| A enóloga Sandra Tavares mostra as vinhas onde nasceu o Pintas, o vinho mais conhecido da Wine & Soul FILIPE PAIVA / NFACTOS |
Há vinhos capazes de guardar a sabedoria de outros tempos. O Pintas é seguramente um deles e, não por acaso, tornou-se a marca icónica da Wine & Soul, do casal de enólogos Sandra Tavares e Jorge Serôdio Borges. A visita aos dois hectares e meio de vinha onde foram dados os primeiros passos, em 2001, é ponto obrigatório do roteiro enoturístico agora lançado pela empresa, como resposta à imensa procura. “Esta era a zona onde fazia sentido fixarmo-nos, pelo tipo de vinhos que queríamos fazer, com vinhas velhas e uma grande variedade de castas”, explica Sandra, enquanto nos conduz de jipe, desde Vale de Mendiz, aldeia duriense no concelho de Alijó, onde funciona a adega, até à propriedade, a poucos quilómetros. A 453 metros de altitude, a sentir uma leve brisa a atenuar o calor abrasador de agosto, percebe-se como este terroir garante uma frescura especial aos vinhos. A elevada inclinação do terreno, com exposição solar garantida durante o dia e sem sombras entre parcelas, também torna possível uma maturação homogénea das uvas. Sem pressas, Sandra transmite aos visitantes a riqueza desta vinha: “Foi um achado, permitiu criar um vinho muito especial.”
| A adega da Wine & Soul, com um terraço sobre o vale do Pinhão, fica situada na aldeia de Vale de Mendiz FILIPE PAIVA / NFACTOS |
O atendimento sem cassetes a debitar histórias é fundamental para a Wine & Soul, uma empresa pequena, espelho de uma geração de enólogos que, entre finais do século XX e inícios do século XXI, transformou a produção de vinhos do Douro. “A Sandra e o Jorge foram pioneiros a trazer uma visibilidade ao Douro, uma região apaixonante que temos de celebrar e de divulgar da melhor forma, sobretudo com bons vinhos”, descreve Paula Silva, a responsável pelo enoturismo. “Recebemos turistas do mundo inteiro, consumidores muito informados e não simples curiosos”, acrescenta, que se interessam pela identidade do projeto e querem saber, ao pormenor, como alcançaram esta reputação.
| Na sala de visitas realizam-se as provas dos vinhos FILIPE PAIVA / NFACTOS |
Ao longo da visita à adega, edifício de xisto e granito, caiado de branco, no centro de Vale de Mendiz, Sandra Tavares fala da crença numa vinificação muito tradicional, “com intervenções mínimas, para garantir a identidade da vinha e, ainda, com a pisa a pé das uvas, feita em lagares de granito”. Já na sala de visitas, com um terraço sobre o vale do Pinhão, realizam-se as provas dos vinhos, de um catálogo que integra o célebre Pintas, mas também o Pintas Character, o Pintas Porto Vintage, o Guru e a Quinta da Manoella Vinhas Velhas. Um contributo para a perceção das particularidades de cada néctar.
Em nome da família
Após muitas curvas e contracurvas, chega-se ao Pinhão. Colada ao centro da vila está a Quinta do Bomfim, propriedade da Symington Family Estates, por onde passaram, em 2018, cerca de 20 500 visitantes. No edifício de traça antiga dedicado ao enoturismo, aberto em 2015, um pequeno museu conta como a história da família se confunde com a da região, desde que o escocês Andrew James Symington chegou ao Douro, em 1882. Um território fustigado por cheias, pragas e pestes, onde apenas os resilientes persistem. “Não se vem para o Douro para enriquecer, tem de haver um apego e uma paixão por esta região, com uma das mais baixas taxas de produção do mundo”, são as palavras que António Esteves, o nosso guia, reteve e transmite do discurso da família. Atualmente, tanto a quarta como a quinta geração gerem em conjunto quatro casas históricas de vinho do Porto: Graham’s, Dow’s, Warre’s e Cockburn’s. Têm cerca de dois mil hectares de propriedades, sendo a Quinta do Bomfim uma das mais emblemáticas e, também pela sua localização, a mais adequada para receber visitas.
| A varanda sobre o Douro da Quinta do Bomfim, no Pinhão FILIPE PAIVA / NFACTOS |
Durante os 45 minutos de passeio, os guias procuram adequar a informação, desde a vinificação às particularidades do terroir, de forma a agradar a leigos e a especialistas. O percurso passa pela adega com lagar robótico (durante as vindimas, assiste-se ao processo), pela antiga cave construída em 1896, com imponentes e centenários tonéis, e termina na sala de provas, com diferentes opções à disposição. Quem não pretenda fazer a visita, mas não queira deixar de provar alguns vinhos, tem agora a Sala da Fonte, toda envidraçada para poder apreciar a vista sobre o rio. Há também a possibilidade de, por marcação, se fazer um piquenique no terraço da Casa dos Ecos, no meio das vinhas, tendo o silêncio como companhia, ou, se o calor desaconselhar a caminhada de 20 minutos, no terraço do centro de visitas. Dentro do cesto de vime, há queijos portugueses, bolinhas de alheira com sementes de sésamo e uma empada, para acompanhar com Altano, o vinho Douro DOC produzido pela Symington. Experiências que farão dos visitantes, como diz António Esteves, o nosso guia, “os nossos melhores embaixadores”.
Na margem esquerda do rio
Saltemos agora para Ervedosa do Douro, na margem esquerda do rio. A edição 2019 do concurso Tomate Coração de Boi do Douro, na Quinta de Ventozelo, no passado dia 23, serviu como saboroso e aromático teste ao novo projeto hoteleiro do grupo Gran Cruz, líder nos vinhos do Porto. A abertura do hotel rural, de quatro estrelas, está prevista apenas para outubro, mas já foi possível espreitar o património de uma das maiores e mais antigas propriedades da região, com registos que remontam a 1500. Manter o espírito deste lugar foi o propósito da reabilitação arquitetónica, assinada por Carlos Santelmo. Os 29 quartos estão espalhados por sete edifícios preexistentes, com tipologias muito distintas, desde o reaproveitamento dos balões de armazenamento do vinho à recuperação dos cardanhos onde, outrora, ficavam instalados os trabalhadores. “Queremos que os hóspedes tenham uma vivência autêntica; eles não vêm para um simples hotel, vêm para uma quinta, participar do seu quotidiano”, sublinha Jorge Dias, diretor-geral da Gran Cruz. Sem descurar o conforto e as exigências que o turismo obriga.
| As visitas guiadas à Quinta, propriedade da Symington Family Estates, terminam com provas de vinhos FILIPE PAIVA / NFACTOS |
A tirar partido da riqueza e da variedade de Ventozelo, o centro interpretativo, aberto a não hóspedes, conta a história do Douro, em experiências multissensoriais. Pelos 400 hectares da quinta (dos quais 200 de vinha, 150 de mata mediterrânica e 20 de olival), há sete percursos pedestres sinalizados que lhe permitem usufruir deste ecossistema único, com recurso a audioguias. “Queremos dar liberdade às pessoas para fazerem a visita ao seu ritmo”, sustenta Jorge Dias. Haverá, ainda, um programa cinegético, com caça ao javali devidamente controlada por especialistas. O restaurante Cantina do Ventozelo, com consultadoria do chefe Miguel Castro e Silva, será outra das atrações, ao explorar a autenticidade da gastronomia do Douro, com produtos locais e sazonais – do cabrito ao tomate-coração-de-boi, dos vinhos ao azeite.
De varanda em varanda
Os terraços de xisto onde estão implantados os vinhedos marcam a paisagem protegida da região demarcada do Douro. Mas falemos agora de outro tipo de terraços, daqueles onde os visitantes podem usufruir de uma vista única, de copo de vinho na mão e a saborear uns petiscos. A Quinta das Carvalhas, também em Ervedosa do Douro, orgulha-se do estatuto de propriedade principal da Real Companhia Velha e, desde há uns anos, tem vindo a fazer melhorias para receber os visitantes. A construção de estradas, de muros, de canteiros de flores e de jardins (inclusive, um de inspiração japonesa) permite, hoje, percorrer os 515 hectares da propriedade com outro conforto e deleite. Este verão, a novidade é o Carvalhas Terrace, uma varanda sobre o rio, com 80 lugares, com a ponte metálica do Pinhão à espreita, onde podem decorrer as provas do imenso portefólio desta casa com 260 anos de existência – um complemento à sala de provas e loja, ali próxima, e à antiga ruína onde já decorriam provas ao ar livre, nas vinhas de montanha. Da restante oferta enoturística da Quinta das Carvalhas, destaque-se a Vintage Tour, conduzida por Álvaro Martinho, o agrónomo responsável pela viticultura, assumidamente apaixonado pelo seu trabalho e por este terroir, sobre o qual tanto gosta de falar. Uma visita para se fazer sem pressas.
| Na loja vendem-se os produtos das quatro casas históricas de vinho do Porto que compõem o grupo Symington: Graham’s, Dow’s, Warre’s e Cockburn’s FILIPE PAIVA/NFACTOS |
O que não falta na região são pessoas que se entregam com afinco à sua divulgação. Este é também o caso de Sophia Bergqvist, coproprietária e gestora da Quinta de la Rosa, do outro lado do rio, no Pinhão. No trabalho, marcado pelos afetos, preserva as memórias dos antepassados, cuja presença no Douro remonta a 1815. O enoturismo tem crescido como um labirinto à volta da quinta, sem interferir no trabalho vitivinícola, primeiro com visitas e provas, a seguir com alojamento (têm atualmente 21 quartos) e depois com restauração. Recentemente, surgiu o Tim’s Terrace, em homenagem a Tim Bergqvist, o seu pai (falecido há um ano) – também o restaurante Cozinha da Clara, aberto em 2017, já ostentava o nome da sua avó. Ambos os restaurantes não se ficaram pela mera evocação e têm muito das personalidades a que estão ligados. No terraço, optou-se por um registo mais informal e descontraído, com refeições ao ar livre, como era do gosto de Tim. Ao almoço, servem-se pizzas e petiscos, idealizados por Kit Weaver, filho de Sophia Bergqvist; às terças-feiras e aos sábados, ao jantar (ou sob marcação), acende-se o churrasco sob os comandos de Pedro Cardoso. O chefe está também à frente do Cozinha da Clara, com uma gastronomia de base regional, que privilegia os produtos locais e sazonais, inspirada no livro de receitas da avó de Sophia.
| Na Quinta de la Rosa, além do restaurante Cozinha da Clara, nasceu agora o Tim's Terrace DR |
Com abertura prevista para 10 de setembro estava o centro de visitas da Quinta de S. Luiz, no concelho de Tabuaço. A mais emblemática propriedade do grupo Sogevinus – que detém marcas como Cálem, Burmester, Kopke e Barros – foi a escolhida para a estreia enoturística na região demarcada, em complemento às caves de Vila Nova de Gaia. Mais uma vez, procurou-se tirar partido da envolvente para se instalar o Terraço S. Luiz, descrito por Maria Manuel Barros, diretora de turismo da Sogevinus, como “o melhor camarote do Douro”, onde se realizarão as provas de vinhos, no final das visitas. O circuito passa pela adega, pela casa do alambique, onde se produzia a aguardente bagaceira, pela capela de Santa Quitéria, envolta em lendas, pela vinha da Romilã, um cultivo recente a imitar a vinha tradicional em bardos, e pela loja. “Este é um sítio de produção de vinhos, não é um museu, e nós queremos que os visitantes sintam isso”, diz Maria Manuel Barros. No futuro, planeiam organizar almoços, piqueniques nas vinhas e participação nas vindimas. Para que o visitante possa acompanhar todo o processo de produção – da vinha ao vinho.
| A cesta de piquenique da Quinta do Bomfim FILIPE PAIVA/NFACTOS |
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