(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Levantei-me hoje bem cedo e para não incomodar o sono matinal da minha mulher, não fui directo para o duche, antes dirigi-me à sala e liguei o meu i-pad para ver o correio que hoje em dia vem mais por esta via do que pela postal.Li um texto que me foi enviado pelo meu amigo António Gomes, filho do Garrido, a quem agradeço a perspicácia de saber que eu gosto destas coisas e das enviar. Não reproduzirei todo o texto pois nem tenho esse direito legal e os interessados poderão encontrá-lo no mural de Lourdes dos Anjos, sua autora e deliciarem-se com esta maravilha.
Feita a introdução vamos ao tio Rocha e às semelhanças que achei na história dos meninos e no que eu conheci desta personagem.
O tio Rocha vivia com a tia Angelina no nº 64 da Caleja do Forte, por debaixo da tia Ilda Pireta que era esposa do tio Miguel Chamorro e tinham estes quatro filhos meus dilectos amigos, Álvaro, Nuno, Manuel e Frederico.
Que eu saiba da relação do Rocha com a Angelina não havia descendentes. A semelhança encontrada nesta história e as vividas pelo Frederico e o tio Rocha mais eu próprio, que diga-se de passagem, estava sempre pronto para tudo o que implicasse acção colectiva.
Ora o tio Rocha que era um Senhor muito circunspecto e bem-falante (para os padrões da Caleja) que eu apreciava pelo seu bigode e também pelo facto da sua figura ser a ideal para fazer par com a da tia Angelina, mulher de meia-idade mas sempre limpa e escarolada, de rosto agradável e também sempre pronta para o que se apresentasse, pacífico ou violento pois ela respondia sempre com a mesma firmeza a que adequadamente respondesse ao desafio.
Mas, estas características que garantiam ao casal uma certa aura de excelência não lhes conferiam a amenidade de poderem usar uma sentina no espaço rectangular e paralelepipédico do seu quarto no nº 64 da nossa Rua.
Assim sendo era inevitável que o tio Rocha fosse "a campo" à Cortinha da Albininha Guerra. E era aqui que o acto mais vulgar dos actos fisiológicos que a humanidade imperativamente tem que realizar para poder viver, se transformava num ritual de dignidade e alguma filosofia, que o tio Rocha do alto da sua sapiência e com voz afectada nos transmitia muitíssimas vezes a mim e ao Frederico que como companheiros e pupilos mais assíduos aprendemos nas horas de arrear a calça debaixo da figueira da encosta da Cortinha, onde hoje se faz a mesmíssima coisa a coberto dos muros e portas do abandonado Hotel Torralta: -O homem necessita de comida e bebida para viver, mas, imperativamente terá de defecar. Quando não defeca morre.
E aqui vos transmito uma verdade insofismável aprendida na infância através do imperativo de transformar uma necessidade num acto com dignidade. A vida ensinou-me que até nas acções mais vis o homem pode e deve fazer por ser digno, cumprindo com o que Jave ordenou aos hebreus e está registado em Deuteronómio 23 versiculo 13 e seguintes: -Haverá um lugar fora do campo, onde deves ir para as tuas necessidades. Entre os teus utensílios terás um sacho com o qual, ao sentares-te lá fora, farás uma cova e em seguida cobrirás os teus excrementos... ,de modo que o Senhor nada veja em ti de desagradável e não se afaste de ti.
Pois bem os meninos, alunos da professora Lourdes dos Anjos quando ela ía ao Porto ao fim-de-semana pediam-lhe para trazer papel macio para o cú e boa roupa p'rá gente. No tempo mencionado que era o mesmo, eu o Frederico e o tio Rocha, colhíamos umas mãos cheias de erva da Cortinha e macia e fresca utilizávamo-la para limpar o sítio por onde séculos antes ao responder aos fariseus, Jesus de Nazaré, disse que era pelo tal orifício milagroso que saía o que pela boca comiam os seus discípulos e toda a humanidade.
Agradeço à Professora Lourdes dos Anjos o texto maravilhoso e realista que escreveu, ao Toninho Garrido por mo ter facultado, à Google pela visualização e ao tio Rocha por me haver ensinado a por dignidade até no acto que será o mais vil de todos os fisiológicos mas é também o que retira de nós o veneno que nos liquidaria.
Porque fomos capazes de o compreender e dignificar temos o dever de o desmistificar, mesmo que hoje o sacho do texto Deuteronómico se haja tornado em "papel macio para o cú" e se tivesse inventado o Bidé para a lavagem dos ENTREFOLHOS, vocábulo que a minha mãe nos gritava ao domingo de manhã quando entrávamos na celha para a lavagem semanal: -Lava bem os entrefolhos, que assim andas mais aliviado!
V.N. de Gaia 12/04/2019
A. O. dos Santos
(Bombadas)

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