As mais conhecidas são as de Mirandela, mas na minha memória ficaram as de um extraordinário fumeiro, situado algures em Vila Flor.
Há cerca de 25 anos, quando visitei Trás-os-Montes pela primeira vez, o cheiro intenso a loureiro queimado conduziu-me até à porta de um edifício antigo. Lá dentro, as paredes estavam impregnadas de fumo e o teto albergava centenas de alheiras, geometricamente alinhadas.
Conhecia os fumeiros do Minho. Não havia alheiras, mas os fumeiros tinham o mesmo encanto. A minha avó fazia um fumeiro todos os invernos e desde sempre os netos colaboravam a cortar e a temperar as carnes de porco em vinha de alhos. Uns dias depois, cortávamos a tripa, atávamos uma das extremidades, enchíamos o chouriço e atávamos a outra extremidade, deixando um fio mais longo. A seguir, saltávamos para cima de um banco e esticávamo-nos para os pendurar na chaminé. A idade e as artroses já não permitiam que fosse a minha avó a fazer esta tarefa. No final, ela gostava de os contar e ficar ali a explicar como se devia fazer a fogueira, baixinha e a fogo lento. O ritual repetia-se todos os anos.
Há uns dias, regressei a Vila Flor e procurei o extraordinário fumeiro que me tinha fascinado há cerca de 25 anos atrás. Poucas são as recordações daquele lugar. Não o encontrei. Talvez já nem exista… Não voltei a ver tão extraordinário fumeiro.
Atualmente, no centro de Vila Flor, só o fumeiro da Glória permanece. Este não é como o que me ficou na memória. Ainda assim, quando lá se entra e se vê a azáfama das mulheres, fica-se logo com vontade de comprar os produtos.
A um canto cozem-se as carnes de porco, temperadas com alho e sal. Do outro, desfiam-se as carnes já cozidas e misturam-se com banha. Entretanto, um alguidar com pão já fatiado é regado com o caldo, ainda quente, das carnes acabadas de cozer. Uma das mulheres mexe esta mistura para desfazer os pedaços de pão que ainda subsistem. De seguida, as carnes desfiadas são misturadas no alguidar e os temperos retificados. O recheio está pronto. A bom ritmo, as tripas previamente lavadas e cortadas são enchidas com este recheio. No final, é só pendurar as alheiras no fumeiro e aguardar 4 ou 5 dias para que estejam prontas a ir para o prato. Alheiras de inverno com grelos, hum, que maravilha. E se forem pequenos troços de alheira com grelos envoltos em massa folhada? São uma tentação, principalmente acabadinhos de sair do forno…
Procurar estes lugares mais recônditos, localizados numa rua mais estreita, por vezes distante do centro, é um dos meus principais interesses quando visito um sítio desconhecido. Como geralmente não há indicações, é preciso fazer perguntas a quem passa, o que dá uma motivação extra à empreitada. Toda a gente fica a saber ao que vou. O mais conversador dá uma explicação pormenorizada. O mais atento fica a observar ao longe, para ver se sigo na direção certa.
Comprar nestes lugarejos deixa-me satisfeita. À chegada, adoro sentir o cheiro. Adoro perceber como são confecionados estes produtos típicos e ouvir as explicações de quem os faz todos os dias. Nas grandes superfícies, a variedade é tão grande que na maioria das vezes fico baralhada. Nestes locais, geralmente não há lugar a indecisões. A dúvida só poderá estar na quantidade a comprar. Muita, de preferência.
in:viagensasolta.com
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