“Se fordes ó Santo António,
Trazei-me de lá um santinho,
Se não poderdes com êle grande,
Trazei-m’o mais pequenino.”
Pe. Firmino Martins
Encontramo-nos em terras de Vinhais, cujas origens se perdem na escuridão dos tempos conforme comprovam achados arqueológicos que povoam os montes e vales deste antigo concelho do nordeste transmontano, no distrito de Bragança.
Lugar de gente trabalhadora e humilde, que sempre soube amenizar a agrura do dia-a-dia com cantares, rezas e estórias, eis a razão pela qual todos os anos, em Setembro, se presta culto ao santo casamenteiro naquele lugar de onde se vislumbra um formoso panorama sobre a vetusta vila.
Trazida aos nossos dias pela voz do povo a lenda reza …
Era noite fria de Lua Cheia e o vento soprava, por onde queria, agitando desenfreadamente as ramagens do arvoredo que ladeava o caminho. No chão, em terra batida, desenhavam-se sombras e movimentos acompanhados de um silvado que despertavam os “medos” contados pelo povo.
Do Alto de Ressumil o luar permitia avistar, bem perto, o pequeno casario construído sobre um promontório nas faldas do Monte da Ciradelha.
Seguia por esse caminho um almocreve, regressando a casa depois de uma longa e penosa jornada de trabalho. O silêncio da noite foi bruscamente engolido por uivos de lobos famintos que o cercaram.
O homem pensou que a sua viagem terminaria ali, àquela hora, naquele ermo.
Na eminência do ataque que poria fim à sua vida, o coração do almocreve transbordou de fé de onde retirou algumas forças para, de olhos cerrados, prometer que ali construiria uma capela, dedicada a Santo António, em troca da salvação terrena.
Colado ao chão, imóvel e gelado como uma estátua, sentiu-se inesperadamente invadido por uma acalmia apenas perturbada pelo eco dos uivos a dissiparem-se nas quebradas dos montes de Cabrões e do Cavalo Branco.
Já não se sentia vento algum. Abriu os olhos. Incrédulo, verificou que a sua súplica tinha sido atendida encontrando-se milagrosamente são e salvo, pronto para retomar caminho até casa onde o esperavam a mulher, os sete filhos e uma malga de caldo quente.
Algum tempo depois era erguida ali uma capela dedicada a Santo António, onde se celebraria, anualmente, no 1.º fim-de-semana de Setembro, uma grandiosa romaria.
Já no séc. XX, o vinhaense Ten. Assis Gonçalves, secretário particular de Salazar e Governador Civil de Vila Real, mandou construir um fontanário, com o nome do santo, numa pequena nascente perto da capela. Do velho cano de bronze brota uma água límpida e cristalina com propriedades milagrosas; é que, quem daquela água beber casará em Vinhais; e para saber dali a quanto tempo basta tentar alcançar o sino da capela com uma pequena pedra, até que este se faça ouvir, correspondendo cada toque a um ano de espera.
Na hora da fuga terá deixado os seus haveres à guarda do Santo António, cuja pequena imagem devotamente venerava num altar improvisado em casa, na Rua de Baixo em Vinhais.
Mas não se fica por aqui a intervenção milagrosa do santo casamenteiro, levando-nos até às guerras da restauração onde os factos se cruzam com a lenda.
Dia 17 de Julho de 1666 o general castelhano Pantoja decide avançar com as suas tropas sobre a fortaleza da Vinhais, conforme conta um manuscrito de Inácio Xavier de Morais Sarmento de Mariz, transcrito pelo Abade de Baçal, no qual se relata a forma como a acção do Santo terá livrado uma casa das chamas.
Maria de Castro integrava o grupo de mulheres e crianças da vila que escaparam para Além do Rio, capitaneadas por D. Francisca de Morais, mulher do Governador da Praça. Na hora da fuga terá deixado os seus haveres à guarda do Santo António, cuja pequena imagem devotamente venerava num altar improvisado em casa, na Rua de Baixo em Vinhais.
Os inimigos, que por onde passavam espalhavam o terror, amontoaram molhos de serôdio em volta da casa da pobre mulher ateando-lhe fogo.
Depois da largada dos invasores todas as mulheres e crianças regressaram a Vinhais. Ao se aproximarem do velho burgo depararam-se com o milagre. As chamas tinham poupado a casa de Maria de Castro e os molhos de serôdio ainda ali estavam, incólumes, e haviam de servir para que naquele lar não mais faltasse o pão durante o resto do ano.
Talvez por isso ainda hoje se observe a imagem do santo, num nicho envidraçado, a encimar o primeiro arco do castelo de Vinhais.
ORAÇÃO A SANTO ANTÓNIO
“Ó beato Santo António
que em Lisboa fostes nado,
pela missa que rezastes,
pelo cordão que cingistes,
pelo livro que tomastes,
pelo hábito que vestistes,
livrastes o vosso pae da forca;
livrae-me a mim
de lôbo e lôba, ladra e ladrão,
e de tôdas as coisas que más são.
Em honra de Deus
e da Virgem Maria,
um Padre Nosso
c’um Avé Maria”
Revista Raízes
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Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço.
A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)
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COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
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