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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

O "VERBO"

À maioria dos leitores, o nome de Cipriano Augusto Lopes nada dirá. Ao invés, se lhes disser que o Sr. Cipriano é o famoso Verbo, o caso muda de figura.
Salvo as devidas diferenças, estamos ante a repetição do sucedido a Adolfo Rocha. O pseudónimo Miguel Torga apagou o nome verdadeiro.
Franzino, voz arrastada de contra-tenor, cigarro preso aos dedos, resposta pronta, reinadia, bem-humorada, o Verbo adorava falar, trocar opiniões, discorrer acerca de tudo e de todos. Ele próprio fazia a sua biografia. Não se esquecia de mencionar o período em que foi escanhoador-mor do Sr. D. Abílio; também não se esquecia de mencionar os amigos e conhecidos. 
Dava particular ênfase ao facto de o Professor Paulo Quintela nunca se esquecer de o visitar nas suas vindas a Bragança.
Servia secos e molhados. Pela noite fora a rapaziada conseguia levá-lo a conceber uns extravagantes ovos estrelados, saborosos, propiciadores de nódoas no casaco, de comissuras amarelas nos lábios enquanto o tinto fagueiro não as escurecia. Adorava sonhar em voz alta. Esse hábito trouxe-lhe aborrecimentos, pois os sequazes salazaristas não apreciavam o conteúdo dos sonhos deste pícaro citadino.
Os horários nocturnos no seu estabelecimento raramente eram cumpridos. Fechava a porta, iniciavam-se conversas e discussões sem fim, muitas vezes sem nexo. O ruído cacofónico levava o polícia de giro a intervir. 
Nessa altura, o nosso homem, ora triunfava mediante retórica apropriada, ora apanhava uma multa. Na maioria das vezes ganhava o pleito no momento, de outras vezes conseguia a absolvição na barra do tribunal.
Meia-cidade conta à outra meia, episódios protagonizados pelo Sr. Cipriano. Permito-me trazer à colação um menos conhecido. Tendo sido actor principal o poeta António Barahona da Fonseca, na actualidade a viver debaixo de nome árabe, devido a ter abraçado o islamismo. O poeta áulico do nocturno surreal-sobre-surrealista café Gelo, chegou a Bragança no mês de Dezembro de 1961. 
Por indicação de outro poeta, Herberto Helder, tinha sido nomeado responsável pela recém-inaugurada biblioteca itinerante. Visitava o “Verbo” frequentemente. No dia em que recebeu o primeiro ordenado na sua vida entendeu prolongar a libação pela noite fora. 
Madrugada adiantada, o autor de “Elegia Lenta” pediu mais um copo de três. Bebido o vinho, arregaçava a manga da camisa surpreendendo os circunstantes, ao dizer: “Atenção, o cutelo da minha mão vai partir o copo ao meio”. Aviso feito, acto contínuo o copo de vidro grosso estava dividido em duas partes. Aplausos. Entusiasmado, pede novo copo. Circunspecto, o “Verbo” observa atentamente o golpe. O copo não se partiu a direito, o pulso surrealista exibia um profundo golpe. A sangrar fortemente, é conduzido ao hospital pelo fiel e dedicado António Barril. Fleumático, o Sr. Cipriano alude à sorte e o azar andarem sempre juntos.

in: Figuras notáveis e notórias bragançanas
Textos: Armando Fernandes
Aguarelas: Manuel Ferreira

1 comentário:

  1. É obrigatório que eu saúde o criador deste blogue, pelas notícias e lembranças que nós trás!. Lembro-me perfeitamente de "O Verbo"!!.. creio que foi concorrente ao célebre "Jogo do Galo", na TV!!.. ainda bebi uns poucos "copos de 3, com morangos", no "Verbo"!!.. Dei explicações a um dos filhos!.. talvez ele me tenha dito o verdadeiro nome do Pai!.. Deixo aqui um abraço emocionado e respeitoso!.. JoséFins

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