Há uma luz que já não volta. É a luz da infância vivida na rua, sem relógio, sem telemóvel, sem medo. Uma luz feita de pó levantado pelas corridas, de joelhos esfolados e de “galos” na cabeça.
Nos anos 50, 60 e ainda 70, a rua era nossa.
Não havia ecrãs a chamar-nos para dentro. Havia mães à janela a chamar-nos pelo nome quando a sopa arrefecia. Havia o sino da igreja a marcar as horas. Havia o ladrar dos cães, o cheiro a lenha queimada no inverno. E, no meio disso tudo, nós, pequenos reis de um império feito de terra batida.
Jogávamos ao pião, com as mãos calejadas de tanto enrolar o cordel. Quem fazia o pião dançar mais tempo era quase um herói. Jogávamos ao berlinde, com estratégias sérias e olhares concentrados, como se o destino do mundo estivesse naquela covinha feita com o calcanhar. A bola, quase sempre gasta ou improvisada, passava de pé em pé. As balizas eram quatro pedras. As regras eram discutidas aos gritos. E nunca havia árbitro, apenas a justiça bruta da amizade e o poder do “dono da bola”
Havia o jogo do “esconde-esconde” ao cair da noite, quando as sombras se tornavam cúmplices e o coração batia mais depressa no escuro. Havia o “arranca trigo”, a bilharda… Havia o “mata”, o elástico, o saltar à corda, o jogo da macaca (coxipé) desenhado a giz no chão ou com um pau a riscar a terra. E quando chovia, inventávamos corridas de barcos de papel nas enxurradas que escorriam pelas ribanceiras.
Não tínhamos muito. Mas tínhamos tudo.
A imaginação era a nossa tecnologia. Um pau era uma espada. Um galho era uma cana de pesca. Um monte de pedras era um castelo. Um campo abandonado era um estádio internacional. E o mundo parecia grande, imenso, mas ao mesmo tempo cabia todo entre a janela do nosso quarto e o fundo da rua.
As tardes de verão eram intermináveis. O calor colava a camisa às costas, mas ninguém queria parar. O pó entrava nos sapatos, nos cabelos, nas narinas, e era quase um perfume de liberdade. No inverno, o frio cortava as mãos, mas bastava correr para aquecer. E se alguém caía, levantava-se com um “não foi nada” e continuava.
Havia uma comunidade discreta que nos protegia. Todo o bairro era um pouco mãe, um pouco pai. Se fazíamos asneira, chegava primeiro aos ouvidos de casa do que nós próprios. Mas também havia uma confiança profunda, podíamos andar soltos. Podíamos explorar. Podíamos crescer.
Hoje, quando passo por algumas dessas ruas, dos antigos bairros, sinto uma pontada profunda. As portas estão fechadas, são condomínios onde as portas se fecham automaticamente. Os poucos largos estão vazios. O silêncio pesa onde antes havia gritos e risos. Muitos amigos partiram para outras cidades, para o estrangeiro, para outras vidas. E aquele tempo ficou suspenso, como uma fotografia desbotada pelo sol.
Tenho saudades. Saudades do som das sandálias a bater no chão. Saudades do “já vou!” gritado da janela. Saudade do sabor do pão com qualquer coisa, comido à pressa para voltar à rua. Saudades de regressar a casa suado, sujo, feliz.
Naquele tempo, não sabíamos que éramos felizes. Éramos apenas livres.
Aprendemos na rua o que nenhum manual ensina. Negociar, perder, ganhar, partilhar, defender-nos, confiar. Aprendemos que a amizade se constrói na disputa e nos sorrisos. Aprendemos que o tempo não era um inimigo, era um campo aberto.
Bragança era pertença. Era identidade. Era o vento a soprar forte no inverno e as aves a cantar no verão. Era a terra dura que nos ensinava resistência. Era o horizonte largo que nos ensinava a sonhar. O desaparecimento dos bairros tirou-nos uma parte muito importante da nossa identidade.
Talvez o mundo tenha mudado demais. Talvez as crianças de hoje tenham outros universos, digitais, rápidos, luminosos. Mas há muita coisa que se perdeu nesta transição. Perdeu-se a lentidão da tarde que nunca mais acabava, a aventura de atravessar a rua inteira só para chamar um amigo, a alegria simples de um jogo que não precisava de bateria.
Quando fecho os olhos, ainda ouço os passos. Ainda vejo as corridas. Ainda sinto o coração a bater no esconde-esconde. E percebo que aquela infância não morreu, vive em mim, como uma chama pequena mas persistente.
As ruas já não são as mesmas. Mas dentro de nós, esses saudosos anos continuam a correr descalços pela terra quente dos Bairros de Bragança.
E talvez seja isso que nos salva do esquecimento. A MEMÓRIA. Uma memória que cheira a pó e a liberdade. Uma memória que tem o som de gargalhadas ao entardecer. Uma memória que nos lembra que, um dia, fomos donos do mundo, mesmo que esse mundo fosse apenas uma rua… a nossa rua e o nosso bairro.

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