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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Sacrum – IV QUATTUOR

Por: Manuel Amaro Mendonça
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.


Tomás ergueu-se com dificuldade, sentindo dores intensas onde os fragmentos de tijolo o tinham atingido. Esfregou o rosto e sentiu uma humidade viscosa misturada com terra.

A lanterna jazia a alguma distância, ainda acesa. O foco apontava o que parecia ser uma passagem. Cambaleou para lá.

O ar estava frio e húmido.

Apontou a lanterna para o túnel. Não conseguia perceber se a escuridão escondia o fundo ou se a passagem se prolongava por muitos metros.

Direcionou a luz para o cimo do poço e também não conseguia discernir o topo.

As paredes daquele poço estavam cuidadosamente forradas a tijolo desde o topo até cerca de dois metros do chão. Em tempos, águas revoltas tinham passado por ali, escavando a parede e fazendo desmoronar parte do revestimento.

Conseguia perceber o sítio vazio do degrau que cedera e o fizera cair.

Um calafrio percorreu-lhe a espinha. Estava no fundo de um poço desconhecido, ninguém sabia onde se encontrava e não via maneira de sair. Acima dele, as primeiras gotas de chuva começavam a infiltrar-se.

Andou em volta da parede procurando um ponto de apoio, uma saliência que lhe permitisse colocar um pé ou uma mão e iniciar uma escalada.

Nada. Tudo era terra ou calcário amarelo e escorregadio.

Com os pés e as mãos alisou o chão por baixo do ponto mais próximo do forro de tijolos. Pousou a lanterna a iluminar o local de trabalho. Com pouca convicção, começou a empilhar os tijolos dispersos pelo chão na tentativa de um degrau ou dois que permitisse chegar a algum ponto de apoio.

A luz da lanterna tremeluziu quando ele, a transpirar abundantemente, tinha conseguido erguer um instável palanque de três patéticos degraus.

Subiu a obra e olhou para cima. Era como se não tivesse feito nada…. a sua respiração, acelerada pelo esforço, ganhou ainda mais velocidade.

Gotas de água dispersas começavam a cair do cimo do poço. A chuva devia estar a intensificar-se lá fora.

A luz tremeluziu novamente.

Tomás bateu na lanterna com a palma da mão e o foco estabilizou, mas por pouco tempo. Se a luz morresse, não tornaria o monte de tijolos ou sequer a entrada do túnel.

Apagou a lanterna, sentou-se no chão e acendeu um cigarro com o isqueiro metálico a gasolina, que pertencera ao avô.

Soltou umas baforadas, enquanto a única luz do local era a ponta incandescente que ganhava novo alento a espaços.

Tentava deixar de fumar, mas naqueles momentos de tensão precisava sempre de se refugiar atrás do fumo branco e do cheiro imutável do tabaco.

Inspirou fundo enquanto apagava o cigarro.

Apontou a lanterna para a passagem, a sua única hipótese de sair dali. Na lama do chão distinguiam-se as pegadas de Freixo, seguindo para o interior.

O que o aborrecia era que a passagem tinha uma inclinação descendente.

Tomás praguejou entre dentes e avançou antes que o medo lhe desse outra ordem.

Avançou cautelosamente pelo túnel, enquanto iluminava as paredes de calcário. A maioria da passagem fora aberta pela água; a mão humana limitara-se a alargá-la onde fora necessário.

— Freixo! — Gritou novamente, estremecendo com o eco sufocado que lhe foi devolvido.

Ao fim de alguns minutos o seu caminho bifurcava-se em três possibilidades; duas continuavam a descida e uma parecia subir.

Engoliu em seco. Regressar significava enfrentar o poço uma vez mais; escolher ao acaso podia fazê-lo perder a orientação. Apertou a lanterna com tanta força que os dedos começaram a doer.

O pai falara-lhe muitas vezes de labirintos. Quanto saberia ele sobre aqueles túneis? A proibição tornava-se agora clara: o que existia sob a colina não era novidade para Afonso. Mas teria alguma vez descido até ali? Tomás não duvidava.

“O labirinto não é um lugar onde nos perdemos, mas sim um caminho de introspeção onde nos encontramos” — Dissera-o muitas vezes.

Observou as entradas dos tuneis com atenção e depois percorreu as paredes em volta com a luz. No calcário descobriu um símbolo: três riscos separados em baixo que, ao subir, convergiam num só.

O coração deu-lhe um salto. Reconhecia aquele símbolo. Não eram apenas uns riscos na pedra: era uma orientação.

Com a mão sobre a testa e os olhos fechados fez um esforço para recordar: — A Pata de Ganso, — murmurou — o caminho está indicado… pelo dedo do meio!

Ao sacudir a lanterna, esta apagou-se e ele ficou na absoluta escuridão… exceto… num dos túneis parecia haver uma luz mortiça.

Pelo tato, abriu a lanterna e mexeu com as pilhas, voltando a fechá-la. A luz retornou ao espaço.

O túnel de onde provinha a luz era o da esquerda, que descia, tal como o do centro. O da direita subia e tentava-o, pois poderia ser a saída. Mas o símbolo na parede contradizia-o: indicava o túnel do centro…, mas o da esquerda é que tinha a luz a atraí-lo.

—Espera! — Exclamou. em voz alta. O pai dissera-lhe qualquer coisa sobre caminhos iluminados. “O caminho largo e iluminado é o falso, os caminhos do Senhor são difíceis e escuros.”

Episódio Seguinte - Sacrum – V QUINQUE

By Manuel Amaro Mendonça 16 de Setembro, 2026

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Manuel Amaro Mendonça
é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
Outros trabalhos estão em projeto, mantenha-se atento às novidades em http://myblog.debaixodosceus.pt/, onde poderá ler alguns dos seus trabalhos, ou visite a página de autor em https://www.debaixodosceus.pt/ 

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