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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Descoberta a arma que o castanheiro usa para se livrar da doença da tinta

Se ataca o castanheiro, não há castanhas para ninguém. Uma equipa de cientistas portugueses quer resolver este problema e acabou por desvendar o mecanismo usado pelo castanheiro para se ver livre da mortífera doença da tinta.
Foto: Manuel Roberto
Se há doença que pode estragar o Outono é a doença da tinta. Apodera-se dos castanheiros e faz com que as suas raízes e a zona do caule apodreçam. Depois, alastra-se e contamina as folhas, que ficam amarelas. A partir daí, não há-de tardar muito até que a árvore morra, pois o castanheiro deixa de consegue absorver água e nutrientes. Como tal, não dá os tão esperados frutos: as castanhas. Mas calma, agora um grupo de cientistas portugueses conseguiu perceber as armas que podem ser usadas pelos castanheiros para afugentar esta doença mortífera.

Antes de avançarmos para a estratégia de guerra usada pelos castanheiros contra a doença da tinta, é necessário apresentar os “guerreiros”. São eles a espécie de castanheiro Castanea crenata, ou castanheiro-asiático; e a Castanea sativa, ou castanheiro-europeu. Façamos então uma viagem com estas árvores centenárias. O castanheiro-asiático é de pequena e média dimensão (entre dez a 15 metros) e com folhas pequenas e dentadas. E tal como o nome indica, teve origem na Ásia, mais propriamente no Japão e na Coreia.

Pensa-se que a expansão para oeste das espécies do género Castanea tenha acontecido a partir da Ásia Oriental durante o Eoceno (época que começou há cerca 55 milhões de anos e terminou há 36 milhões). Depois terá existido uma dispersão entre as espécies chinesas, europeias e norte-americanas. E por fim, uma divisão entre as espécies europeias e norte-americanas.

Aproximemos agora a escala até Portugal. O castanheiro-europeu é a espécie mais comum no território português, ocupando uma área de cerca de 35 mil hectares em 2010, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). Pensa-se que este castanheiro tenha tido origem na região da actual Turquia. E hoje, além de Portugal, onde se situa com maior incidência no Centro e Norte do país, pode ser encontrado nos Balcãs, na Ásia menor, no Cáucaso e no Centro e Oeste da Europa.

O castanheiro, além de nos dar madeira, lenha e infusão de folhas, fornece-nos as apetecidas castanhas. Actualmente, a China é o maior produtor mundial de castanhas. De acordo com os dados da FAO, em 2010 a China produziu cerca de 80% das castanhas do mundo. Portugal está entre os principais produtores mundiais (ocupa o 10.º lugar), produzindo entre 35 mil e 45 mil toneladas por ano e foi ainda o quarto maior exportador mundial. Em 2016, de acordo com a mesma organização, só a zona do Mediterrâneo produzia cerca de 117 mil toneladas de castanhas.

Portanto, a doença da tinta, provocada pelo fungo Phytophthora cinnamomi, pode formar uma autêntico campo minado para as plantações de castanheiros. O microorganismo que origina a doença vive no solo e ataca as raízes da árvore, impedindo a absorção de nutrientes e água, levando o castanheiro à morte. A desmistificação do mecanismo de defesa do castanheiro a esta doença seria assim fundamental. E foi isso que fez uma equipa de cientistas portugueses, coordenada pelo Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária e que inclui ainda o Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier (da Universidade Nova de Lisboa), em Oeiras, e a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Os resultados foram publicados este mês na revista Frontiers in Plant Science.

Segredo está em proteínas
Para perceberem o mecanismo, os cientistas infectaram o castanheiro-asiático, o castanheiro-europeu e quatro espécies híbridas de castanheiros com o agente patogénico. Depois de recolherem as amostras, fizeram o transcriptoma, que é o conjunto de ARN resultante da transcrição da molécula de ADN e que sintetiza as proteínas a partir dos genes.

Centremo-nos então no castanheiro-asiático e no castanheiro-europeu. Houve uma diferença entre os dois: o primeiro sintetizou uma maior quantidade de proteínas de ARN a partir dos genes, que estavam relacionadas com a doença. Para ver melhor esta reacção, os cientistas usaram a técnica da reacção em cadeia da polimerase (PCR), para amplificar fragmentos de ADN e obter assim grandes quantidades desta molécula em pequenas amostras. Observaram depois que os genes de resistência à doença da tinta estão mais activos (ou expressos) no castanheiro-asiático do que no castanheiro-europeu.

E como consegue o castanheiro-asiático defender-se? Há três linhas de defesa e este castanheiro usa sobretudo a primeira linha nesta batalha contra a doença. Quando é atacado pelo fungo, o castanheiro-asiático produz proteínas que conseguem proteger as raízes e aumentar a espessura das células da raiz. O fungo tem assim mais dificuldades em penetrar nas células do castanheiro. “Essa linha está presente nos castanheiros-asiáticos mesmo sem haver contacto com o agente patogénico. Ele próprio faz isso”, explica ao PÚBLICO o biólogo Pedro Fevereiro, do Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier e um dos autores do artigo científico.

O castanheiro-europeu também activa estes genes, mas só depois do fungo ter penetrado na raiz, o que já é tarde de mais. O castanheiro acaba por morrer em combate. “Ao contrário do castanheiro-europeu, o asiático evoluiu em contacto com este agente patogénico”, explica Pedro Fevereiro. “O castanheiro-europeu só mais tarde começou a contactar com este agente.”

Este ataque da primeira linha é completado com a segunda, que reconhece as substâncias produzidas pelo fungo e que transmite essa informação ao núcleo das células, induzindo assim a actividade de certos genes associados à doença. E ainda há uma terceira linha, em que as células do castanheiro, ao reconhecerem o agente patogénico, sintetizam o ácido salicílico, que tem a função de se disseminar para outras células e aumentar a actividade dos genes das plantas.

Este trabalho inclui-se no programa de melhoramento do castanheiro-europeu (do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária e é coordenado por Rita Costa) e tem um objectivo: “O conhecimento destes genes permite desenhar marcadores moleculares que com duas funções: ao identificarmos as sequências de ADN, podemos analisar o ADN das plantas e encontrar árvores mais resistentes”, considera Pedro Fevereiro. A partir destes marcadores moleculares, os cientistas pretendem agora criar castanheiros-europeus mais resistentes ao fungo da doença da tinta.

Pedro Fevereiro fala ainda da criação de castanheiros híbridos, resistentes como o castanheiro-asiático e darem frutos grandes como o castanheiro-europeu. Com os novos marcadores moleculares poder-se-á analisar a descendência dos castanheiros híbridos: “Podemos saber como se pode produzir um castanheiro híbrido [resistente]. Assim, reduz-se o tempo para obter plantas resistentes. Este será um trabalho futuro.”

A doença da tinta tem mesmo uma importância fulcral nas plantações de castanheiro-europeu: “Um dos problemas causados pela doença é a degradação do ecossistema.” Em Valpaços e Vinhais, respectivamente numa área de 483 hectares e 394 hectares, houve perdas na produção de cerca de 50%, entre 2006 e 2014, devido a doenças como a doença da tinta e o cancro do castanheiro, de acordo com o estudo Monitorização da condição fitossanitária do castanheiro por fotografia aérea obtida com aeronave não tripulada, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Estes dois concelhos representam uma região com elevada produção de castanhas em Trás-os-Montes. Também segundo esse estudo, houve uma redução em 27,3% da área de castanheiros entre 2002 e 2004 devido à já nossa bem conhecida e destrutiva doença da tinta.

Teresa Serafim
Jornal Público

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