quarta-feira, 23 de maio de 2012

“A escola do Vieiro vai ter a minha arte”


A pintora Graça Morais é uma das protagonistas da exposição “Nós na arte”, uma mostra de tapeçaria de Portalegre, que retrata as obras da pintora transmontana. 


Em entrevista ao Jornal NORDESTE, a artista fala das recordações dos tempos de criança passadas na escola do Vieiro, no concelho de Vila For, transformada, agora, num projecto idealizado pela pintora, que vai dar apoio aos idosos. Quanto ao Centro de Arte previsto para Vila Flor em homenagem à artista da terra, Graça Morais compreende a paragem do projecto num cenário de crise, mas acredita que este espaço ainda vai ser construído. 


Jornal Nordeste (JN) – Nesta mostra os seus trabalhos aparecem em tapeçaria. Para si em que é que esta exposição é diferente?
Graça Morais (GM) – Aquilo que tem em comum é serem originais meus, pinturas e desenhos. Mas depois a grande novidade é ver a sua transformação através da manufactura, nomeadamente as tapeçarias de Portalegre, que são uma das nossas riquezas. É incrível como é que as tecedeiras conseguem passar de um cartão para este trabalho de tapeçaria. E fazem um trabalho de uma beleza tão grande e com uma qualidade enorme. É extraordinário.


JN – Como é que vê a combinação de todas estas tapeçarias na sala dedicada aos seus trabalhos no Centro de Arte Contemporânea com o seu nome?
GM – Fiquei surpreendida. Nunca tinha visto estas tapeçarias num espaço tão luminoso e tão bonito. Duas delas estão na minha casa, também gosto muito de as ver, mas aqui elas crescem. Aqui cria-se um diálogo muito grande entre os meus cartões, a tapeçaria e como as pessoas podem ver a ampliação para um papel quadriculado cheio de números, que é um trabalho muito importante feito pela desenhadora da tapeçaria de Portalegre.
Depois aqui também podemos ver o tear, que é uma peça lindíssima, com uma das minhas tapeçarias a ser iniciada. 
Temos que ter um grande orgulho por termos uma manufactura como esta e temos que acarinhar cada vez mais trabalhos desta qualidade, que são únicos. Para um artista é um privilégio ver a recriação da sua pintura desta maneira.


JN – É natural do concelho de Vila Flor, onde estava prevista a construção de um Centro de Arte também dedicado a si. Há alguma novidade relativamente a este projecto?
GM – Que eu saiba não há. Antes deste centro ser feito [de Arte Contemporânea, em Bragança] já se falava na construção desse espaço em Vila Flor, mas por razões diversas o projecto foi sendo adiado. Há cerca de dois anos foi posto a concurso e esse projecto foi ganho por uma equipa de arquitectos, mas, neste momento, tendo em conta as dificuldades que se vivem no País, é um assunto que está parado, o que não quer dizer que esse centro não venha a ser construído.


JN – Estudou na escola do Vieiro, no concelho de Vila Flor, que fechou por falta de alunos. Gostaria que aquele espaço fosse dedicado ao seu trabalho como pintora?
GM - A escola do Vieiro foi onde eu estudei, onde andou a minha filha, onde andaram os meus irmãos e onde andaram tios meus. Só tinha três alunos e quando o Ministério da Educação fez as alterações na rede escolar, essas crianças foram transferidas para Freixiel, a seis quilómetros. 
Falei com o presidente da Câmara de Vila Flor no sentido daquela escola ser arranjada. E ele disse-me: “Vai-se fazer aquilo que tu quiseres da tua escolinha”. E neste momento fizeram-se obras e a escola já está linda.
A escola do Vieiro não vai ter funções em termos de ensino propriamente ditas, mas vai ser muito útil à comunidade. Vamos transformá-la num espaço onde as pessoas de mais idade se encontrem e desejo que sejam mais felizes neste espaço. Vamos inaugurá-la em Agosto e espero que seja um motivo para que as pessoas envelhecidas, que vivem isoladas, sintam que há lugares onde ainda podem ser úteis.
Vai ter a minha arte, mas não vai ter o meu nome. Eu pedi para darem outro nome. Mas a minha arte vai ter. Até vai ter o bule que eu desenhava quando era criança. Vamos colocar nas paredes objectos que ainda existem e que têm a ver com a minha passagem por aquela escola.


JN – Que figura pública ligada à região de Trás-os-Montes escolheria para pintar?
GM – O professor Adriano Moreira, que nasceu muito perto de Bragança. É uma figura notável, de uma grande inteligência, de uma grande cultura e é um pensador que eu admiro muito.


in:jornalnordeste.com

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