O autor explicou que a obra não se centra em São Jorge enquanto santo ou beato, mas, sobretudo, enquanto figura simbólica do cavaleiro que combate o mal, faz triunfar o bem e protege os mais indefesos.
“Este livro, se fosse um filme, teria como ator principal S. Jorge. Não S. Jorge como o beato ou santo, mas S. Jorge como o cavaleiro medieval que combate o mal e que faz vingar o bem e, sobretudo, os indefesos”, afirmou Alexandre Rodrigues.
Segundo o investigador, S. Jorge teve um papel relevante na construção da “gesta nacional”, desde a chamada Cruzada Ibérica até ao período dos Descobrimentos e da expansão portuguesa.
A imagem e o exemplo do cavaleiro voltariam a adquirir particular importância durante o período da perda da independência e após a Restauração de 1640, funcionando como fonte de inspiração para a defesa e consolidação da soberania nacional.
Alexandre Rodrigues recordou igualmente a ligação da figura de S. Jorge à cidade de Bragança e às suas memórias de infância. O autor participou, aos nove anos, numa procissão realizada em 23 de abril, entre a Capela de São Sebastião e a Capela de S. Jorge, nas proximidades de Vila Nova.
Nessa celebração, S. Jorge seguia montado num cavalo branco, numa procissão que envolvia diretamente a Câmara Municipal de Bragança e mobilizava representantes das igrejas, mosteiros e estruturas de governação da cidade.
De acordo com o autor, existia um compromisso municipal relativamente ao pagamento das despesas e à participação do clero das igrejas de Santa Maria e São Vicente, do Mosteiro de São Francisco e dos capelães e sacristães dos conventos femininos de São Bento e Santa Clara.
A obra aborda também a capela de S. Jorge, antigo local da igreja matriz de Vila Nova, e analisa o respetivo retábulo e a iconografia das imagens que o integram, entre as quais as de Santo António e Santo Amaro.
O livro publica ainda documentação relacionada com a encomenda, pela Câmara de Bragança, da imagem de S. Jorge que atualmente permanece na capela de Vila Nova.
Figura obrigatória na procissão do Corpo de Deus
Alexandre Rodrigues destacou ainda a presença obrigatória de S. Jorge nas antigas procissões do Corpo de Deus, consideradas as celebrações mais importantes do reino durante o Antigo Regime.
O cavaleiro participava montado num cavalo branco e acompanhado por música, tambores e trombetas, numa festividade que associava uma forte componente religiosa a manifestações de caráter profano.
“S. Jorge era uma das figuras de participação obrigatória, com o seu cavalo branco e acompanhado de música, tambores e trombetas”, explicou o professor.
As procissões integravam também os diferentes ofícios da cidade. Alexandre Rodrigues deu como exemplo os talhantes e marchantes, que participavam com touros utilizados em jogos semelhantes a tradições que ainda sobrevivem em algumas regiões do país.
A procissão do Corpo de Deus foi instituída pela Igreja Católica no século XIII, mas conheceu o seu maior desenvolvimento durante o período barroco, sobretudo no reinado de D. João V. Após a Revolução Liberal e a Guerra Civil, a celebração perdeu progressivamente parte do esplendor anterior.
Embora centrado em Bragança, o livro estabelece comparações com as práticas existentes noutras cidades importantes do reino, como Lisboa, Braga, Porto e Évora.
“É um livro que olha para o nosso contexto, mas não perde de vista o país”, salientou Alexandre Rodrigues, explicando que Bragança importava frequentemente modelos da corte e de outros centros políticos e religiosos.
Símbolo da independência nacional
O autor associa ainda a consolidação de São Jorge como figura nacional à crise de 1383-1385. Nesse período, a bandeira do santo terá sido hasteada numa das torres do Castelo de Lisboa durante o cerco das forças castelhanas.
Foi igualmente nessa época que o grito de guerra “São Jorge” começou a ser utilizado pelas tropas portuguesas, substituindo o apelo a Santiago, associado às forças espanholas.
Alexandre Rodrigues admite também que D. João II possa ter contribuído para reforçar a devoção a S. Jorge no território de Bragança, na sequência da Batalha de Toro, embora reconheça que algumas destas ligações históricas permaneçam no domínio das hipóteses.


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