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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

“A terra fala” e os Homens já não a ouvem.


O vínculo entre o homem e o território é uma relação antiga, profunda e multifacetada, marcada por afetos, memórias, identidades e sustento. Não me refiro apenas à terra física, mas àquela capaz de revelar histórias, culturas e experiências, tornando-se um interlocutor silencioso que narra a trajetória humana. O território não é só um espaço geográfico, é também um espaço simbólico, repleto de significados que se entrelaçam com a existência do ser humano.

Desde os primeiros grupos de humanos, que a relação com o território esteve atrelada à sobrevivência. O homem pré-histórico aprendeu a interpretar os sinais da natureza, a compreender a fertilidade da terra, a perceber os ciclos das estações e a respeitar os limites do espaço que habitava. A terra “falava” por meio dos seus recursos, da sua topografia, dos seus rios e florestas, exigindo do homem uma leitura atenta e cuidadosa. Esse conhecimento era passado oralmente, por gerações, e moldava não apenas a subsistência, mas também as práticas culturais, rituais e espirituais de cada povo.

Com o avanço das civilizações, o vínculo entre o homem e o território tornou-se também uma questão de identidade e pertença. Os povos indígenas, por exemplo, veem a terra como uma extensão de si mesmos, é viva, sagrada e merecedora de respeito. As florestas, os rios e montanhas são recursos, mas também são guardiões de memória e da história. As árvores, as pedras as nascentes têm um significado próprio, uma narrativa que liga o passado, o presente e o futuro. A terra fala por meio dos seus símbolos, transmitindo ensinamentos sobre convivência, cuidado e harmonia com o mundo natural.

No contexto moderno, a relação homem-território é marcada por tensões e conflitos, quase sempre motivados por interesses económicos ou políticos. A exploração desmedida dos recursos naturais, o desmatamento, a urbanização acelerada e o avanço da indústria sobre áreas rurais e selvagens rompem a comunicação que a terra estabelece com os seus habitantes. Quando a terra fala e o homem não ouve, surgem consequências irreversíveis. Degradação ambiental, catástrofes naturais como as que vivemos recentemente, perda de biodiversidade, mudanças climáticas e a erosão de culturas e identidades. A crise ambiental contemporânea evidencia, de forma dramática, que a relação com o território não é apenas utilitária, mas ética e existencial.

Além disso, a terra exerce um papel psicológico e emocional no ser humano. O sentimento de pertença a um lugar, a memória afetiva associada a uma paisagem ou a um espaço específico, molda a identidade individual e coletiva. Cidades, vilas, campos e montanhas guardam lembranças de encontros, conquistas, lutas e perdas. A terra, então, “fala” também por meio da memória, despertando emoções, sentimentos de segurança, nostalgia ou, às vezes, de dor e saudade.

Literatura, música e artes visuais são testemunhos do diálogo entre o homem e o território. Escritores e artistas frequentemente retratam paisagens que refletem histórias de vida, lutas sociais e relações afetivas com o ambiente. Obras literárias mostram que a terra tem voz e que as suas narrativas são essenciais para compreender a experiência humana. Em muitos casos, o território torna-se protagonista, capaz de influenciar decisões, comportamentos e destinos.

Em síntese, “a terra que fala” é uma metáfora potente para refletir sobre a interdependência entre o homem e o espaço que habita. O vínculo não se resume à ocupação física, mas envolve, respeito, memória, identidade e espiritualidade. Ouvir a terra é reconhecer a sua importância como interlocutora, capaz de transmitir lições sobre sustentabilidade, solidariedade e pertença. O desafio contemporâneo consiste em resgatar essa escuta atenta, reconstruindo uma relação harmoniosa que permita ao homem compreender que o seu destino está intimamente ligado ao destino do território que habita.

A terra fala. Cabe ao homem ouvir, interpretar e agir com responsabilidade.

HM
Fevreiro de 2026

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