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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quarta-feira, 9 de março de 2022

Bragança, ai que saudades tenho!

Por: Humberto Pinho da Silva 
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

A cidade que conservo na memória, não é a de hoje. A minha há muito morreu, mergulhada no passado. Perdida num tempo que já não é.

O Sol que agora bronzeia, patina, doira vetustas ruas, a cidadela, as velhas pedras seculares, é o mesmo; mas as figuras que animaram o antigo e senhorial burgo, há muito desapareceram num passado que passou.
Todavia vivem, ainda dentro de mim…Renascem em devaneios, em nostálgicos sonos, e persistem aconchegarem-se na alma saudosa.
Lembro-me – melhor se fecho os olhos, – a velha ronceira e embaladora automotora encarnada. Passeava preguiçosa pelos estreitos trilhos, rompendo por cerros fragosos e quase nus. O Tua, lá em baixo, de águas cristalinas, debatia-se exasperado, bracejando, entalado por alcantiladas e escarpadas ravinas de terra ocre, que pareciam despenhar-se à mais leve viração.
Vejo nitidamente a simpática estação ferroviária, toda branca, que acolhia os passageiros, ainda tontos e enjoados pelo baloiçar a que eram forçados.
Vejo, também, a antiquíssima Praça da Sé e o pelourinho, toda lajeada a granito, envelhecido pelos anos e pelo musgo. O casarão branco do Montepio; a pequena e animada livraria do Sr. Silva – sempre cumprimentador, sempre respeitoso: o Café Central, onde em calmas tardes, bebia o Martini, e nas frigidíssimas noites de Inverno, quando o vento soprava da Sanabria, e a fofa e alva neve tudo cobria, saboreava o cafezinho e o inseparável bagaço. Bagaço que só os transmontanos sabiam fabricar.
Chego, agora, ao aristocrático Chave D’Ouro, onde “importantes” cavaqueavam freneticamente, e eu, na flor da idade, estudava inglês e lia e relia Camilo. Livros que obtinha na carrinha da Biblioteca Itinerante, que estacionava, em determinado dia, sobre as sólidas e largas lajes, junto à Sé.
Recordo com emoção o pequeno e familiar Café Lisboa. Sentado, junto ao balcão, escutando os entusiásticos comentários do Sr. Manuel, assisti, em directo, à façanha extraordinária da chegada do homem à Lua.
Lembro-me, ainda – como me lembro!, – ter presenciado a inauguração do  Flórida. – Café que passou a ser frequentado pela rapaziada elegante da cidade.
Viajando ao sabor da memória pelas ruas empedradas da cidade, que já não existe, chego à “moderna” Avenida do Sabor.
Nela ficava a casa do Dr. Flores – sempre sisudo, de cara cerrada e de coração generoso, – e a do Dr. Pires, mais a numerosa prole…
Nessa avenida conheci graciosa moreninha, de pele macia e doirada. Cabelo castanho que coruscava ao sol, apanhado em farto rabo-de-cavalo. O olhar irradiava ingenuidade e extrema candura.
Há crianças que não devem crescer. São bênçãos. Anjos que amenizam vicissitudes. Essa era uma delas. Conservo na retina o encantador sorriso e o rostinho angelical.
Dos passeios que dava – e não foram poucos, – não posso esquecer a trilha pitoresca que ladeava o manso Fervença – rio que desce pachorrentamente, no forte do Verão, entre agrestes e escabrosos cerros.
Entranhava por vielas e becos da cidadela, e meditando e rezando, alheado de tudo e de todos, sempre trilhando estreitos carreiros, chegava ao Café Floresta; com o rio, de águas translúcidas, aos pés, e o céu azul profundo, como teto. E sempre o murmúrio das águas… e o murmúrio surdo do silencio…
Ai que saudade tenho das quentes noites de Estio! Logo que empalidecia o céu, em tons de fogo, e o Sol incendiava-se no horizonte, caminhávamos em grupo para o Jardim António José de Almeida, que ficava junto ao rio. Ouvia-se música quase toda romântica. Roberto Carlos era o rei. Pares de namorados, enlevados, passeavam de mãos enlaçadas, cochichando doces palavras de amor…
Perdição para moças casadoiras eram os milicianos do BC3. Chegavam a visitá-los – os de maior patente, – no quartel.
O Batalhão resumia-se a duas ou três casernas mal-amanhadas, cercadas de improvisada vedação. Não havia portas. Não fossem sentinelas, circulava-se livremente.
À hora de almoço, a carrinha vinha receber oficiais e sargentos à Praça da Sé, para os levar até ao morro do quartel.
Agora, no crepúsculo da vida, em horas de nostalgia, escutando o murmúrio longínquo da velha Parca, uma onda de saudade invade-me a alma…e magoa, e fere, e dói…
E a voz que brota dentro do peito, pergunta-me: – Onde estão os que se acotovelavam e pontapeavam-se na raivosa ânsia de alcançar o topo do sucesso?
E a mesma voz sussurra-me: – Repousam o eterno sono… Viveram… mas foi como não vivessem. Lutaram… mas é como não tivessem lutado… A morte igualou – vencidos aos vencedores. Reduziu-os a cinza…a nada.
Tudo morre. Tudo desaparece. Tudo é esquecido…. Tudo se transforma em pó…em poalha de nada.

Humberto Pinho da Silva
nasceu em Vila Nova de Gaia, Portugal, a 13 de Novembro de 1944. Frequentou o liceu Alexandre Herculano e o ICP (actual, Instituto Superior de Contabilidade e Administração). Em 1964 publicou, no semanário diocesano de Bragança, o primeiro conto, apadrinhado pelo Prof. Doutor Videira Pires. Tem colaboração espalhada pela imprensa portuguesa, brasileira, alemã, argentina, canadiana e USA. Foi redactor do jornal: “NG” e é o coordenador do Blogue luso-brasileiro "PAZ".

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