Celebrar a cidade é celebrar as suas gentes. E é precisamente aqui que nasce a reflexão, porventura incómoda, mas necessária. Quem deve ser homenageado quando a cidade se homenageia a si própria?
Acompanhei a cerimónia oficial do primeiro ao último minuto. Não discuto critérios mas também não enjeito o meu direito a ter opinião.
É tradição, nestas comemorações, distinguir “personalidades” consideradas merecedoras do reconhecimento coletivo. Porém, importa perguntar, com frontalidade e honestidade, que mérito é esse que se distingue? Que valor extraordinário é celebrado quando se trata de alguém que apenas cumpriu as funções para as quais foi nomeado, eleito ou contratado? Se um gestor público gere, se um político governa, se um dirigente dirige, não estará apenas a cumprir a obrigação que assumiu, remunerada e sustentada pelos impostos de todos?
Não se trata de desvalorizar o trabalho. Pelo contrário. O trabalho é nobre. Mas há uma diferença clara entre cumprir o dever e transcender o dever. Entre fazer o que é exigido e oferecer o que é gratuito. Entre a função e a vocação.
Quem exerce cargos públicos, quem assume responsabilidades políticas ou administrativas, fá-lo, legitimamente, em troca de uma remuneração e de reconhecimento institucional. Se desempenha bem as suas funções, honra o compromisso assumido. Mas isso é o mínimo esperado. É a obrigação. Não é um favor. Não é um gesto de altruísmo. É dever.
Homenagem, essa palavra tão carregada de significado, deveria ser reservada para o que é raro, para o que é desinteressado, para o que nasce do amor à terra e não do estatuto que a terra confere. Homenageado deveria ser o cidadão comum que, sem palco nem manchetes, colabora silenciosamente para elevar o nome de Bragança e da região. Aquele que organiza, que ajuda, que ensina, que cria, que cuida, não porque recebe por isso, mas porque sente que é sua obrigação moral contribuir.
Há homens e mulheres que, depois de cumprirem as suas jornadas de trabalho, ainda encontram energia para dinamizar associações, preservar tradições, apoiar os mais frágeis, promover a cultura, defender o património. Fazem-no sem esperar medalhas, sem discursos, sem fotografia oficial. Fazem-no por amor. E esse amor, sim, é extraordinário.
Na minha ideia só deveria ser homenageado quem nada recebe monetariamente pelo que faz pela sua terra, quem age pro bono, quem oferece tempo, talento e esforço sem contrapartida material. Porque aí há renúncia. Há generosidade. Há uma entrega que ultrapassa o interesse pessoal.
Também me parece sensato refletir sobre a homenagem precoce a crianças ou jovens imberbes. O talento deve ser incentivado, sem dúvida. O mérito deve ser reconhecido. Mas transformar jovens em símbolos públicos pode, por vezes, criar deslumbramento prematuro, pressão excessiva, expectativas difíceis de sustentar. A aprendizagem exige humildade, tempo, erro, crescimento. A exposição pode desviar o foco do essencial. Formar caráter antes de formar celebridades.
Por outro lado, há profissionais liberais que, longe dos holofotes, mantêm portas abertas durante décadas. Gente que atravessa crises económicas, desertificação, dificuldades logísticas, concorrência desigual e, ainda assim, permanece. Médicos, advogados, comerciantes, artesãos, técnicos, empresários de pequena escala. Pessoas que investem na cidade quando outros partem. Que criam emprego. Que prestam serviços de proximidade. Que conhecem pelo nome aqueles que atendem. Que resistem. Essa persistência é uma forma de amor. E esse amor honra Bragança todos os dias.
Celebrar os 562 anos de Bragança deveria ser, acima de tudo, celebrar a fibra moral dos seus habitantes. A cidade não é apenas o seu passado medieval, nem os seus edifícios históricos, nem os cargos institucionais que a governam. A cidade é o povo que acorda cedo no inverno transmontano. É o comerciante que abre a porta mesmo quando a rua está vazia. É o voluntário que organiza eventos culturais. É o vizinho que ajuda o vizinho. É o emigrante que, longe, continua a dizer com orgulho: “Sou de Bragança.”
Se a homenagem pública pretende ser justa, que seja criteriosa. Que distinga o que é excecional do que é obrigatório. Que reconheça o altruísmo antes do cargo. Que celebre a dedicação desinteressada antes do protagonismo institucional.
Uma cidade engrandece-se não apenas pelos títulos que recebeu há 562 anos, mas pelos valores que escolhe honrar hoje.
E talvez a maior homenagem que Bragança possa fazer a si própria seja a de olhar para os seus cidadãos comuns, reconhecer neles a verdadeira nobreza e dizer, com gratidão sincera, são vocês que fazem da cidade um lugar digno de ser celebrado…

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