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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

A Pandemia e o futuro próximo

Por: António Orlando dos Santos (Bombadas)
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

A Barca de Dante (Museu do Louvre, Paris)
 de: Eugène Delacroix
Mesmo nas piores circunstâncias e privações o homem possui uma capacidade de adaptação ao que desconhece e não consegue controlar, que é inata e tem sobrevivido a todas as anteriores catástrofes e pragas que se interpuseram no seu caminho. Mas em tempo de normalidade tende a pensar que a última já lá vai e que a vida é apenas o "dolce fare niente " que ele idealizou, o que não passa de uma UTOPIA.
Parece-me que temos em mãos algo de muito sério e imprevisível.
Ora bem, neste meu tempo de vida, reformado e condicionado, tento aproveitar o tempo que me resta da forma que mais me apraz; lendo os meus livros, ouvindo a minha música, escrevendo as minhas crónicas e tentando passar o meu tempo em sintonia com aquilo que desde muito novo desejei para mim, quando o trabalho deixasse de ser a coisa mais importante da minha vida.
Assim passei a dar atenção ao raiar da Aurora e ao Por do Sol e sem que dê muita atenção à previsão meteorológica dos "media", passei a dedicar alguma atenção ao Sol e à Chuva.
Ora estava eu quase contente com tal estado de coisas, eis que desaba sobre este mundo algo que é definido por um vocábulo quase desconhecido que dá pelo nome de Pandemia. E de repente a minha caminhada serena sofreu um percalço que pôs tudo em estado de sítio.
Há mais de sete meses que a abertura dos noticiários da TV ou da Rádio, bem assim como os títulos dos jornais se faz invariavelmente com algo que passou a ser o assunto tão falado e de tal abrangência que todo o mundo desde os países mais pobres aos mais poderosos lhe estão submetidos. E eu passei de um estado de quase Felicidade para outro de Inconformismo e angústia.
Não fará sentido eu repetir o que de tão recorrente, é de todos conhecido; o ritual da informação de casos vários de Hospitais e Lares de Idosos que fazem lembrar cenas que o próprio Dante Alighieri teria dificuldade em descrever. O caminho que era liso e que serpenteava pelo prado em Flôr, onde dava prazer sentir a Natureza passou de idílico a tenebroso, os livros têm as palavras ao acaso e o que dizem deixou de fazer sentido, a música é agora cansativa e impertinente e a gente vagueia pelas ruas ensimesmada, de máscara que a torna estranha e irreconhecível. Somos um grupo de gente desconhecida, até para os mais chegados, havendo casos de rejeição por falta de diálogo que as máscaras impedem e que nos torna em fantasmas vagabundos.
Os políticos nunca foram um exemplo, mas agora estão também assustados e não dizem coisa com coisa. Pudera, a Economia está a afundar-se e os privilégios podem erodir-se. 
Continuam no seu posto, os Médicos e Enfermeiros, mais o Pessoal Técnico que têm travado um duelo de vida ou morte que nós vagamente reconhecemos. Somos uns mal-agradecidos.
É a guerra química que as grandes inteligências, vulgo, crânios puseram em marcha ou será apenas a Natureza que está a proceder a pequenos arranjos nas peças avariadas da sua máquina Suprema? Seja o que for a mim já me estragou os dias. Os Livros  deixaram de ter o poder de me encantarem, a Música soa a barulheira e o Sol  e a  Lua, deixaram de me seduzir.
No telejornal, o pivot disse agora que o governo decretou o Estado de Emergência e os números já atingem cifras elevadíssimas, a Ministra não sabe o que fazer e a Diretora de Saúde, pequenina mas tesinha, lá se tem aguentado.
É mais um dia que nos faz pensar porque é que a nós nos toca sempre "dançar com a feia?".
Era agora tempo de mudarmos de paradigma, mas parece-me que não teremos tal discernimento, pois quem manda no mundo quer que seja assim e as lições que Deus nos dá, entram-lhes por um ouvido e saem-lhes pelo outro.
É esta uma crónica inquinada, escrita num tempo de chuva e Covid19 que me confundem e desesperam!
Quanto tempo poderá durar esta incerteza, este destruir da Humanidade que espera ansiosa pelos dias felizes de um passado recente que nos permitia andar de cara destapada e reconhecer as gentes que falavam sem panos na boca?
( GÉNESIS - E o Senhor deu ao homem esta ordem: -Podes comer do fruto de todas as árvores do Jardim, mas não comas o da árvore da ciência, do bem e do mal, porque no dia em que o comeres certamente morrerás. (Genesis 2/11 e 12.)




Bragança, 27/X/2020
A. O. dos Santos
(Bombadas)

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

lembrei-me…

Por: Fernando Calado
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)

Para amaciar o tempo,  abri a janela e por milagre o sol escondia-se perto da Senhora da Serra…  num céu estranhamente riscado… já sem forças para chegar a Bragança!
… Lembrei-me dos dias felizes em que os idosos morriam serenamente em sua casa… lembrei-me dum tempo… estranhamente distante… em que havia abraços e sorrisos… Lembrei-me dos grandes naufrágios… e de milhares de ratos fugindo enquanto os navios se afundavam… e só regressavam lampeiros quando as marés se acalmavam… lembrei-me…
… e Albert Camus tão perto… e os ratos também morrem… ensanguentados…  anunciando a Peste na fustigada cidade de Oran na Argélia 
…felizmente o sol é como eu chega onde pode chegar… sem pressas… sem mágoas… sem um queixume, nem ressentimentos!... 
 e contenho-me dolorosamente na palavra e na análise.
… não se devem dizer mentiras nem queixinhas!... aprendi com a minha neta Lara… quando era pequenina… só se deve dizer: - Bom dia Lara!
… fechei a janela… um bando de corvos regressava a casa… rente ao campanário da igreja… e tive medo.

Fernando Calado
nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança. 
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.

SERVIÇO DE TRANSPORTES FLEXÍVEL EM VINHAIS VAI RETOMAR DIA 2 DE NOVEMBRO

 O serviço de transportes flexíveis, implementado pela autarquia em 2017, em regime experimental, tem vindo a ser melhorado ao nível da cobertura da oferta do serviço, abrangendo mais localidades e servindo maior número de pessoas. Após uma paragem imposta pela pandemia COVID-19, este serviço vai ser retomado na próxima segunda-feira, dia 2 de novembro.
Neste novo arranque, o serviço de transporte flexível abrange mais 11 localidades, ou seja, passam a ser abrangidas 65 aldeias, servindo assim um maior número de cidadãos e com novas regras, cumprindo as normas impostas pelo plano de contingência para a Covid-19.

Este serviço está essencialmente ao dispor das pessoas mais necessitadas, onde outras operadoras não disponibilizam o transporte.

Época de vindima marcada pela pandemia e quebra na produção

 Este ano, as condições meteorológicas ditaram um início antecipado da época das vindimas.
Na Cooperativa Agrícola de Macedo de Cavaleiros produziu-se menos vinho que no ano.
passado, mas Luís Rodrigues, presidente, considera que será suficiente para satisfazer as necessidades dos compradores:

“Foi uma campanha que correu bem mas que não foi tão grande como a do ano passado. Tivemos cerca de 569 mil quilos de uvas, que para a nossa região e para nós já é uma boa campanha, embora para uma adega de vinho não seja nada. Sabemos que o vinho aqui não tem a representação quem tem em outras zonas. 

Transformado em vinho deve rondar os 430 mil litros de vinho, que para satisfazer as nossas necessidades chegará perfeitamente.”

A mesma realidade verifica-se na produção da Santa Casa da Misericórdia de Macedo de Cavaleiros, detentores do rótulo Quinta do Lombo, que afirmam uma quebra de produção a rondar os 30%, como explica Francisco Castanheira Pinto:

“Houve menos uva em relação ao ano passado, mas se compararmos com há dois anos anteriores estará equivalente. O ano passado foi o melhor ano de todos, que conseguimos fazer 18 mil litros de vinho. Este ano não passará dos 13 mil litros.”

Uma época de vindima marcada pela pandemia, que obrigou à toma de várias medidas de segurança:

“As pessoas usaram máscara e praticaram o distanciamento, ou seja, estiveram sempre em valados distintos. Este ano não fizemos confraternização na hora do mata bicho e do almoço. Houve esses períodos de refeição mas com as pessoas sempre distanciadas.” 

A Santa Casa da Misericórdia dispõe de seis hectares de vinha, divididos pelas aldeias de Lombo e Cortiços.

Escrito por ONDA LIVRE

Minério de ferro começa a ser explorado dentro de duas semanas, no Cabeço da Mua

 O Arquiteto Carlos Guerra, consultor da Aethel Mining, e Nuno Gonçalves, Presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, estiveram ontem, dia 27 de outubro, no Cabeço da Mua para ver os primeiros testes realizados à maquinaria já instalada no local.
A exploração das minas de ferro, situada na União de Freguesias de Felgar e Souto da Velha, concelho de Torre de Moncorvo, vai permitir a exportação, até ao final deste ano, cerca de 200 mil toneladas de agregado de ferro.

O Arquiteto Carlos Guerra, consultor da Aethel Mining, e Nuno Gonçalves, Presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, estiveram ontem, dia 27 de outubro, no Cabeço da Mua para ver os primeiros testes realizados à maquinaria já instalada no local. “Assistimos a um ensaio de afinação das máquinas na sequência que vão ter de trabalhar, apesar de faltar uma das máquinas que só chega hoje ao fim do dia ou amanhã. Até ao fim desta semana e princípio da próxima fica tudo testado e alinhado, portanto a partir daí começa a produzir o minério de acordo com as encomendas que existem”, explicou Carlos Guerra.

Explicou ainda o processo que percorrerá o minério desde a recolha até ao transporte, “é britado ali em baixo, é aqui carregado nesta plataforma e daqui vai para um terreno onde se faz o stock e o posterior carregamento para ser escoado para o destino, no caso o Porto de Leixões ou outro porto qualquer.”

Para o Presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo “o projeto mineiro que foi tantas vezes colocado em causa, devido ao que desde a década de 80 até agora aconteceu, e depois das concessões que foram dadas pelo estado às diversas empresas que tiveram interesse na reabertura das minas, às quais foram colocados diversos entraves, é um orgulho também para o Município de Torre de Moncorvo, que nunca deixou cair este projeto, muitas vezes lutando sozinho juntamente com os concessionários para que este projeto avançasse. É para nós importante termos a noção e queremos verdadeiramente que isso aconteça, sendo que até ao dia 31 de dezembro o complexo mineiro de Torre de Moncorvo irá exportar cerca de 200 mil toneladas.“

Nuno Gonçalves explica que este é um projeto diferente e sustentável, “num conceito inovador que vem também ao encontro daquilo que nós queremos é um projeto verde, onde temos toda uma reabilitação da zona onde vai ser extraído o minério, temos a preocupação ambiental e isso é irmos mais além. Não vai ser um projeto mineiro como estamos habituados a ver, mas vai ser um projeto com características próprias a pensar no futuro e a pensar verde, que aquilo que queremos para o Município de Torre de Moncorvo.”

Projecto de snacks saudáveis de alunos do IPB distinguido no Concurso Universitário e Politécnico da CAP

 O projecto FruitsforHealth, desenvolvido por alunos do Instituto Politécnico de Bragança, foi o segundo classificado do “Concurso Universitário e Politécnico da CAP – Cultiva o teu futuro”.
Das 69 participações de instituições de ensino superior de todo o país, destacou-se esta pela criação de snacks saudáveis. As três combinações de sabores criadas recaíram sobre produtos de origem nacional e até mesmo DOP.

“O objectivo foi tentarmos desenvolver produtos que tenham origem nacional e que possam agregar algum valor, quer ao produto a nível económico, ao nível cultural e ao nível da saúde”, explicou Nuno Rodrigues, coordenador do trabalho.

Estas combinações deram origens a snacks nutritivos, sem adição de açúcar nem de outros ingredientes menos saudáveis.

O produto começou a ser desenvolvido há um ano e o objectivo é mesmo chegar ao mercado.

“O produto tem pernas para andar, nós agora queríamos ver se avançávamos nós por conta própria ou então se haveria a possibilidade de alguma empresa ficar com a ideia e nós podíamos fazer uma colaboração”.

Os snacks FruitsforHealth ganharam agora este segundo prémio no concurso da CAP, no valor de 1500 euros. Dinheiro que vai ser utilizado no desenvolvimento deste ou novos produtos e em inovação e tecnologia no sector.

O projecto foi desenvolvido pelos alunos Kevin Silva, Morgane Podence e Sandra Lamas, com o apoio e coordenação de Nuno Rodrigues e Elsa Ramalhosa.

Escrito por Brigantia
Jornalista: Olga Telo Cordeiro

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Clube Académico de Bragança aposta no ténis em cadeira de rodas

 O Clube Académico de Bragança (CAB) vai apostar no ténis em cadeira de rodas. O projecto já está em andamento e surge depois de um atleta com mobilidade reduzida ter manifestado interesse em praticar a modalidade.
Lília Morais, responsável pela secção de ténis, destaca a disponibilidade da Federação Portuguesa de Ténis para apoiar a iniciativa. “Logo que entrámos em contacto com a federação esta mostrou-se logo disponível para ajudar na cedência, por exemplo, de uma cadeira própria. Também tivemos que fazer algumas adaptações como uma rampa de acesso para facilitar a mobilidade do nosso atleta”.

A Federação Portuguesa de Ténis forneceu a cadeira de rodas devidamente adaptada ao atleta e os treinos vão avançar.

A aposta no ténis em cadeira de rodas surge depois de o CAB ter apostado na modalidade de ténis há cerca de três anos. O próximo passo é federar os atletas. “Estamos a fazer um esforço para podemos federar os atletas mais novos, para já. Nós temos atletas dos 3 ao0s 70 anos, como já tinha frisado numa entrevista anterior”.

No total o Clube Académico de Bragança conta com 70 atletas na modalidade de ténis, sendo o ténis em cadeira de rodas a aposta mais recente.

Escrito por Brigantia
Jornalista: Susana Madureira

Miranda do Douro: Arqueólogos descobrem esqueletos da Guerra do Mirandum

 Uma equipa de arqueólogos acredita ter colocado a descoberto os primeiros esqueletos das vítimas resultantes da explosão do paiol do castelo de Miranda do Douro, que ocorreu há 258 anos durante a Guerra do Mirandum, indicou o município.
Esta descoberta, tida pelos arqueólogos como relevante para melhor se compreender a história da cidade de Miranda do Douro, no distrito de Bragança, decorreu após sondagens arqueológicas na antiga Rua do Castelo, um espaço que se encontra em obras de requalificação.

"No acompanhamento arqueológico da execução da obra, e com a abertura de uma vala para implantação de um muro, foram exumados vestígios osteológicos humanos, o que obrigou a uma paragem e a consequente realização de uma sondagem arqueológica de avaliação da área", disse à Lusa a arqueóloga municipal Mónica Salgado.

Segundo a responsável, foi possível aferir algumas valas onde foram depositados corpos humanos. O "número pode chegar às 70 pessoas enterradas naquela área".

"Os materiais arqueológicos exumados estabelecem uma cronologia moderna, séculos XVII e XVIII. A deposição dos enterramentos demonstra uma certa desordem, por assim dizer, do tipo vala comum", indicou a arqueóloga que acompanha o processo.

Mónica Salgado adiantou que numa vala foram exumados dois indivíduos de sexo masculino e duas crianças.

"Uma das crianças estava colocada de ventre para baixo e com um braço apoiado no crânio de um dos indivíduos, denunciando uma falta de cuidado e a rapidez com que se pretendia enterrar os mortos", concretizou.

Neste local, é realçada "a não existência de um espaço de culto", como uma capela ou um cemitério.

"Este espaço de enterramento trata-se somente de um espaço aberto e utilizado como área de cultivo, analisando incluso plantas modernas (séculos XVIII). Podemos aferir que se tratam de valas decorrentes do rebentamento do paiol a 08 de maio de 1762, há 258 anos", vincou a técnica.

Por seu lado, o arqueólogo José António Pereira, responsável pelas sondagens arqueológicas no terreno, refere que há o conhecimento histórico da Guerra do Mirandum, mas como pouco vestígios.

"Tenho o conhecimento histórico do evento, mas com poucos vestígios histórico, a não a destruição do castelo e não havia a notícia de enterramentos. Estas descobertas estão repletas de significado histórico", vincou.

Segundo uma investigação da arqueóloga Mónica Salgado e de outros historiadores, a Guerra do Mirandum decorre da participação de Portugal na Guerra dos Sete Anos, que opôs Portugal e Espanha.

"A disputa em Miranda do Douro ficou conhecida como a Guerra do Mirandum, na qual a 08 de maio de 1762, o exército do Marquês de Sárria invade a cidade, devido a um acidente ou outra ação, na qual o paiol do exército português explode, originando a morte de cerca de 400 pessoas", segundo a arqueóloga.

"Derrotados com este acontecimento, a cidade de Miranda do Douro rende-se facilitando a entrada do exército franco-espanhol", enfatizou.

Segundo o presidente da Câmara de Miranda do Douro, Artur Nunes, a vala foi selada e no futuro proceder-se-á a novas sondagens para melhor se compreender o valor deste espaço, "numa perspetiva antropológica".

Objetivo é criar um "espaço iconográfico de recuperação da memória coletiva", assim como um enquadramento paisagístico da muralha medieval/moderna do Castelo de Miranda do Douro.

A POLÍTICA DEVIA SER IRMÃ DA VERDADE

 Bem nos parecia que os protestos de renovada atenção às potencialidades do país em geral e do dito interior, em particular, não passavam de fingidos remorsos, lágrimas de crocodilo pronto a fechar as mandíbulas sobre a desgraça dos que não têm outro remédio senão chegar-se, trémulos e sedentos, à água da vida.

Depois da cimeira com o vizinho do lado, que resultou na intenção de realizar quatro ou cinco ligações curtas entre territórios das zonas raianas, veio o Primeiro-Ministro anunciar milhares de milhões para a alta velocidade entre Lisboa e o Porto, que implicará estrutura dedicada, provavelmente paralela à Linha do Norte.

Ficaremos assim, se Deus quiser, com cinco ligações terrestres entre as duas maiores cidades, nessa faixa litoral de todas as virtudes, três por auto-estrada e duas por via férrea. Acresce a ligação aérea e não se estranhará que o engenho político perspective um vaivém de catamarans de grande velocidade ao longo da costa, que também é preciso quebrar a monotonia.

Quanto às ligações ferroviárias a todas as capitais de distrito, a informação soprada a ouvidos solícitos nos corredores do poder, ficaram guardadas para nova festa de ilusões.

Entretanto, o Plano Nacional de Investimentos para a próxima década condena o distrito de Bragança ao consabido ramerrame, o que se traduzirá num distanciamento ainda mais gravoso relativamente à faixa litoral, até que já não haja ninguém para defender, com racionalidade, a mobilização de investimentos neste território.

Vejam-se as perdas generalizadas de população em todos os concelhos, os braços caídos dos representantes na capital e o imobilismo dos eleitos locais, que não dão sinais de procurar a união em nome dos interesses maiores destas gentes, abandonadas à sua má sorte.

Exemplarmente patético é o caso da ligação de Vinhais a Bragança e à A4 que aparece contemplada, com eventuais desenvolvimentos entre 2024 e 2030, quando fora prometida no início do século, reiterada e logo negada na legislatura anterior, o que indicia que há-de aparecer num qualquer plano para 2030/2040, situação para fazer rir as próprias fragas, que já viram passar todas as vaidades, caprichos, tibiezas e cobardias que possamos imaginar. Quanto a outra ligação, de Vimioso, anunciada no século passado e reprometida para 2019, nada consta.

Assim não vai ser possível estancar a sangria de pessoas, porque não haverá investimentos, os postos de trabalho serão cada vez menos e as novas gerações rapidamente perderão a memória que lhes poderia alimentar as raízes.

Vão-nos dizendo que a grande aposta é a rede 5 G de comunicações, que permitirá o trabalho à distância e a liberdade de viver onde nos apetecer. Uma bela treta, porque a nossa experiência com a cobertura das comunicações é penosamente risível e nas grandes cidades do litoral também haverá cobertura, provavelmente mais eficaz, o que permite juntar o útil ao agradável, que a vida autêntica não se reduz a conexões online. Afinal, a característica fundamental do sapiens é a sua propensão para a vida em sociedade, onde florescem as emoções, os sentimentos e a partilha de destinos que dão sentido à nossa existência.

Teófilo Vaz

Três Ovelhas Negras

 Bragança é a que maior investimento requer. O canal da Linha do Tua permanece lá – alvo de uma tentativa, felizmente frustrada, de transformação numa ecopista de 80 km até Mirandela.

O Governo elaborou um Plano Ferroviário na proposta de Orçamento de Estado para 2021, com um objectivo ambicioso: ligar todas as capitais de distrito. Um objectivo não só lúcido, como exequível, e justo. Três capitais de distrito não têm serviço ferroviário: Viseu – perdeu as Linhas do Vouga e do Dão em 1990; Bragança – perdeu a do Tua em 1991/92; e Vila Real – perdeu a do Corgo em 2009.

De Viseu à Linha da Beira Alta em Mangualde vão uns meros 10 km. Se é discutível reabrir a Linha do Dão ou a do Vouga, já se torna mais difícil compreender porque uma concordância em Mangualde para servir Viseu ainda não foi construída. Veja-se o caso do serviço ferroviário de Saragoça a Canfranc, que liga Huesca através de uma concordância de 6 km.

Já Vila Real, elaborei um estudo de reabertura, disponível no YouTube, ao qual nem a autarquia nem a CIM Douro se têm mostrado interessados, que aponta um custo de reabertura de 11 milhões de euros; apenas 1,6 milhões a serem suportados pelo Estado. A autarquia vai investir um milhão na enésima ponte pedonal da cidade, portanto é um investimento que até uma câmara municipal conseguiria suportar. São 25 km até à Régua e suas interfaces ferroviária e fluvial, num tempo de viagem igual ao da rodovia, só que mais próximo, barato, e sustentável.

Bragança é a que maior investimento requer. O canal da Linha do Tua permanece lá – alvo de uma tentativa, felizmente frustrada, de transformação numa ecopista de 80 km até Mirandela.

Mas este não é o trajecto dos fraguedos do Baixo Tua: a correcção do traçado é aqui fácil de efectuar, e até a reconexão com a Linha do Douro na foz do Tua é possível através de um novo canal de 16 km a partir de São Lourenço, e uma descida ou em zigue-zague – como a ferrovia peruana do Nariz del Diablo – ou em sucessivos cotovelos – como a ligação italo-helvética de Tirano a Saint Moritz – até à estação do Tua.

Tem ainda a proximidade da linha de Alta Velocidade Madrid – Corunha, com o seu aeródromo de permeio. Uma nova via por Montesinho e entrando no canal da linha convencional em Pedralba de la Pradería até à Sanábria poria um passageiro – e mercadorias – em Bragança em meia hora – em Madrid em menos de duas horas, o mesmo tempo de viagem até ao Porto. A intenção avançada pelo Primeiro-Ministro de construir uma ligação rodoviária de Bragança à fronteira não chega: não se sabe quando essa estrada avançará, nem está garantida a sua extensão do lado espanhol – e lembrando o atraso de décadas do prolongamento do IP4/A4 até à Autovia de la Plata, não auspicia muito de bom.

Que fique bem claro: as verbas existem, e tanto a coesão territorial como a mobilidade sustentável defendem de forma categórica a reconexão histórica destas cidades à rede ferroviária nacional. Resta que as autoridades políticas locais tenham lucidez e coragem para o reivindicar, sem pequenez ou megalomanias, e que o Poder Central aja de forma coordenada e decisiva. Enquanto cidadão trasmontano, não espero menos que isso.

Daniel Conde

Apanhadores de cogumelos silvestres com “prejuízos”

 O presidente da Associação Micológica "A Pantorra" alertou hoje que a pandemia de covid-19 está a causar "prejuízos" aos apanhadores de cogumelos silvestres, que fazem desta atividade um complemento à silvicultura.
"Com as restituições atualmente existentes em Espanha, principalmente nas zonas de Madrid e Barcelona, os cogumelos silvestres deixaram de ter tanta procura nos restaurantes, porque reduziram a sua atividade devido à pandemia, havendo perda de rendimento paras os proprietários de floresta e soutos portugueses", explicou à Lusa Manuel Moredo.

Segundo o dirigente desta associação com sede em Mogadouro, no distrito de Bragança, pode chegar aos sete euros um quilo de boletos (cogumelos silvestres comestíveis), levados frescos e "diretamente" para o país vizinho.

"Há muitos produtores [de cogumelos silvestres] que são proprietários de vários hectares de soutos e pinhais, locais onde abundam estes fungos nesta altura do ano e que não conseguem escoar os seus cogumelos devidos às restrições impostas pela covid-19”, acrescentou.

O mesmo acontece com “outras pessoas que procuram os cogumelos no seio da economia familiar, e a quem atividade pode render algumas centenas de euros", vincou o também micológico.

Este especialista prevê um ano "proveitoso" para a apanha de diversas espécies de cogumelos silvestres, porque as chuvas das últimas semanas, associadas a dias de sol, têm feito aparecer em quantidade e qualidade os primeiros exemplares por todo o Nordeste Transmontano.

Apesar de o ano ser propício para a apanha de cogumelos silvestres, a Associação Micológica "A Pontorra" cancelou o XXII encontro micológico agendado para a primeira semana de novembro, em consequência das restrições impostas pela Direção Geral da Saúde (DGS).

"Este encontro junta mais de uma centena de pessoas de várias idades, vindas um pouco de todo o país, e esse foi um fator que pesou na decisão de cancelar o encontro", vincou Manuel Moredo.

O dirigente lembrou que as Associações Micológicas transmontanas reclamam há cerca de 15 anos legislação que regulamente a apanha de cogumelos silvestres, tendo mesmo sido apresentada ao Governo uma proposta de lei que acabe com a apanha "indiscriminada" deste tipo de fungos.

"Esta é uma forma de regulamentar o setor micológico e acabar com uma certa anarquia existente nesta atividade ", disse.

"A Pantorra" já identificou mais de 400 espécies de cogumelos no Nordeste Transmontano nos últimos 22 anos, mas os seus especialistas estão convencidos que há muitas mais por identificar, um trabalho que os micólogos continuam a fazer tanto no Nordeste Transmontano como na província espanhola de Castela e Leão, territórios com características semelhantes.

FYP // ACG Lusa

IR COM OS TEMPOS

 Há quem continue a recusar a nova ortografia, que já tem trinta anos. Não é de agora este tipo de birra, muito boa gente, inclusive o grande Fernando Pessoa, tinha feito o mesmo com a de mil novecentos e onze, a anterior. 
Por um lado, a nossa relação com a língua é de posse, portanto de afeto, o que fica claro pelo simples facto de lhe chamarmos materna. Daí opormo-nos a que toquem nela, ainda por cima sem nos dizerem água-vai. É como quando alguém nos invade uma propriedade, muda de sítio, usa, estraga objetos pessoais. Depois, também somos conservadores no sentido em que as novidades costumam deixar-nos inseguros. Instalados dentro das nossas zonas de conforto, como agora se diz, elas são incómodos que podem pôr-nos à defesa. Para outros, resistir prende-se ainda com vontade de afirmação, rebeldia, transgressão próprias de quem não gosta que lhe deem ordens. 
É mais disto que se trata, e não de racionalidade ou de um saber fundamentado. Como em tudo, nas línguas há factos de que as pessoas comuns não se apercebem. 
Para começar, existe a ilusão de que elas são lógicas. E de facto, em parte são. “Eu tenho sede” é uma frase que pode ser traduzida para qualquer outra língua por pertencer à parte lógica. Mas também estão cheias de anomalias, irregularidades, daquilo que sempre se disse ou escreveu sem que haja justificação racional para isso. É o que acontece com as expressões fixas e idiomáticas, os usos figurados, os provérbios, os aforismos, etc. são de tradução difícil, ou mesmo impossível. Como se pode traduzir “dar à sola” ou “arrear o calhau” sem que se perca quase tudo? Não pode. 
É por acreditar na coincidência entre língua e lógica que há quem faça questão de pedir “um copo com água”, não vá o interlocutor achar que lhe estão a pedir um copo fabricado com esse líquido se disser “um copo de água”. Ou declarar que vai “desfazer a barba” para que não se julgue que vai plantar pelos na cara se afirmar que a vai fazer. Mas não há que rir, todos nós usamos a toda a hora inúmeras incoerências destas: falamos de algo que correu os “quatro cantos do mundo” mesmo sabendo que o mundo não os tem, ou adiamos um serviço para “de hoje a oito dias”, quando nesse período nunca contaremos mais que sete. Do mesmo modo, não há muito a noção de que a língua propriamente dita são os sons que deitamos pela boca e que a escrita é apenas uma representação deles. Como os sons vão mudando com o tempo, a escrita deve procurar acompanhá-los, mesmo de forma imperfeita. Quem resiste às mudanças vê na ortografia algo fixo que deseja conservar assim, mas basta ler um texto do século dezasseis para ver a enorme evolução da escrita desde então: para além de letras diferentes das de hoje, tanto maiúsculas como minúsculas, não havia acentos gráficos, as abreviaturas eram estranhas e mais que muitas, hesitava-se entre juntar as palavras umas às outras (como quando falamos) ou separá-las, a pontuação quase não existia, a ligação das frases tinha muito pouco a ver com o que agora fazemos, uma palavra podia ser escrita de três maneiras diferentes na mesma página…
Um conhecido humorista dizia que retirar o “c” de arquitectas resulta numa palavra feia porque o “c” serve para abrir a vogal anterior. Mas nós abrimos e fechamos vogais mesmo que nada lá nos diga para o fazer, como em “gelo” e “pedra”, “novo” e “novos”. Geralmente um som representa-se por uma certa letra, mas poderia sê-lo por outra qualquer. Ou por duas, como em aqui, acho, assim. Ou nenhuma, pois costumamos pronunciar sons que não escrevemos, como acontece com “saiem”, “muinto”, “treuze”. Representamos o mesmo som por letras diferentes: as sublinhadas em “gato” e “mau”, por um lado, e em bem e pães, por outro, têm os mesmos sons. Até escrevemos letras de sons que não existem, como em escada, hoje, vale. Os teimosos só não sabem que todas estas estranhezas lhes são impostas. Se o soubessem, iam resistir. 
Estranho é aquilo a que não estamos afeitos, o que se pode aplicar a quase tudo. Por acaso a mim ainda não me entrou bem que a terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo “parar” tenha passado a escrever-se “para”, por causa da confusão com a preposição “para”. Mas é uma questão de tempo. 
Por ora, depois de anos a praticar bastante (até por ser obrigado a isso), já consegui que me faça diferença ver escrito “actividade” ou “recepção”.

Eduardo Pires

Nós Transmontanos, Sefarditas e Marranos - OS LEDESMA - FAMÍLIA E MOBILIDADE: GASPAR CARDOSO MONTEIRO

Voltemos ao patriarca António Ledesma e à sua segunda mulher, Maria Ferreira de Carvalho. É que, para além dos filhos que em Bragança viveram e usaram o sobrenome Ledesma, de que falamos, tiveram um outro filho que deu origem ao ramo familiar dos Monteiro Cardoso que viveram no Porto e se passaram a Lisboa, de onde fugiram para Londres. Vamos ver.
João António Monteiro se chamou aquele filho de António Ledesma e Maria Ferreira Carvalho. Nascido no Porto, ali se criou, tornando-se um homem de negócio. Casou com Brites Ana, nascida no Porto, no seio de uma importante família originária de Torre de Moncorvo, que vamos apresentar. Gaspar Rodrigues e Ana Rodrigues, terão casado em Torre de Moncorvo, pelos anos de 1640. Tiveram uma filha que batizaram com o nome de Isabel Cardoso e que casou com Francisco Lopes, de Chacim.
Na sequência de uma vaga de prisões da inquisição que assolou Moncorvo, o casal internou-se por Castela. Regressaram a Portugal, fixando residência em Freixo de Numão de onde passaram ao Porto, terra onde nasceu Brites Ana. Leonor Pereira foi outra filha de Gaspar e Ana Rodrigues, a qual foi casar em Almendra, terra de Ribacôa, com António Rodrigues Cardoso. Um filho deste casal chamou-se Luís Cardoso Pereira, (1) que, por 1685, casou com uma irmã de Brites Ana, chamada Isabel Cardoso, como a sua mãe, nascida em Málaga, por 1665. Josefa Micaela, uma filha de Luís Pereira e Isabel Cardoso, casaria com um filho de João Monteiro e Brites Ana, chamado Gaspar Cardoso Monteiro, que vamos acompanhar. Nascido na Invicta cidade, por 1695, Gaspar tornou-se mercador de feiras, ou mercador ambulante, comprando e vendendo o que lhe aparecia e que pudesse dar lucro, coisas tão diversas como: resmas de papel (fino e de embrulhar), fitas de cadarço, pentes de tabanica, tesouras com suas bainhas, meadas de retrós… Mas não hesitava em receber de uma freira um anel em penhora de 970 réis ou comprar uma carga de tecidos para vender em tenda sua, montada em qualquer feira. Sim, também se apresentava como profissional tendeiro e como homem que vivia de sua agência, ou de seu expediente. Repare-se que, na própria ordem de prisão, os inquisidores escreveram: - Gaspar, casado, que vendia algum dia fitas em caixas pelos conventos das freiras na cidade do Porto. (2) Era solteiro ainda, quando os pais se mudaram do Porto para Lisboa e o levaram a ele e aos irmãos.
Mudança semelhante aconteceu com a família de Luís Cardoso Pereira e Isabel Cardoso, os sogros de Gaspar. De modo que o casamento deste com Josefa Micaela se realizou já em Lisboa. Para o casamento, Josefa levaria um dote de 150 mil réis que ficou de pagar um Fulano Miranda, médico, morador na Baía, que os devia ao pai da noiva, que no mesmo investiu, pagando-lhe o embarque e, possivelmente, mercadorias que levou para negociar no Brasil. Veja-se, a propósito como ele foi referenciado por Manuel Lopes, um judeu nascido em Torre de Moncorvo e circuncidado em Livorno, que o conheceu em Lisboa, por 1700: - Sinais de Luís Lopes Cardoso: alto, não muito gordo, seco, de cara larga e moreno, barba não muito farta, com brancas, olhos negros, cabelo negro com brancas, crespo e comprido, de 65 anos. E ouviu dizer que havia sido tratante muito rico e então estava pobre, que havia perdido tudo numa embarcação. (3) 
Falando do sogro e explicando a questão do dote, Gaspar disse que aquele “foi homem de grande negócio na cidade do Porto, onde quebrou e veio para esta de Lisboa”, no outono de 1698. E foi certamente já em Lisboa que nasceu Josefa Micaela, filha de Luís e Isabel, mulher de Gaspar Cardoso Pereira. Situemo-nos agora em Lisboa, ao findar do mês de Julho de 1725, quando a inquisição de Lisboa prendeu Gaspar Cardoso Monteiro, “por encobrir hereges”. Na verdade, os hereges em referência seriam os seus irmãos, (4) Rafael Cardoso (5) e Gabriel Lopes, e respetivas consortes, Micaela dos Anjos e Grácia Caetana, bem como a sua mulher Josefa Micaela e familiares desta, que todos tinham fugido para a Inglaterra, levando os filhos pequeninos. 
Metido no cárcere, logo na primeira sessão, Gaspar começou a contar que aos 15/16 anos, fora doutrinado na lei mosaica, por uma Leonor Soares que vivia no Porto, a S. João Novo e que a partir daí vivera como judeu, fazendo as cerimónias possíveis. Repetiu duas orações que Leonor Soares lhe ensinara e que são as seguintes: I - Desde onde nasce o sol Até onde se vai Bendito e louvado seja O nome do Senhor. II - Da boca de todo o nado Seja o Senhor bendito e louvado Da boca de todo o vivo Seja o Senhor engrandecido. (6) De suas confissões, transcrevemos apenas um extrato que nos refere a celebração do Kipur de 1716, em ajuntamento familiar: - Haverá 9 anos, em Lisboa, em casa de João António Monteiro, seu pai, viúvo de sua mãe, Brites Ana, natural do Porto e morador em Lisboa, onde faleceu, se achou com ele e com Micaela dos Anjos, casada com Rafael Cardoso, seu irmão dele confitente, natural do lugar de Mouta Velha, de onde se ausentou, não sabe para que terra; e com António Monteiro, irmão inteiro da dita Micaela dos Anjos, médico, que também se ausentou; e com seu irmão Gabriel Lopes; e com Brites, solteira, irmã inteira de Micaela dos Anjos; e com Josefa Micaela, mulher dele confitente, moradora em Lisboa, de onde, com a dita Brites, se ausentou deste reino (…) e estando todos 7, juntos fizeram o Kipur. (7) Como já se disse, logo que se viu preso, Gaspar começou a confessar suas culpas. Isso não impediu que fosse submetido a tormento, no decorrer do qual “gritou que Nossa Senhora lhe acudisse”. Saiu penitenciado em cárcere e hábito, no auto-da-fé celebrado na igreja de S. Domingos em 13.10.1726. Saído da inquisição, “granjeando a sua vida em vender algum papel por conventos”, com a mulher, o filho e quase todos os parentes estabelecidos em Inglaterra, naturalmente que Gaspar Cardoso apenas buscaria uma oportunidade para fugir também para aquele reino. 
Encontrou-a em uma terça-feira de Maio de 1727, quando um castelhano, morador em Lisboa, chamado João Alonso, contactado por judeus portugueses estabelecidos em Londres para fazer embarcar familiares seus, de Portugal para Inglaterra, a partir de Lisboa, o meteu num barco, no porto de Santarém, com destino a um navio inglês que esperava no mar, fora da barra do Tejo. Entre os fugitivos, seguia a mulher e uma filha de Francisco de Campos, originárias de Vila Nova de Fozcôa. Vejam o relato feito pela filha, Violante Campos: - Passado algum tempo, he deu o dito castelhano parte de que se preparassem porque tinham navio pronto para Inglaterra; e lhe entregaram o seu fato, que o dito João Alonso fez embarcar no dito navio e na terça-feira seguinte se meteram em um barco, para dele se passarem ao dito navio; porém, por estar o mar muito bravo, o não puderam abordar, sem embargo de que foram até fora da barra no dito barco e nele voltaram para a dita cidade no dia seguinte e o dito navio se foi, levando-lhe o dito fato. E declara que no dito barco iam também para embarcarem no dito navio várias pessoas (…) outro chamado Gaspar e outro cujo nome não se lembra, Brites Lopes… (8) O Gaspar referido por Violante era o nosso homem que, preso em 5 de Junho seguinte na inquisição de Lisboa, por “tentar fugir para Inglaterra”, inventou uma desculpa bem esfarrapada. Vejamos: - Disse que quando embarcou, se persuadiu que as ditas pessoas iam fazer alguma galhofa ou romaria; e neste conceito esteve até que, com as mesmas, chegou a Porto Brandão aonde, perguntando ao dito João Alonso que galhofa era aquela e para onde iam, o mesmo lhe disse que aquelas pessoas iam para uns parentes, sem lhe declarar para que parte; o que ouvindo ele declarante, se queixou (…) e desejou achar barco para voltar logo para esta cidade… (9) Claro que os inquisidores não acreditaram, observando-lhe que certamente iria para junto da mulher e do filho. Aí ele respondeu que não, que “à dita sua mulher lhe faltara fé no matrimónio e por a dita culpa e mau procedimento fora para o dito reino, fugindo dele declarante (…) e de nenhuma sorte havia de ir para a sua companhia”.

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães

Produtores de castanha queixam-se dos estragos provocados por javalis e falta de apoio

 Os produtores de castanha dizem que os estragos causados por javalis este ano foram os piores dos últimos tempos.
Em Vila Boa de Carçãozinho, concelho de Bragança, os produtores têm sofrido com os prejuízos causados por estes animais. Ana Pereira afirma que, nesta campanha, os estragos são piores. A agricultora queixou-se das castanhas comidas pelos animais e ainda dos estragos que provocam nos seus lameiros.

“No princípio da campanha não apanhamos nenhuma. Temos castanheiros que começam a dar em Setembro e quase que não se aproveitou nada, foi tudo para eles. E nos lameiros, andam de volta das vacas e não tinham medo de nadinha”.

Também Virgílio Martins, de Vila Boa de Carçãozinho, se queixa do mesmo. Não só das castanhas que são comidas, mas também das plantações de castanheiros novos que também estão a ser destruídas por javalis.


“Este ano foi dos piores que eu já vi. Estes castanheiros que se plantaram há dois ou três anos, eles partem-nos redondinhos, quem vir aquilo pensa que alguém os partiu, mas são os javalis com os dentes. Tinha 60 plantados e posso dizer que não ficou lá nada”.  

Augusto Pires é também produtor de castanhas e presidente da junta de Gondesende. Também tem sentido os estragos do javali e ouvido as queixas de outros agricultores. Na sua opinião, os javalis deveriam poder ser caçados “livremente” durante o tempo de caça.

“Eu acho que durante o tempo da caça deveriam deixar matá-los livremente, porque este ano nem vão deixar fazer as montarias e, se calhar, vai-se agravar a situação. Nós metemos umas credencias, por causa dos prejuízos, para os deixarem matar, mas também é complicado, porque é só na lua cheia”.

Os produtores apontaram ainda que há falta de apoios por parte da tutela. Alguns deixaram de reportar os estragos ao Instituto da Conservação da Natureza e Floresta, porque dizem que raramente são indemnizados. Até agora não foi possível chegar à fala com a directora regional do ICNF, apesar das várias tentativas.

Escrito por Brigantia
Foto:Octávio Reis
Vídeo:Octávio Reis
Jornalista: Ângela Pais

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Militares da GNR resgataram de um poço idoso dado como desaparecido

 A GNR localizou um idoso de 69 anos, na passada sexta-feira, 23, que se encontrava desparecido na localidade de Aguieiras, no concelho de Mirandela.
O alerta do desaparecimento foi dado por volta das 20h00, e de imediato foi desencadeada uma operação de busca para encontrar o homem que sofre de diabetes e problemas do foro psicológico. 

"Pelas 21h30, um militar do Posto Territorial de Mirandela juntamente com um popular, encontraram o idoso com vida no interior de um poço, tendo os militares presentes no local improvisado uma escada com recurso a uma estrutura metálica que estava num terreno adjacente ao poço, resgatando o idoso, que foi posteriormente assistido pelos Bombeiros Voluntários de Torre Dona Chama e pelo INEM", explica fonte do comando da GNR em Bragança, indicando ainda que o facto do idoso ter sido localizado e resgatado nas primeiras horas após ter sido dado conhecimento do seu desaparecimento "foi determinante para que o mesmo pudesse ser encontrado com vida".

Nas buscas estiveram presentes militares dos Postos Territoriais de Mirandela e Rebordelo.

Glória Lopes

Plano Nacional de Investimentos 2030: presidente da CIM-TTM fala de “documento muito genérico”

 O PNI 2030, apresentado na semana passada pelo governo, contempla alguns dos projectos há muito reclamados para a região, como a estrada entre Bragança e Vinhais, a ligação do IP2 a Espanha e a continuação do IC5, mas a Comunidade Intermunicipal Terras de Trás-os-Montes reclama investimento na ferrovia, regadio e no aeródromo de Bragança.
Na apreciação do PNI e do investimento previsto para a região, o presidente da CIM Artur Nunes diz que “o documento é muito genérico” e destaca algumas das omissões, nomeadamente no plano da rede ferroviária. “Na rede ferroviária, uma aposta do Governo, a CIM está de fora deste plano e eu acho que era importante porque nós reclamamos uma ligação, e uma proposta até anunciada, da ligação a todas as capitais de distrito.

Temos também vindo a reivindicar o reforço do aeródromo e a passagem a aeroporto. Penso que isto devia ser incluído no PNI 2030”.

No âmbito do regadio surgem igualmente queixas, até porque alguns concelhos não estão contemplados. “Uma das propostas que estamos a fazer, que não está muito clara no plano apresentado, é relativa ao plano de regadio. Há três concelhos, Miranda, Mogadouro e Vimioso, que aparecerem quase em branco nessa proposta. Penso que seria importante também termos uma palavra a dizer. Teremos, brevemente, uma reunião com a ministra da Agricultura para reivindicar a necessidade e apoio de um plano de regadio integrado para toda a terra de Trás-os-Montes”, disse Artur Nunes.

Na área da energia Artur Nunes diz que gostava de ver maior definição e algumas propostas concretas sobre o gás natural e a venda das barragens do Douro.

Em falta está ainda a nova via entre Vimioso e Carção, para melhora a ligação do concelho à A4 e à capital de distrito. O governo já terá dado indicação de que está contemplada no orçamento do próximo ano das Infraestruturas de Portugal, mas não existe a certeza.

Entre os investimentos elencados encontra-se a conclusão do IP2, de Bragança até à fronteira, e a ligação do IC5 até Espanha, bem como a variante da Estrada Nacional 103 entre Vinhais e Bragança.

O presidente da câmara de Vinhais, Luís Fernandes, reforça que se trata de “uma questão de justiça” e depois de várias promessas espera que seja desta vez que avance. “É uma questão de justiça e espero que rapidamente seja feita. Temos vindo a reclamá-la com insistência já que tem sido prometida sucessivamente. Esperamos que agora, dentro deste plano, que a obra seja realmente feita”.

Outra das obras que a região quer ver concretizada é a reactivação do troço do Pocinho a Barca D’Alva, fazendo a continuação da linha do Douro até Espanha, investimento também previsto neste documento, tal como a modernização e electrificação do troço entre a Régua e o Pocinho, projectos fundamentais para a CIM Douro, como frisa o vice-presidente desta comunidade intermunicipal, Nuno Gonçalves. “Temos algumas situações que sempre tentámos que fossem previstas para o território. A CIM Douro tem duas fundamentais no território: a linha do Douro e a Via Navegável do Douro. A linha do Douro não entrou na cimeira ibérica mas não prescindimos dela porque é uma forma de desencravar o interior”.

Já a Via Navegável do Douro poderá representar mesmo um dos maiores investimentos na região Norte, estando previsto um montante de 102 milhões de euros para melhorar as condições de navegabilidade, segurança e desempenho operacional.

Escrito por Brigantia
Jornalista: Olga Telo Cordeiro

A Democracia e a sua disfuncionalidade

 A democracia aos olhos de quem a aprecia, surge hoje em dia como algo que vem de longe, como algo adquirido e como algo imutável. Mas não é de todo assim, mais não seja, porque ela não passa de uma palavra que se ouve, mas nem sempre se sente e se concretiza.
Acima e antes de tudo a democracia é uma prática individual que se espalha para assumir um contorno universal. Nunca foi, não é e jamais será cabal e global porque é em si mesma disfuncional. Aquilo que a torna a melhor forma de organização política, é ao mesmo tempo a sua única, mas mortal debilidade.
Tendemos a pensar que o voto é a sua essência, mas não o é. A base da democracia está no conhecimento que se nos vai colando no fio do tempo que individualmente percorremos. A cidadania é o que resulta dessa escultura e a democracia, é a consequência dessa moldura em movimento.
No mundo ocidental, muitos anos antes do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo em ano que se tornou baliza do nosso calendário, os gregos deram por si a dar-lhe conteúdo e forma ainda que à maneira daquele tempo e em circunstâncias que agora nos parecem muito incompletas. Era esplendorosamente imperfeita, pois eram todos iguais, mas alguns eram mais iguais que outros, mas foi um passo de gigante.
Mas aí é que está a beleza da coisa que não é bela só por si mesma. A democracia é uma construção possível, no contexto próprio de cada época, mas sem ser à medida de cada qual para poder ser à medida aconselhavelmente de todos. Por isso é que é bonita e sem par. Não tem outro regime com quem possa dançar o tango por falta de companhia adequada e à sua igualha.
Nem ainda há um século, não podiam votar todos as pessoas. O voto não era universal devido a razões de análise. Só votavam os mais ricos e por suposição os mais ilustrados, não votavam as mulheres porque por cegueira comum eram tidas como filhas de um deus menor. Depois, a sociedade evoluiu-se e surgiu a possibilidade de escolha enquanto direito universal.
Um homem, um voto. Rico, pobre, sabedor tipo mocho ou ignorante tipo burro, com a devida vénia, todos passamos a ser iguais em direitos e em deveres, apesar de haver quem ache que tem o rei na barriga e de haver quem julgue que sabe tudo, sinal inequívoco de que anda muito mal informado.
Resulta em boa parte disto a sublime disfuncionalidade da Democracia, pois permite que todos acertemos e que todos erremos. A minoria submete-se à vontade da maioria, tendo em vista o melhor para todos. Obviamente que por vezes na prática a teoria revela ser algo diferente, mas apesar de tudo, ainda se não inventou remédio melhor.
Parecia firme e erguida a flore da democracia. Dantes, até ao final do século passado, só a poder de golpes militares ela era cerceada. Podia não evoluir, mas resistia e mantinha-se. Tinha inimigos furiosos por doutrina ou por egoístas interesses, mas afirmava-se, era desejada e era cuidada.
No entanto e infelizmente, nesta nossa modernidade, sofre de moléstia ao ponto se poder virar uma miragem. Por causa dos medos que semeiam, das mentiras que espalham, sinistras organizações e doidos personagens, fazem da universalidade do voto uma disfuncionalidade.
Os idiotas arrogantemente surdos, os iluminados que sabem o que mais ninguém sabe, os egoístas impantes, os surdos às vozes do bom senso, os maldosos e outros mais, porque são cada vez mais numerosos, condicionam e escolhem o caminho.
O mundo vai louco ou está tudo grosso. Por isso a nau vai alegremente aos zig zags sem saber do porto seguro pois nenhum vento lhe é favorável. A erosão do processo democrático está a destruir-nos a bússola e o magnetismo que nos cola o saber e o bem-quer à democracia.
Mas vai passar. A inteligência nunca será vencida.
Manuel Igreja

Vespa das galhas do castanheiro: 460 largadas feitas este ano na região para combater a praga

 Números avançados nas XVIII Jornadas Técnicas do Castanheiro, no âmbito da Rural Castanea, um dos maiores e mais importantes certames do concelho de Vinhais.
No âmbito da luta biológica contra a vespa das galhas do castanheiro, este ano, em Vinhais já foram realizadas mais de 190 largadas do parasitoide que combate a praga. Já no primeiro ano de combate, em 2015, tinham sido realizadas apenas 40. Apesar de tudo, este ano, foi no concelho de Bragança que mais largadas houve: foram 200, sendo que em 2015 tinham sido pouco mais de meia dúzia. Já por Macedo de Cavaleiros, este ano, contaram-se pouco mais de 50, sendo que ali a praga foi apenas detectada apenas no ano passado. Os números foram avançados por Albino Bento, investigador do Instituto Politécnico de Bragança, na XVIII edição das Jornadas Técnicas do Castanheiro, inseridas na feira da castanha de Vinhais. “Em 2015 começámos com 35 largadas e, nesta altura, iremos agora com 3150. No âmbito da Comunidade Intermunicipal Terras de Trás-os-Montes, nos concelhos de Vinhais, Bragança e Macedo de Cavaleiros, as largadas representam cerca de 25% a nível nacional quando temos cerca de metade da área de castanheiro, no que diz respeito a todo o país”.

Por causa da pandemia, as jornadas, este ano, fizeram-se através da internet. Na iniciativa também participou a directora Regional de Agricultura e Pescas do Norte. Carla Alves explicou que lhe têm sido reportados alguns problemas, nomeadamente a falta de mão-de-obra. Assim, a directora considera que é preciso repensar os soutos para que a apanha comece a ser cada vez mais mecanizada. “Os principais operados da região têm-nos dito que há algumas perdas pontuais de produção, não em grande expressão, mas ainda estamos muito no inicio para fazer esse balanço. Depois há alguma preocupação em relação à mão-de-obra. Sabemos que no próximo fim-de-semana estaremos mais confinados, por isso, a disponibilidade das pessoas é menor. Notasse que há alterações e espero que não tragam repercussões muito fortes. De qualquer maneira, é tempo de repensarmos os soutos para que a apanha mecânica seja cada vez mais uma realidade”.

Carla Alves referiu ainda que o ministério da agricultura abriu concursos, para associações e câmaras municipais, para prestar apoio no combate às pragas e doenças que afectam os castanheiros. No âmbito da Comunidade Intermunical Terras de Trás-os-Montes foram feitas cinco candidaturas. “Estas cinco candidaturas estão em fase de análise e perfazem um total de 3,9 milhões de investimento. O Ministério da Agricultura tem possibilidade financeira para as aprovar. Estamos numa fase já final de análise”.

As Jornadas Técnicas do Castanheiro decorreram na sexta-feira e integram-se, anualmente, na Rural Castanea, um dos maiores certames do concelho de Vinhais. A feira dedicada à castanha decorreu durante os últimos três dias mas, este ano, contou apenas com iniciativas online, um fim-de-semana gastronómico, com alguns restaurantes aderentes, e, simbolicamente, com o assar de castanhas em plena vila, para as pessoas degustarem o fruto.

Escrito por Brigantia
Jornalista: Carina Alves

Bragança: o Solar Bragançano e a afamada sopa de castanhas

 Tudo o que chega às mesas do Solar Bragançano vem de tradição familiar. Desidério Rodrigues abriu este restaurante onde se come a afamada sopa de castanhas em 1986, com Ana Maria Batista, sua mulher.

Sopa de castanhas do Solar Bragançano. (Rui Manuel Ferreira/Global Imagens)

Desidério mantém na memória os sabores da casa de lavoura onde cresceu, em Varge, uma aldeia a poucos quilómetros de Bragança. Na altura, “não havia em abundância técnicas de conservação”, lembra. Cada época tinha a sua especificidade. “No inverno, eram os nabos, as nabiças, as couves e a caça. Na primavera, começava a preparar-se a horta para as plantações que se colhiam no verão e comia-se o que se tinha conservado”, conta, “mais frutas e aquilo que a casa dava: cordeiros, cabritos, patos, galinhas. No princípio do verão já havia muita vida na terra, colhiam-se alfaces, cenouras…”.

As castanhas só começam a aparecer por esta altura. “Aqui, como é montanha, os ouriços abrem mais tarde. Lá em casa, havia sempre um pote ao lume a cozer. Mas sopa de castanhas, fazia-se só de vez em quando, não era muito rotineiro”.

Já no restaurante, as castanhas que sobravam da alimentação dos porcos, mortos nos inícios de janeiro, ficavam para lá esquecidas e eram guardadas “até se aguentarem”. E ficavam piladas (secas). “Começámos a fazer sopa dessa maneira pois as castanhas já não serviam para nada. E assim nasceu há mais de 30 anos esta sopa que leva ao restaurante transmontano comensais de vários pontos do globo. Espanhóis, ingleses, franceses não passam pelo restaurante sem comer a afamada sopa.

Agora, há sopa na ementa o ano todo, “desde que surgiu aqui a empresa Sortegel”, que se dedica principalmente à congelação da castanha da região. E rapidamente “começou a ser muito famosa, a aparecer na televisão. Deu a volta ao mundo”, conta Desidério.

O resto da ementa mantém-se tradicional. “O que está na carta agora é praticamente igual ao que tínhamos no início”, conta Desidério. Aqui, onde não há chef de cozinha, utiliza-se o máximo de produtos locais, que em utensílios como potes de ferro vão cozinhando lentamente à volta do lume, em estufados e cozidos, sendo a brasa reservada para os nacos de carne e os enchidos, que também ali não faltam. O arroz de lebre, a perdiz com puré de marmelo e maçã são algumas das outras sugestões que enchem as mesas e confortam no frio transmontano.

Leituras à lareira

O restaurante tem um ambiente charmoso, com várias lareiras, e revistas e livros que Ana Maria, que foi professora, gosta de guardar e partilhar – muitos deles autografados, memórias de escritores famosos que por lá passaram, como o nobel irlandês Seamus Heaney.

LEGENDA:

Sopa de castanhas

A cremosa sopa de castanhas do Solar Bragançano é feita com a castanha da região transmontana, mas leva muito mais do que isso. Desidério não desvenda os segredos, mas diz que para a panela entram também muitos produtos da horta.

Solar Bragançano
Praça da Sé, 34, Bragança
Tel.: 273323875
Web: facebook.com/solarbragancano
Das 12h às 15h e das 19h às 22h. Encerra à segunda.

Luísa Marinho