a Europa nos dois últimos e «longos» anos.
O perigo que a Alemanha representava para Portugal centralizou as reflexões expostas na rubrica intitulada «Porque é que Portugal entrou na guerra», editado pelo Notícias de Bragança, em fevereiro de 1917:

A guerra actual não é daquelas em que estão apenas envolvidos os interesses de alguns povos e aos quais os nossos sejam estranhos. Não é uma guerra entre a Alemanha e a França, ou entre a Alemanha e a Inglaterra, a Rússia, a Itália. É a guerra da Alemanha ao sentimento de independência de todos os povos da Europa. (…) Entre os países mais

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8 Um rasgo governativo, in «Notícias de Bragança», 2 de março de 1916, p. 1.
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ameaçados pela Alemanha está Portugal. Se fôssemos seus vizinhos já não existiríamos. (…) Se ela conseguisse triunfar da coligação que se opõe aos seus desígnios, estávamos perdidos. Portugal acabaria, sob todas as formas, como nação independente e como nação colonial. Era o nosso m9.

Neste ano, o mesmo jornal informava que os alemães entregaram os prisioneiros portugueses em Moçambique. Registaram-se os nomes de todos e a respetiva patente militar.
Na cidade Bragança estavam estacionados os Regimentos de Infantaria 10 e 30.
A proteção dos nossos territórios em África, obrigou a que, em 31 de janeiro de 1915, a 2.ª Bateria do 6.º Grupo de Metralhadoras partisse de Bragança com destino a Angola, como noticia A Pátria Nova, na edição desse dia.
As sucessivas saídas dos militares para as frentes de batalha foram acompanhadas por vivas manifestações populares de apoio e de orgulho. O artigo intitulado «A partida das Metralhadoras – O povo de Bragança vitoria, entusiástica e carinhosamente os primeiros soldados que partiam para Tancos», dirigindo-se, depois, para a França, para cumprirem a ordem de mobilização já decretada pelo governo, deu disso conta na edição do dia 8 de junho de 1916 do Trasmontano. A multidão aglomerou-se em frente ao quartel e, seguindo-os até à gare, gritava «em delírio» vivas a Portugal, à Pátria, à República e ao exército. Ouviram-se breves mas patrióticas palavras de despedida, proferidas por chefes militares. Entre a multidão, viam-se algumas senhoras que entregavam, a cada soldado, dez escudos e oitenta centavos para as primeiras despesas de tabaco e atiravam com flores para o comboio que os levava. Em fevereiro de 1917, o Batalhão de Infantaria 30 teve, como destino, a África Oriental, onde combateria ao lado dos exércitos anglo-belga-portugueses, incumbidos da defesa dos territórios coloniais e que combatiam «os últimos restos das forças alemãs».
Narrou-se o espetáculo grandioso da partida, pela galhardia, entusiasmo e alegria «com que êsses rapazes do povo, na sua maioria arrancados à labuta pacífica e sadia dos campos, partiram para o teatro da guerra».
Esta expressão popular de apoio pode reportar-se aos múltiplos textos publicados a favor da entrada do país no conflito, integrando as razões que lhe subjazem. Na realidade, os articulistas, 

[…] que contraíram o pesado encargo de pleitar na imprensa as questões de interesse público, estão constituídos na obrigação de dizerem toda a verdade, e influírem sobre a opinião por forma a esclarecê-la e ilustrá-la conforme os mais sagrados interesses nacionais10.

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9 «Notícias de Bragança», 1 de fevereiro de 1917, p. 1.
10 Portugal e a guerra, «A Pátria Nova», 4 de Outubro de 1914, p. 1.
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A informação aparecia filtrada pela censura, conduta que originou muitos cortes, traduzidos nas colunas em branco que atravessam os periódicos. Constituiu a matéria tratada em artigo com o mesmo nome, em O Transmontano de 16 de julho de 1916, ano da instituição do regime de censura prévia pelo governo. Embora abolida no ano seguinte com Sidónio Pais, não trouxe o regresso à liberdade de imprensa. Os jornais intervencionistas denunciavam uma vigilância mais branda, não descurando-se, em todo o caso, a salvaguarda da opinião pública de perfilar ideias não desejáveis, objetivo a que se associava a propaganda.
Criticava-se em «A Censura» a sua ação que, por excesso ou por defeito, não correspondia às exigências da difícil situação que perturbava a vida coletiva, merecendo a desaprovação dos que «com toda a imparcialidade (…) apreciam aos acontecimentos que se vão desenrolando». Mesmo condenando-se toda a limitação à liberdade de pensamento, entendia-se que as circunstâncias excecionais legitimavam-na e que, suprimi-la, seria uma imprudente medida. Aprovava-se o extremo radicalismo, em política e religião, com que a França conduzia este assunto, justificado pela ideia de salvação e engrandecimento da Pátria, pondo de lado toda a questão partidária. Em Portugal, não se subordinavam os interesses de partido ou seita aos interesses nacionais, como acontecia com a imprensa monárquica, acusada de germanófila, e com aquela que «dizendo-se representante dos ideais mais progressivos (…) com ela colabora na mesma obra de traição». O jornalista concluía que a imprensa deveria adotar medidas mais enérgicas e, mesmo, suprimir alguns jornais, evitando-se o risco de prejudicar-se a obra de defesa que o governo tinha obrigação de realizar.
No artigo «A República e os mobilizados – Um aviso que todos devem conhecer», publicado na edição de 19 de outubro de 1916 do Notícias de Bragança, na primeira página, são dadas a conhecer as subvenções e abonos que as famílias dos militares mobilizados na guerra iriam receber. A informação conclui com a seguinte nota retirada do jornal O Mundo: «A Republica demonstra assim que se preocupa com os mobilizados, que não os abandona um só momento, nem abandona as suas famílias. Frize-se bem o facto com orgulho, embora isso faça morder de raiva os maus patriotas».
O Legionário Transmontano, de orientação clerical, patenteou o problema dos capelães em várias edições como uma questão prioritária. A edição de 15 de janeiro de 1915, ainda antes da nossa participação na guerra, embora tida já como certa, defendia, num artigo de primeira página com grande destaque, intitulado «Capelães no exército» e sub-título, «As mães portuguesas reclamam-no num manifesto», a presença de capelães no exército. Publicou, de seguida, o ofício do cardeal patriarca de Lisboa dirigido ao presidente da República, com igual intenção. Lê-se que um largo movimento de opinião pretendia apresentar aos poderes públicos «a necessidade iniludível de fazer acompanhar por sacerdotes católicos os efectivos militares, que de futuro hajam de partir para a guerra, adoptando-se a mesma providência para os que se encontram já no campo das operações. O soldado português é católico, Senhor Presidente!11».
Tal procedimento seria um estímulo para os nossos soldados e um apoio consolador nos «desfalecimentos», e não adotar-se retiraria a Portugal a categoria e a reputação de país civilizado. No dia 30 de novembro de 1915, o governo autorizou que fosse prestado auxílio religioso aos militares.
A referência às mulheres surgiu apenas no sub-título, contudo, em outros momentos o periódico invoca, em apelos emotivos, os inúmeros contributos das mães, irmãs, mulheres e namoradas dos que partiam, concretamente, sacricando os afectos aos sagrados interesses da Pátria12. O mesmo tom repete-se em diversos jornais, sempre que o feminino é chamado para o terreno da guerra.
A moral constituiu uma das armas mais importantes desta contenda desde o seu deflagrar. Era sustentada por políticas pragmáticas e pela censura, que «a situação anormal (…) os supremos interesses da Pátria (…) a acção governativa»13 exigiam.
No seu conjunto, deram signicado à guerra, significado inicialmente similar em todas as partes: honra, dever e patriotismo, ou, apenas, defesa do país.
A moral trazia a unidade, esta impulsionava o sentido da causa comum. Com este teor, Guerra Junqueiro, outro nome transmontano que se destacou, principalmente, como escritor e poeta, deixou-nos, em O Trasmontano, de 23 de fevereiro de 1917, na primeira página, a rubrica «Aos soldados que partem». Os louvores que dirigia ao patriotismo dos militares assentavam na responsabilidade que lhes atribuía, a de serem «neste momento», a «honra da Pátria», «a alma heróica da Nação», levando consigo o passado, o presente e o futuro de Portugal. Com o sub-título «Aos portugueses que ficam», Guerra Junqueiro pedia que cuidassem dos que partiam, e que os tomassem como exemplo e modelo. Redigiu uma oração para todos rezarem, caindo sobre os que o não fizessem, «inexoravelmente, um
labéu eterno!»:

Pátria divina de Camões e de Nun´Álvares, santificado seja o vosso nome. Venha a nós o vosso valor e a vossa glória. Seja feita a vossa vontade em nossas almas. Dai-nos em cada dia o pão imortal da vossa esperança, e perdoai, Senhora, os nossos erros. Para nos libertar de toda a fraqueza e de todo o crime, encheremos os corações do vosso amor. Amen.

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11 Idem.
12 «A Pátria Nova», 4 de Outubro de 1914, p. 1.
13 A Censura, «O Trasmontano», 16 de Julho de 1916, p. 1.
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O Correio de Mirandela fez a primeira referência à guerra na edição de 1 de dezembro de 1918, num comentário na primeira página a que deu o título «A Paz».
Limitou-se a assinalar e a prestar homenagem aos governantes portugueses que conduziram Portugal para a guerra:
Nesta hora em que todos os Povos se abraçam por cima das fronteiras, acamando a vitória dos aliados, que é a vitória da Liberdade, saudemos nós, portugueses, os nossos gloriosos estadistas – que defenderam a nossa intervenção na guerra – e levaram à França o heroísmo do nosso soldado.

FONTES
A Pátria Nova, 4 de outubro de 1914.
A Pátria Nova, 18 de outubro de 1914.
Notícias de Bragança, 1 de fevereiro de 1917.
Notícias de Bragança, 2 de março de 1916.
Notícias de Bragança, 6 de agosto de 1914.
Notícias de Bragança, 13 de agosto de 1914.
O Trasmontano, 16 de janeiro de 1916.
O Trasmontano, de 23 de fevereiro de 1917.
O Trasmontano, 16 de julho de 1916.

👉Miranda do Douro viveu intensamente os rituais do solstício de Inverno São Pedro da Silva, Constantim e Vila Chã mantém tradições ancestrais

 O Solístico de Inverno começou em Miranda do Douro,  no dia 13 de dezembro com a saída do “Velho e a Galdrapa” em São Pedro da Silva, uma tradição que foi retomada recentemente e a cada ano que passa ganha mais força. Tudo começa com os  gaiteiros que anunciam  esta celebração pagã que tem como um dos dois atores principais o Velho, que é encarno por rapaz, com barba negra feita de lã de ovelha e uma máscara de cortiça. Na cabeça leva um chapéu preto e ao pescoço um boneco de cortiça preta, que o dá a beijar às pessoas, com o intuito de as “tisnar”.


A outra figura é a Galdrapa, que é outro rapaz disfarçado de mulher que é a esposa do velho. Veste uma blusa, uma saia mirandesa enfeitada com muitos lenços coloridos e na cinta prende uma bolsa para recolher “as esmolas”. Já na mão leva uma estaca para recolher peças de fumeiro.
Os rituais do solstício de inverno, também conhecidos por Festa dos Rapazes, são manifestações pagãs que se vivem um pouco por todo o Nordeste Transmontano e que simbolizam a emancipação dos jovens que neles participam.
Depois de São Pedro da Silva, passamos para Constantim para a Festa dos Moços e das Morcelas mais uma tradição pagã dedicada aos rapazes que procuram a sua emancipação, num ritual com muita originalidade. As celebrações festivas, começam com os rapazes solteiros a  acenderem uma fogueira com cepos acarretados três dias antes pelos mordomos. Durante o serão há baile para todas as pessoas da aldeia e redondezas, e atuação do grupo de pauliteiros da terra, sendo distribuídos, vinho e tremoços pelos mordomos.
No dia seguinte, tudo começa bem cedo com a alvorada dos gaiteiros, que acordam a população para iniciar o peditório na localidade. Os pauliteiros dançaram o “lhaço” em cada casa, a pedido do proprietário.
À porta da casa de quem perdeu algum familiar, a dança é substituída por uma oração. Em troca cada proprietário retribuiu com a esmola (salpicões, chouriças, pés e orelhas de porco, dinheiro e cereal). Enquanto os mantimentos são recolhidos, o povo bebe vinho e come tremoços curados no chamado “convite”. 
O Carocho e a “Biêlha” fazem travessuras, mostrando o mascarado a sua virilidade, através de atos e atitudes grotescas. A “velha” demonstra feminilidade nas suas vestes e maquilhagem.
As “entradas” assinalam a passagem dos rapazes solteiros para a mocidade. O percurso termina por volta das 13 horas, altura em que se prepara a eucaristia na igreja matriz da povoação. Terminada a missa, efetua-se uma procissão em torno do adro da igreja, onde a imagem de S. João Evangelista é transportada por quatro elementos dos pauliteiros, com outros tantos elementos a tocar castanholas.
Já o dia das entradas, é restrito aos rapazes solteiros, que entram para a mocidade. Ou seja, todo o rapaz da freguesia que, a partir de certa idade, queira andar na rua de noite, tem de pagar um tributo em dinheiro ou em vinho à mocidade. Trata-se de um ato de extrema importância para todos os que o praticam, uma vez que é a partir desta altura que deixam de ser vistos como crianças para passarem a ser vistos como rapazes, ganhando liberdade para os acompanhar nas festas, dentro e fora da povoação.
Vila Chã  entra no Ano Novo com a Festa do Menino
No primeiro dia do ano celebra-se a Festa do Menino Jesus, em Vila Chã da Braciosa. Esta festa é também designada de festa do Ano Novo e de Festa da Velha.
A ronda do Peditório e de saudações aos moradores decorre durante toda a manhã com música de gaita-de-foles, pauliteiros e danças protagonizadas pela velha, pelo bailador e pela bailadeira.
A Velha transporta nas costas quadras do peditório. A missa solene acontece por volta do meio-dia e conta com a participação dos atores e do gaiteiro. Segue-se o arraial, com o acender da grande fogueira no largo da igreja e o bailarico pela noite dentro, enquanto os figurantes continuam a pedir a «esmola» a quem aparece na Festa do Menino.
Rituais que chegaram aos nossos tempos carregados de simbologia, embora no passado tenham sido perseguidos pela Igreja, chegando mesmo a serem proibidos em algumas localidades. A vontade popular falou mais alto e continuam a com a magia do Planalto Mirandês.

Foto da Periferia (em branco e preto-sem retoques)

 Por: Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS
São Paulo (Brasil)
(colaborador do Memórias...e outras coisas)

Severino foi até o interior da casa e em seguida saiu sorridente com uma garrafa térmica de café e três copos na mão. Ofereceu o café aos passageiros; todos tomaram um café realmente saboroso. O Severino chamou o Nandinho para ajudar, no que foram acompanhados pelo Toninho e pelo homem do casal de passageiros. Em pouco mais que dois minutos, a geladeira jazia no piso do ônibus, na posição horizontal. Travou-se ali um debate do cobrador com o motorista:
- Severino, a geladeira não pode ficar deitada senão ela não vai funcionar, porque sai o óleo de dentro dos tubos dela!
- Nandinho, eu sei que o que pode vazá é o gaiz, mas isso demora mais de uma hora para acontecê! Vam´bora levá a geladeira pra minha casa?
- Vai lá, disse o Nandinho; vai lá disseram Toninho e o homem do casal.
O ônibus seguiu devagar, com o Nandinho o Toninho segurando a geladeira, para que eu ela não escorregasse no piso do ônibus. O ônibus passou por vielas e ruas descalças e sem movimento, atravessando um terreno baldio, até parar defronte uma casa, ainda em construção, sem reboco. De dentro vieram correndo duas crianças na maior alegria:
- Pai, Pai, disseram!
- Severino, não vai me dizer que trouxe a geladeira de ônibus?, disse a esposa.
- Apois Maria: truxe sim!

E pensar que quando saí de Taboão da Serra naquele ônibus que me conduziria ao centro de São Paulo, estava achando a vida tão sem graça! Bastou que o Severino nos perguntasse se alguém estava com muita pressa; como não estávamos, ele saiu do itinerário e a história se fez!
Este é mais um retrato, da periferia. Minhas retinas gravaram o evento; agora o contei.
- “Viva o povo brasileiro”, como diria João Ubaldo Ribeiro.

Antônio Carlos Affonso dos Santos
– ACAS. É natural de Cravinhos-SP. É Físico, poeta e contista. Tem textos publicados em 9 livros, sendo 4 “solos e entre eles, o Pequeno Dicionário de Caipirês e o livro infantil “A Sementinha” além de 5 outros publicados em antologias junto a outros escritores.

DOURO É CIDADE EUROPEIA DO VINHO 2023

💡 𝐎𝐏𝐉 - 𝐎𝐫𝐜̧𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐏𝐚𝐫𝐭𝐢𝐜𝐢𝐩𝐚𝐭𝐢𝐯𝐨 𝐉𝐨𝐯𝐞𝐦 𝟐𝟎𝟐𝟑

 📌A partir do dia 2 de janeiro e com prazo limite até 30 de março de 2023, poderão ser submetidas as candidaturas ao novo ciclo do OPJ / Orçamento Participativo Jovem 2023 do Município de Miranda do Douro.
Trata-se de uma iniciativa do Pelouro de Juventude do Município de Miranda do Douro, dinamizada em parceria com o Conselho Municipal de Juventude e que é dirigida aos jovens do concelho, com vista a desafiá-los a submeterem a concurso projetos inovadores com interesse local, depois de devidamente idealizados e estruturados.

Estão elegíveis a concurso candidaturas de jovens com idade entre os 14 e os 35 anos, residentes, estudantes ou trabalhadores no concelho. Para tal, é necessário preencher o formulário de candidatura e entregá-lo no Balcão Único do Município de Miranda do Douro.

O projeto pode ser de autoria individual ou coletiva, sendo que cada jovem só pode apresentar uma candidatura até 10.000€.

Podem ser apresentadas propostas em todas as áreas de atribuição do Município de Miranda do Douro, sejam de natureza material ou imaterial, tais como: urbanismo; proteção ambiental e energia; infraestruturas rodoviárias, trânsito e mobilidade; turismo, comércio e empreendedorismo jovem; educação; juventude; desporto; ação social; cultura.

O OPJ pretende dinamizar a interação e o diálogo entre os jovens, técnicos e decisores autárquicos; tornar os jovens mais responsáveis e ativos na cidadania e estimular o empreendedorismo jovem.

📲 Sabe mais AQUI.

SÃO GONÇALO 2023 - OUTEIRO

Cultura & Tradições | Vale de Salgueiro assinala as tradições do Dia de Reis de 05 a 08 de janeiro.

 

ÉS MARTINS? ESTA É A HISTÓRIA DO TEU APELIDO!

Henrique Martins
 Martins é, tal como Henriques, um patronímico.
O que é que isto quer dizer? Que é “filho de”. Martins quer dizer “filho de” Martim ou de Martinho.

Durante centenas de anos, não havia apelidos. As pessoas tinham como segundo nome, o do pai. Então, um João filho de um Pedro era João Peres. Uma Joana filha de um Henrique era Joana Henriques e assim sucessivamente. Eram uma espécie de clãs. O clã dos Fernandes, o clã dos Henriques ou o clã dos Martins.

Isto acontecia quer ao povo quer à nobreza. Os nobres acrescentavam, habitualmente, aos seus nomes próprios o nome do local onde tinham o solar ou onde a sua família tinha tido origem ou, então, um título concedido pelo rei..

Martins tem, então, origem, em “filho de” Martim ou de Martinho.

Quanto ao nome Martim tem origem em Roma Antiga...

E provém de Marte, o deus romano da guerra. Martinus era aquele homem que se dedicava à guerra, apoiado pelo deus romano da guerra, Marte. Martim significa “guerreiro”.

Quer isto dizer que os Martins atuais vêm de várias famílias diferentes de “Martins”. Bastava ter um Martim ou um Martinho como pai que era certo que o apelido seria Martins.

Sabe-se que D. Catarina da Áustria ou de Habsburgo, rainha regente de Portugal, durante a menoridade do seu neto D. Sebastião, concedeu armas a D. Diogo Martins ou Martines, à roda do ano 1560. Um dos brasões dos Martins ainda são estas armas atribuídas por D. Catarina.

Nobres ou não, todos os Martins foram, em tempos, filhos de um Martim que tem origem em Marte, o deus romano da guerra.

Um forte abraço aos Martins, esses grandes guerreiros! Martins é o 8º apelido mais comum, em Portugal! São quase 400 mil!

Ana Margarida Oliveira

“Está Tudo Dito” é o primeiro livro da macedense Amélia Borges

 “Está Tudo Dito!” é o título do primeiro livro da escritora Amélia Borges, natural do concelho de Macedo de Cavaleiros.


Uma obra autobiográfica que relata a experiência profissional da autora, que foi diretora do Centro Sagrada Família em Oeiras:

“Relatei uma autobiografia, com base na minha experiência de trabalho no setor social durante 30 anos.

Este livro fala, no fundo, da presença e importância que têm as pessoas, o terceiro setor e, sobretudo, esta organização onde eu trabalho que é o Centro Sagrada Família, que pertence às Irmãs Dominicanas Irlandesas.

Parte da receita do livro reverte para o projeto social Famílias com Alma.”

O centro apoia atualmente cerca de 100 famílias ao longo da semana e foi fruto de um processo de transforação que durante 10 anos permitiu criar condições para acolher crianças na atividade educativa de creche e pré-escolar.

Com este livro, Amélia Borges quer passar várias mensagens aos leitores:

“Além deste processo de transformação do centro, é feita uma retrospetiva desde quando eu era criança, numa aldeia de Trás-os-Montes, há 55 anos, como estudei e as várias formas de levar o conhecimento.

Apela para as questões da longevidade, com 47 anos tomei consciência e comecei a fazer outras coisas.

Também apelo a algumas questões da valorização das pessoas, de as dignificar, do trabalho em equipa, da motivação das equipas e olhar para as pessoas, não só como categorias profissionais, mas sim como sendo todos importantes.

Apelar também à liderança das organizações, não só do setor social mas em todos os locais.

Aborda ainda algumas questões que só estão no coração e mais tarde poderão ser explicadas.”

O livro foi apresentado à população do concelho de Macedo de Cavaleiros.

Escrito por ONDA LIVRE

SÓ QUATRO CÂMARAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA DEVOLVEM A TOTALIDADE DA PARTICIPAÇÃO VARIÁVEL DO IRS AOS SEUS MUNÍCIPES

 OUTRAS QUATRO NÃO DEVOLVEM NADA E MAIS QUATRO AUTARQUIAS DEVOLVEM PERCENTAGENS INTERMÉDIAS.


A cada ano, todos os municípios têm direito a uma participação variável até 5% no IRS dos seus munícipes, de acordo com o regime financeiro das autarquias locais e das entidades intermunicipais.

Os municípios têm até 31 de dezembro do ano anterior àquele a que o imposto respeita, para comunicar essa decisão à Autoridade Tributária. Se não o fizerem, perdem o direito a esta participação e os 5% são devolvidos aos contribuintes. Foi o que aconteceu com o Município de Mogadouro.

Por iniciativa própria, alguns municípios decidem abdicar dessa receita na totalidade. Outros apenas em parte.

Quatro dos doze municípios do distrito de Bragança, não devolvem qualquer percentagem aos munícipes. Acontece em Alfândega da Fé, Bragança, Torre de Moncorvo e Vimioso. 

No sentido inverso, outras quatro câmaras devolvem a totalidade dos 5% aos seus munícipes: Carrazeda de Ansiães, Mogadouro, Vila Flor e Vinhais.

Os restantes quatro Municípios devolvem percentagens intermédias: Macedo de Cavaleiros devolve 4%. Mirandela devolve 3%. Enquanto Freixo de Espada à Cinta e Miranda do Douro devolvem metade, ou seja, 2,5%.

Para os contribuintes, este é um processo muito simples, já que não têm de fazer nada para aceder ao Benefício Municipal. Basta que entreguem a sua declaração de IRS dentro dos prazos estipulados por lei e tenham morada fiscal num dos municípios que concedem um desconto no IRS aos seus habitantes.

Na nota de liquidação do IRS, no campo “Benefício Municipal”, também pode ficar a saber o valor de imposto que lhe foi devolvido pela sua autarquia.

Para calcular o desconto no IRS que o seu município lhe concede, basta multiplicar a taxa de devolução pela sua coleta líquida de IRS, ou seja, depois de descontadas todas as deduções a que tem direito.

Artigo escrito por Fernando Pires
(jornalista)

Murçós quer deixar União das Freguesias

 A aldeia de Murçós, no concelho de Macedo de Cavaleiros, quer tornar-se numa freguesia independente, através do recurso ao procedimento especial, aprovado o ano passado


Em 2013, a “Lei Relvas” impôs a esta aldeia a integração naquela que passou a ser a União de Freguesias de Espadanedo, Edroso, Murçós e Soutelo Mourisco.

O presidente da junta de freguesia, David Martins, explicou que a população nunca esteve satisfeita com esta agregação.

“Agradecia que repusessem ou tentassem repor um desejo da população de Murçós”, afirmou.

A desagregação teve já parecer o positivo do presidente da Câmara Municipal, Benjamim Rodrigues, que considera ser uma “questão de justiça”.

“Contra a vontade de muita gente foi-lhe imposta esta solução e como é a aldeia que reúne condições para a desagregação, repõe-se a justiça. Relativamente às outras uniões de freguesias e aquelas que tiveram os processos muito pouco equilibrados, muito pouco ponderados, no ano seguinte podem pedir a desanexação. Isto para dizer que é uma situação única. Nós contactámos os presidentes de junta interessados e as populações e, obviamente que, neste caso, havia uma manifestação prévia de grande parte da população de Murçós”, disse.

O parecer foi aprovado pela Assembleia Municipal, com um voto contra e três abstenções.

O processo será agora enviado para análise da Assembleia da República e, a ser aprovado, entrará em vigor a partir do final do actual mandato, passando dessa forma Macedo de Cavaleiros a ter 31 freguesias.

Escrito por Onda Livre (CIR)

domingo, 1 de janeiro de 2023

É um empréstimo, disseram-me quando cheguei...

 "É no espaço entre as palavras que me sento. No distanciamento entre linhas que, como corredores cheios de sentidos, percorro a passo lento na cadência deste tempo que não me pertence. É um empréstimo, disseram-me quando cheguei. Quando estiver amortizado partirei.
Vivo aqui, entre parágrafos que são salões cheios de personagens, nos pontos finais que param qualquer viagem. Às vezes, soletro-me como quem soluça, outras vezes voo como quem tem asas.
Choro e canto ao mesmo tempo, perco-me neste labirinto onde apenas o singelo fio da minha intuição me pode fazer encontrar a porta por onde deveria sair desta gaiola.
Não quero! Se deixar este lugar, perder-me-ei de mim mesmo, serei apenas mais um número na contabilidade dos dias. Ao menos aqui, sou uma velha alma de bibliotecária que ordena letras e sonha com ser personagem nesta teia de enredos e novelas que desfilam dentro da mente de quem quer ser poeta."


A.A.
'p'la Mesma Alma'

Mudam-se os tempos, permaneçam as vontades

Por: Paula Freire
(colaboradora do Memórias...e outras coisas...)

Enternece-me o modo brioso e garrido como o Sr. Domingos responde, sempre que alguém o questiona sobre a data do seu aniversário. Empertiga os ombros, afina a voz e profere, lacónico: “10 de junho. Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”. E o olhar envolve-se-lhe num silencioso e arrebicado sorriso.
O Sr. Domingos não foi marinheiro. Nem terá tido oportunidade sequer de ver o mar, muitas vezes, ao longo dos seus já extensos setenta e cinco anos de idade. Pouco foi o tempo que alongou vistas por outras paragens que não fosse a sua aldeia de onde, um dia, os filhos saíram em busca de outros destinos mais afortunados.
Os estudos foram escassos, os poucos que uma simples e modesta família de sete filhos lhe permitiram em tempos remotos, quando a pobreza se fazia casa num país encerrado entre quatro paredes. Mas sabe a história de Portugal na ponta da língua. E com grande confiança a recita aos netos, quase como se entoasse demorada cantiga à desgarrada.
Pois dessa história, o Sr. Domingos conhece o heroísmo e a afoiteza dos seus ancestrais que se aventuraram por mares nunca dantes navegados mais do que prometia a força humana.
Se nunca foi um navegador, sabe dos passos e dos triunfos desses heróis do mar que se fizeram a um mundo desconhecido, à descoberta do futuro, numa vontade constante de ir sempre mais além.
Povo viajante feito de garra e bravura extraordinárias onde cabia a gigantesca convicção no desconhecido e uma força inabalável de superação dos infortúnios e má sorte.
Talvez o Sr. Domingos desconfie, com boa pitada de vaidade, ser ele também herança deste património genético tão magnificamente assinalado pelo nosso prodigioso, aventureiro e apaixonado Camões. E por isso, na sua postura humildemente despretensiosa possamos perceber, porém, esse orgulho maior por ter nascido num dia 10 de junho.
Não foi por morar num Portugal interior, muitas vezes esquecido, que o Sr. Domingos permitiu deixar passar ao lado a sua história de um passado de expansão e aquisição de outros saberes. É este forte sentimento de pertença que tanto lhe admiro, apesar do bastante que lhe falta materialmente, fruto das asperezas e intempéries da vida num canto de Portugal votado à solidão e abandono dos que nunca partiram para contrariar os desígnios.
E sei que, se algum dia, tivesse que deixar para trás o seu pedaço de terra, guardador de muitas vivências, e a sua casinha construída a pulso com ardor e dedicação, seria como pedir à morte que o levasse para outro mundo. Porque é desta ânsia permanente de regresso ao seu porto que se faz o coração de cada português, qual mito de D. Sebastião, ainda que um sexto sentido lhes garanta que, por vezes, a volta possa não passar de uma ilusão.
Se reduzimos cada vez mais as nossas fronteiras e abrimos portas a uma sociedade multicultural onde se vão desenhando constantes e rápidas mudanças nos vários sistemas que lhe dão forma, continuamos ainda assim a descobrir-nos numa cultura amplamente genuína e pura que transporta em si o caráter tão forte da nossa lusitanidade.
Honrar o chão que pisamos e o barro de que somos moldados e cantar o presente, e também o passado e o futuro porque o presente é todo o passado e todo o futuro, como nos ditou Álvaro de Campos em “Ode Triunfal”. É isto o que, agora, podemos encontrar de mais digno no desejo de cada um.
Os nossos antecessores, numa árdua conquista de mais conhecimento, muito fizeram e contribuíram para nos abrir horizontes.
Hoje, em cada palavra dita, em cada centelha de comemoração por este dia que nos torna, de alguma forma, mais grandiosos enquanto povo, saibamos conferir sentido a todo o esforço levado a cabo por esses nossos antepassados.
Consigamos igualmente fazer uso dos ensinamentos de outrora para interpretar o futuro e corrigir o que possa estar mal. Com aquele sentimento que os portugueses tão bem guardam no peito ao longo dos caminhos do seu fado: a esperança e a fé.
Mudem-se os tempos… mas permaneça a vontade.


Paula Freire
- Psicologia de formação, fotografia e arte de coração. Com o pensamento no papel, segue as palavras de Alberto Caeiro, 'a espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias'.

Esquerda, direita, um, dois

Por: Manuel Eduardo Pires
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)

Lembro-me como se tivesse sido ontem daquela magnífica festa de há quarenta e cinco anos que, como um bom agoiro que se lê no livro da natureza, se fez anunciar numa bonita manhã de primavera e sol nos espaços exteriores do liceu. Quase toda a malta da minha geração a acolheu de braços abertos com o idealismo, a ingenuidade, a ignorância que todos os dezoito anos costumam autorizar. A nossa perceção das coisas da política era fraquinha, para não dizer nula, e nem liberdade nem democracia nos diziam grande coisa: uns meses antes um ministro do salazar tinha sido lá recebido com discursos bajuladores e as honras do costume.
Era o que se passava com o povo em geral. Mas as festas, todas elas, são pausas saborosas no fim de longos dias de rotinas extenuantes; momentos em que os quadris se aliviam do peso desta linha produção que é a vida; intervalos em que uma ordem instituída relaxa a sua lei, ou se afasta para uma outra ordem instituir uma outra lei. Por acréscimo, aquela prometia paz a um país em guerra, pão a uma terra de fome inveterada, saúde a um povo abandonado às suas dores e moléstias, educação a uma população que não sabia ler. Se juntarmos ainda o brinde da liberdade e da democracia, compreendem-se bem os espasmos em que tudo aquilo deu.
Devia ter sido interessante para um observador vindo de fora assistir ao corrupio de ideias que flutuavam no ar por essa altura e ao frenesi de gente acotovelando-se para as apanhar. Posto que o nosso forte nunca foi pensar, aderíamos às coisas por todo o tipo de razões egocêntricas e inconscientes, isto é, mais ou menos com a mesma racionalidade com que antes tínhamos decidido ser do sporting, da académica ou da sanjoanense. Nem preciso de ir muito longe: a minha colagem imediata às esquerdas não tinha por trás nenhum conhecimento amadurecido (nem por amadurecer) do ser humano e da vida em comunidade. Simplesmente, as promessas generosas da revolução eram música para os meus ouvidos de desfavorecido.
Éramos brutos, tal como hoje, e não era difícil convencerem-nos fosse do que fosse. Porque tudo nos era servido como num self-service doses de fast food prontas a comer, comíamos do que nos punham à frente. E depois, as ideias da moda tinham o aval de filósofos, intelectuais, políticos, tudo gente de gabarito que pensava por nós. Apenas um exemplo: passámos quase todos a ser ateus empedernidos, mas, curiosamente, engolíamos com avidez o catecismo de uma nova fé, à qual não faltavam profetas, escrituras, promessas de salvação, messias, apóstolos, mártires, papas, missas, romarias. O fervor da crença chegava mesmo a proporcionar visões, individuais e coletivas.
Se não, vejamos. Uma das primeiras coisas de que nos persuadiram foi que as ideias políticas se repartem por dois grandes campos que mutuamente se excluem e combatem, esquerda e direita. Acoplado a isso, era evidente para nós que arrastados nessa luta se digladiavam também povo e burguesia, operários e patrões, pobres e ricos, explorados e exploradores. Simplista como todos os esquemas, mas tão eficaz que se mantém a funcionar e ainda nos empolga. Curioso é que os segundos termos destes pares foram rapidamente diabolizados. Ser de direita não era ser alguém que pudesse ter ideias válidas e defender modelos de sociedade. Concentrada no adjetivo fáxísta, então em voga, a categoria não só desqualificava qualquer um como tinha mesmo caráter insultuoso. Em resumo, à pobreza do pensamento maniqueísta direita-esquerda acrescentava-se a indigência do pensamento único.
Com o tempo ficámos amarrados à ideia como barcos a um cais, e tomámo-la por tão real como um pau ou uma pedra. Também é verdade que ela vai funcionando dentro do jogo democrático, ao fazer dialogar pontos de vista antagónicos e complementares de cuja síntese se constrói a vida em sociedade. Mas fraturar a vida política (e portanto as nossas mentes) em duas partes é tão arbitrário como fraturá-las em quatro ou oito, não passa de uma convenção como qualquer outra.
Direita e esquerda existem dentro de nós como duas tendências que dialogam entre si e a natureza nunca se teria lembrado de apartar: razão e coração. Cada uma delas devia ser um miradouro para contemplar o panorama antes de avançar, não uma moradia de cuja janela se olha a mesmíssima paisagem durante a vida inteira.

(Nordeste - jun. 2019)

Manuel Eduardo Pires
. Estes montes e esta cultura sempre foram o meu alimento espiritual, por onde quer que andasse. Os primeiros para já estão menos mal, enquanto a onda avassaladora do chamado progresso não decidir arrasá-los para construir sabe-se lá o quê, mas que nunca será tão bom. A cultura, essa está moribunda, e eu com ela. Daí talvez a nostalgia e o azedume naquilo que às vezes digo. De modo que peço paciência a quem tiver a paciência de me ir lendo.

Conservação: o pior e o melhor de 2022

 Com o final do ano à porta, a Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza e a ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável revelam o que de melhor e de pior aconteceu em 2022.

Rola-brava (Streptopelia turtur). Foto: Kev Chapman/Wiki Commons

A seca extrema na maior parte do ano surge como o primeiro pior facto ambiental de 2022 para a Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza. A associação pede “práticas agroecológicas, exploração florestal mais próxima da natureza, uma gestão com critérios ecológicos em todo o território (em particular abandono do uso do fogo por queima de sobrantes e queimadas) e mudanças alimentares com redução do consumo de alimentos de origem animal”. Assim, entende a Quercus, “será possível reduzir a pressão sobre o território e os ecossistemas que abrirá mais caminhos para redução do consumo de energia, a recuperação dos solos, a regeneração natural e o restauro ecológico, e com isso a recuperação dos ciclos naturais, designadamente do ciclo hidrológico (ou ciclo da água)”.

Para a ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável, o Governo geriu a situação de seca de “forma errática”, com recurso a “medidas avulsas e sem qualquer efeito de longo prazo evidenciando a inexistência de uma estratégia política para a gestão dos recursos hídricos em Portugal capaz de responder aos desafios impostos pelas alterações climáticas e assegurando uma maior resiliência a situações de seca e escassez hídrica”.

“Esta situação foi ainda agravada pela gestão insustentável dos rios transfronteiriços com o Governo a mostrar-se conivente com o incumprimento de Espanha relativamente aos caudais estabelecidos no âmbito da Convenção de Albufeira”, lamenta a ZERO.

Um outro pior facto de 2022 para a Quercus foi o grande incêndio que destruiu 22 mil hectares do Parque Natural da Serra da Estrela. “Este incêndio evidenciou, mais uma vez, a ineficácia das medidas em vigor nas Faixas de Gestão de Combustível, em que áreas intervencionadas meses antes com desmatação, incluindo os aceiros, não travaram a progressão do fogo, o que só aconteceu em área densamente arborizadas com folhosas caducifólias, no caso em concreto uma área dominada por castanheiros, em Manteigas”, escreve a Quercus em comunicado.

O “avanço desenfreado das centrais fotovoltaicas” foi, para a associação, uma das piores coisas que aconteceram em 2022, em termos ambientais. “Em nome da emergência climática, facilitada pelo Simplex Ambiental, tem-se assistido a uma acelerada degradação de valores naturais do país, com o abate de áreas florestais com espécies autóctones folhosas e a destruição de habitats que estão a afetar inclusive habitats e espécies ameaçadas, como a águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti), que tem o estatuto de conservação Criticamente em Perigo de extinção, da União Internacional de Conservação da Natureza (UICN).”  

“A Quercus defende as energias renováveis com o respeito pela regulação ambiental e apoio em larga escala à produção descentralizada e às cadeias de distribuição curtas. Esta complexa situação desafia-nos a encarar a questão de fundo que é a necessária redução significativa do consumo de energia.”

Nota negativa da Quercus vai ainda para a transferência de competências do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) para as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) porque, considera, “enfraquece a conservação da natureza, florestas e agricultura”. “Em causa está o definhamento do ICNF enquanto órgão central responsável pelas políticas de conservação e das florestas com a desresponsabilização da efetiva gestão das áreas protegidas nacionais.”

A ZERO lembra como um dos factos mais negativos de 2022 o avanço da Barragem do Pisão. Na sua opinião, o processo de avaliação de impacte ambiental do Aproveitamento Hidráulico de Fins Múltiplos do Crato foi “apressado e com lacunas”, além de não ter sido capaz de “justificar a sua principal função de abastecimento público – pela existência de alternativas que não implicam a destruição de mais de 600 hectares de montado e vários habitats protegidos. O Governo classificou o empreendimento como sendo de “interesse público nacional” para procurar garantir a alocação dos 120 milhões de euros previstos na medida do Plano de Recuperação e Resiliência, cuja conformidade está a ser avaliada”.

Os melhores factos ambientais de 2022

O acordo firmado na COP15 em Montreal, Canadá, para proteger 30% do planeta até 2030 e disponibilizar 30 mil milhões de dólares (cerca de 28 mil milhões de euros) de ajudas anuais à conservação da natureza e biodiversidade, para os países em desenvolvimento, entre outras medidas, é um dos factos mais positivos de 2022 para a Quercus.

Esta associação destaca ainda a suspensão da caça à rola-brava (Streptopelia turtur) até 2024. “A medida de proteção temporária da espécie já adotada na época venatória anterior, foi prolongada por mais duas épocas por via da publicação da Portaria n.º 161/2022, de 20 de junho.” A Quercus lembra que esta “é uma espécie migradora – todos os anos estas aves atravessam duas vezes o deserto do Saara nas suas viagens entre a Europa e África, e foi muito abundante em Portugal. Apesar de ter estatuto de proteção no âmbito da Diretiva Aves (Diretiva 2009/147/CE) e de ser considerada ameaçada pela União Internacional de Conservação da Natureza (UICN), há uma tendência de regressão nas últimas décadas em Portugal, e na Europa, pelo que é de saudar a medida do governo”.

Para a ZERO, um dos melhores factos de 2022 foi a aprovação da redação final da Lei Europeia sobre Desflorestação. “Este novo regulamento Europeu para produtos livres de desflorestação é um marco em termos de combate à desflorestação ligada a um conjunto de mercadorias globais através de mecanismos de rastreabilidade e de classificação de risco.”

“O diploma tem margem para melhoramento e sofrerá atualizações nos anos seguintes à implementação (após 2024), onde poderá incluir outros ecossistemas, regular o papel do setor financeiro e rever as mercadorias a controlar.”

Helena Geraldes

Capítulo da Visita do Pároco Lourenço Pires Mendes a Rebordãos, 1754

 As gentes transmontanas, tem na sua génese uma íntima religiosidade profunda, contudo as fronteiras morais que lhes eram impostas pelas autoridades eclesiásticas e as proibições do clero na permanência e na modificação dos hábitos e tradições lúdicas no Nordeste Transmontano, são um facto que o documento do ano de 1754, desvela e obriga a uma reflexão em torno do poder punitivo da Igreja para com a conduta das pessoas: Proibição jogo dos paus; ver jogar; conversações e outros divertimentos à porta da Igreja; desordens nas tabernas; não se juntem homens com mulheres a jogar. A constituição sinodal, pela qual a diocese se regia, a imagem e o porte do clero, tinham um conjunto de metodologias punitivas, de forma a controlar os costumes e a incutir uma Moral normativa à luz da Igreja. Assim, existe um rol de atividades lúdicas que eram prazenteiras no convívio, no processo de socialização, sobretudo no Inverno, devido à de ausência de atividades laborais, onde as proibições e punições eram uma realidade constante: “…para se encomendarem a Deus e a todos os que jogarem ou acudirem a ver jogar em semelhante sitio os havemos por condenados pela 1ª vez em um tostão cada um e pela segunda em dois cuja a condenação lhe intimara logo o reverendo pároco, e sendo rebeldes a pagar os evitara dos divinos ofícios e se continuarem na rebeldia procedera contra eles com pena de excomunhão…. “

Eis que podemos afirmar, a interligação existente entre Igreja, Moral e Educação na comunidade; a relação entre o sagrado e profano, o real e irreal, a necessidade de catarse como processo de regeneração das limitações colocadas pelo poder clerical

O povo transmontano é cioso da força da liberdade, e nos momentos festivos declara essas práticas culturais onde o sagrado e profano tem a sua existência ténue, que gradualmente, no tempo e espaço histórico, vieram a conquistar o seu universo próprio com a aquisição de Liberdade.

Confortados com a nossa contemporaneidade, e as circunstâncias do “eu” , só podemos nomear a premissa infalível: Liberdade com responsabilidade. Liberdade perante mim, pelos outros, pelo mundo, numa relação de unicidade transcendente.

O sentido pleno da Vida, que os trilhos da história nos ensina…

“Todos somos pecadores. Mas que o Senhor não nos deixe ser hipócritas. Os hipócritas não conhecem o significado do perdão, a alegria e o amor de Deus”.

Papa Francisco

Fonte: Arquivo Distrital de Bragança

Museu Municipal Armindo Teixeira Lopes inicia 2023 com uma exposição coletiva de interligação entre a escultura de Fernando Barros e a pintura de Joana Antunes.

 Com inauguração marcada para o dia de Reis, a 06 de janeiro, pelas 18 horas, esta mostra contará com a animação do Grupo de Caretos de Torra de Dona Chama e o Grupo de Cavaquinhos da Universidade Sénior de Rotary Mirandela.
A exposição ANIMA estará patente no MATL de 06 de janeiro a 03 de março.