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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 18 de junho de 2019

A cerca do Convento de Santa Clara e a nova Catedral

Com a igreja aberta ao serviço de todos os fiéis, no ano económico de 1852-1853 a Câmara orçamentou uma pensão de 100$000 para as freiras de Santa Clara, um dos dois conventos de religiosas franciscanas existentes no bispado. Em 1853, a casa de Bragança tinha “apenas quatro religiosas” enquanto a de Vinhais, igualmente devota do exemplo do santo de Assis, ainda tinha nove.
Pormenor da fachada da antiga Igreja da Companhia de Jesus

Embora convertida em propriedade estatal, a cerca de Santa Clara de Bragança iria voltar à posse da Igreja, para aí se poder materializar o desejo adiado da edificação de uma nova catedral em Bragança. A vontade de tal cometimento parece ter a sua génese aquando da entrada solene em Bragança do bispo D. José da Silva Ferrão de Carvalho Martens, que ocorreu em 4 de outubro de 1875. Constatadas as insuficiências da antiga Igreja dos Jesuítas, o templo que servia de Catedral, e os constrangimentos que impunha ao esplendor pretendido para as solenidades principais, gerou-se um movimento apostado na edificação de uma catedral, o qual, aparentemente, contava com o apoio dos cidadãos mais distintos e influentes.
De acordo com o cónego Manuel António Pires, “não houve então ministro capitular, nem pessoa notável da Cidade, que não aplaudisse a empresa, e não prometesse abrir a sua bolsa em favor dela”. Tais intuitos devem ter influenciado o prelado a impulsionar uma iniciativa que apontava para o espaço do antigo convento de clarissas. Logo se deu andamento a um processo que, com a ajuda de parlamentares e de outros influentes, como o conselheiro Martens Ferrão, irmão do bispo, teve feliz desfecho na carta de lei de 22 de março de 1877.
Novamente se urdia em Lisboa, como aconteceu um século antes, o enquadramento que devia pautar a obra da nova catedral diocesana. Contudo, importa ter em conta que a concessão do convento era por tempo limitado e que existia a obrigação de, no prazo de cinco anos, se poder observar o estaleiro a bulir nem que fosse com a abertura dos caboucos para os alicerces.
Ainda no mesmo mês de março, o bispo adiantava-se com uma provisão relativa ao modo de apurar receitas, a qual, liberalmente, tinha a particularidade de propor a rigorosa observação “da espontaneidade dos fiéis”.
Mas como escreveu o cónego Manuel António Pires – que se meteu a redigir o Catecismo Explicado com o fito de o ofertar aos benfeitores desta empresa –, seriam, justamente, as estratégias de angariação de fundos que encravariam “a roda do movimento edificador”, o que viria a determinar o abandono do projeto, jamais iniciado, e o surgimento de interesses de outra índole que levariam o Estado a retomar as remanescências do Convento.
Alguma correspondência trocada entre o bispo, quando estava em Lisboa, e os elementos da “comissão capitular diretora da obra da nova catedral”, permitindo a compreensão dos pontos que estavam em jogo, informa sobre os eclesiásticos que compunham este órgão. Era presidido pelo reverendo mestre-escola António Joaquim de Oliveira Mós, e coadjuvado por outros ministros como Manuel António Pires, tesoureiro, António da Cruz e Sousa e Claudino César Pissarro, vogais, e Sebastião Luís Martins, secretário.
Da troca epistolar, sabemos que, em Lisboa, o arquiteto das Obras Públicas, João Maria de Nepomuceno, entregou ao bispo, no dia 26 de agosto de 1878, a planta da nova Igreja Catedral e os desenhos dos alçados. De acordo com uma missiva datada de 1 de setembro, remetia-se a planta para Bragança – só a planta –, com a indicação expressa de ser analisada pelo diretor das Obras Públicas do Distrito, o engenheiro Manuel Paulo de Sousa, a quem o prelado incumbiu a direção da obra, visto estar para isso autorizado por uma portaria do Ministério das Obras Públicas. Despachada a planta – o risco dos alçados permaneceria provisoriamente na capital para se “tirar dele algumas fotografias” –, entendia o bispo que estavam reunidas as condições essenciais “para dar começo à obra”, tanto mais que numa provisão publicada anteriormente, em 16 de março, tinha equacionado as formas de obtenção das receitas precisas, sobretudo através de uma dinâmica mobilizadora que, a partir dos polos dos arciprestados, levaria os elos da generosidade a todas as paróquias.
Planta para a catedral de Bragança, por José Maria de Nepomuceno, c. 1878

No dia 10 de setembro de 1878, o engenheiro Manuel Paulo de Sousa juntava-se aos membros da comissão 
capitular incumbida da direção das obras, pois muito se valorizava o seu parecer, não só acerca do “projeto do edifício, mas também sobre a maneira prática de o realizar com a maior brevidade possível”. Da troca de opiniões, importa fixar três pontos que o engenheiro Manuel de Sousa destacou como fulcrais: “a planta apresentada não satisfazia”, já que era necessário conhecer o projeto completo e o respetivo caderno de encargos; “uma obra de tanta importância carecia ser dirigida por um prático, ou mestre-de obras, que só no Porto ou em Lisboa poderia encontrar-se”; para se iniciar a empreitada, era necessária a existência prévia de um fundo de reserva, que não poderia ser inferior a quarenta contos de réis.
Tida em boa conta, a crua opinião do engenheiro Paulo de Sousa, sublinhando a insuficiência de informação do projeto assim como as necessidades materiais que o rodeavam, fez despertar a comissão fabriqueira para a realidade, razão pela qual “deliberou suspender o princípio de execução da obra”. Sendo certo que alguns dos seus membros, como o cónego tesoureiro, Manuel António Pires, continuaram a manter alto o nível de empenho, teimando na possibilidade de concretização de um desejo ansiado, as sessões seguintes da comissão cada vez tornavam mais patente o desinteresse de grande parte dos eclesiásticos, nomeadamente dos que, em Bragança, paroquiavam as freguesias de Santa Maria e da Sé. Por isso, apesar de se terem ainda visto alguns lampejos, a realização do projeto esmoreceu.
Com uma capela-mor muito profunda e mais estreita do que o corpo, com a única nave a ser segmentada por quatro tramos, o templo projetado pautava-se pelo figurino de cruz latina com braços do transepto bem marcados, que se desenharam com cinco faces. Em todo o perímetro, diversos contrafortes ritmavam os muros de vedação do espaço e assinalavam o desejo de se transmitir verticalidade à nova catedral.
Sabe-se que, em 1877, o bispo regressou aos “aléns” de Lisboa, onde tinha casa, a convalescer de grave doença.

Portanto, seria natural que se tivesse informado e conferenciado com arquitetos e outras pessoas conhecedoras, de forma a melhor iluminar o problema edificatório que tinha em mãos. Nesta perspetiva, também podemos admitir que alguns comentários sobre a derrocada da torre neomanuelina dos Jerónimos, que em 1878 matou alguns trabalhadores, chegaram aos ouvidos de D. José Ferrão de Carvalho Martens e até foram motivo de conversa e de reflexão. Sendo assim, o prelado penetrava num campo estético de onde emanavam orientações que influenciaram as soluções arquitetónicas e decorativas do seu tempo, basicamente estruturadas pelos repertórios do estilo gótico e da arte manuelina. Tratava-se de um alarde reinol de prestígio que, a par com outras fábricas, se vinha evidenciando nos trabalhos desenvolvidos nos Jerónimos desde o tempo de João Colson e continuados pelos cenógrafos Rambois e Cinatti.
Embora os pormenores da seleção sejam ignorados, era claro que os preceitos neogóticos eram muito apreciados pela arte religiosa e prolongados nas capelas tumulares dos cemitérios portugueses. Por conseguinte, nesta atmosfera artística não causa grande admiração que a escolha do arquiteto da nova catedral bragançana tivesse recaído em José Maria de Nepomuceno (1836-1895), que desde 1865 vinha desenvolvendo atividades no Ministério das Obras Públicas.

Título: Bragança na Época Contemporânea (1820-2012)
Edição: Câmara Municipal de Bragança
Investigação: CEPESE – Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade
Coordenação: Fernando de Sousa

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