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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

A D. BEATRIZ MONTEIRO


Nos anos cinquenta, nas Escolas Primárias da cidade, pontuavam senhoras professoras detentoras de notáveis qualidades, ressaltando a forma como impediam a simulação de fugas aos alunos, como enfrentavam os pais e como ficaram a perdurar na memória de todos quantos delas receberam os ensinamentos.
Enrodilhado no temor de esquecer alguma delas, acho melhor escapulir-me, indo ao mais longe que puder no descrever do fascínio que a Dona Beatriz Monteiro exerceu em mim.
Nunca fui seu aluno, nunca me censurou, respondeu sempre ao meu elaborado cumprimento enquanto frequentei a Escola da Estação.
Aquela professora ia muitas vezes à minha sala de aula. Além de amiga da Dona Aninhas de Castro, também se encarregava de nos explicar um ou outro assunto, encarregava-se igualmente de coadjuvar a nossa professora na tarefa de nos repreender quando um ditado mais difícil, vazio de palavras simples, eivado de palavras de sete e quinhentos, provocava uma extraordinária colheita de erros.
A Dona Beatriz morava na Avenida João da Cruz, exibia dificuldades no andar devido a um acidente; era elegante, vestia em tons de bom gosto, a preto, cinzento e branco, vestia bem; a cara mostrava pó de arroz, os lábios exibiam um carmim esbatido, as sobrancelhas finas denotavam algum lápis.
Assim me parecia. E porquê o fascínio? Porque impunha respeito sem ameaçar, porque ela própria exalava autoridade sem recorrer a molossos de nenhuma espécie, mesmo quando os seus alunos iam ao “trono”. Porque nos contava histórias nas tardes quentes de verão, porque nos olhava fixamente quando nos incutia respeito pelos mais velhos, pelos fracos e pelos humildes. Porque distribuía elogios sem rever apelidos, porque aos olhos dela todos valíamos por igual, embora aqueles tempos fossem propícios à desigualdade nessa tão importante distribuição.
Dona de um peculiar sentido de humor, exercitava-o a todo o tempo e nas mais variadas circunstâncias.
Uma vez, recebeu uma rapariga candidata a servir na casa dela. A moça atreveu-se a formular algumas perguntas acerca da existência, ou não, de diversos apetrechos na residência dela. A Dona Beatriz, respondeu divertidamente ao inquérito da aspirante a criada.
O frigorífico, o fogão, mais toda a traquitana de utensílios comummente enquadrados na categoria de electrodomésticos vieram à baila.
As respostas da professora agradaram à empertigada moçoila, o que levou a declarar-se interessada no emprego. Só que a sagaz educadora travou-lhe os ímpetos ao lhe perguntar: “A menina tem carta de condução?”. A resposta sibilada foi negativa. “Pois, então, faça favor de sair, não me interessam os seus serviços”. A jovem arriscou um: “Porquê?”.
Porque as minhas criadas vão às compras de automóvel!” – sentenciou, secamente, a senhora que era a Dona Beatriz Monteiro.

in: Figuras notáveis e notórias bragançanas
Texto: Armando Fernandes
Aguarela: Manuel Ferreira

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