«1 – Morgado que instituiu o padre BENTO PIRES VARGE e seus irmãos o padre João de Varge e Maria dos Santos, com capela de Nossa Senhora da Penha de França no lugar de Rabal junto á fonte do Vale, limite da povoação( 468) em 27 de Maio de 1696 e o nomearam em seu sobrinho.
2 – Bento de Varge, cidadão de Bragança, capitão de uma tropa da ordenança, que cazou com Francisca de Morais Leite; sem geração.
3 – É hoje [1721-24] administrador Antonio Conçalves Varge, alferes de infantaria, parente mais chegado dentro dos instituidores, que deixaram a clausula, que não tendo o primeiro chamada sucessão, entrasse o parente mais chegado dentro do sexto gráu e faltando em algum tempo a direita sucessão do administrador, havendo parente dentro do sexto gráu sucederá e não o havendo, nomeia a Confraria do Santissimo Sacramento do lugar de Rabal.
Os mesmos instituiram um vinculo para que andasse nos seus parentes até o sexto gráu inclusivé, não por sucessão, mas pelos parentes mais chegados dos instituidores até sexto gráu inclusivé tão somente e que findo o sexto gráu passem logo as fazendas deste vinculo á Confraria do Santo Cristo de S. Vicente de Bragança».
A capela deste morgadio está profanada e pertence por compra aos herdeiros de Martinho Garcia, de Rabal, que fez das campas sepulcrais dos fundadores, nela existentes, degraus de escada na sua casa de habitação, no bairro do Pinheiro!
Na que serve de patamar ainda se vê a seguinte inscrição:
S
D. P. IM.A D
VARGE N
ATVRAL
DA CIDDE
BRAGANC
Q. FLESE
EO.....
Há ainda outra pedra sepulcral a servir de degrau, com vestígios de letras, mas não se percebem.
O padre Bento Pires Varge faleceu em Rabal a 2 de Março de 1707 e foi sepultado na sua capela, como declara o respectivo registo de óbito.
No pavimento da capela-mor da igreja matriz de Rabal existe a seguinte inscrição numa sepultura rasa, de granito, a qual faz recordar o nome do grande épico, e a sua inserção aqui serve para corrigir a lição que Mario Saa, por informação nossa, aponta no Camões no Maranhão, onde, por erro tipográfico, vem mencionado o ano de 1551 em vez de 1651:
S.A
DE IO....
DA FO....
OVRA C....
MOES RE
CTOR DE
RABAL
1651.
Nas partes pontuadas, as letras estão gastas pelo roçar do calçado, mas é fácil a sua reconstituição:
S(epultur)a de Io(ão) da Fo(nt)ovra C(a)moes rector de Rabal (falecido em) 1651.
ANTÓNIO JOSÉ PINHEIRO DE FIGUEIREDO SARMENTO, bacharel, professo na Ordem de Cristo, natural de Rabal, concelho de Bragança era filho do capitão Miguel Pires Pinheiro e de D. Luísa Esteves de Figueiredo.
Neto paterno de Francisco Pires Pinheiro e de D. Isabel Rodrigues.
Neto materno de António Esteves Pinheiro e de D. Domingas de Figueiredo Sarmento.
Assim diz Sanches de Baena(469), mas do próprio processo para «Habilitação da Ordem de Christo» e do seu registo de baptismo nos livros do registo paroquial de Rabal, consta que era filho do capitão Miguel Pires Pinheiro e de D. Luzia Esteves.
Neto paterno de Francisco Pires e de D. Isabel Rodrigues, naturais de Gimonde, concelho de Bragança.
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(468) Museu Regional de Bragança, maço Capelas. Ver Bornes, p. 26.
(469) SANCHES DE BAEENA – Arquivo Heráldico Genealógico, part. 1ª, p. 62.
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Neto materno de Francisco Esteves, de Rabal, e de D.Domingas Rodrigues, natural de Paramo.
Seus pais casaram em Rabal a 9 de Fevereiro de 1749 e na mesma povoação faleceu sua mãe a 5 de Setembro de 1770.
O capitão Miguel Pires Pinheiro devia ter casado segunda vez, pois no registo de óbito do filho, doutor António José Pinheiro de Figueiredo Sarmento (que faleceu em Podence, concelho de Macedo de Cavaleiros, a 3 de Outubro de 1823 (470), e não a 12 de Outubro de 1824, como dizemos em Bouça, pág. 28, guiados pela Resenha das Famílias Titulares e Grandes de Portugal), se diz que tinha na sua companhia sua madrasta Ana Joaquina; que tinha cinco filhos, um dos quais de nome Ezequiel e outro na Ferradosa (casado?) e que tinha propriedades em Cabanelas e um casal em Mirandela.
O doutor António José Pinheiro de Figueiredo Sarmento foi juiz de fora da capitania de Benguela, por despacho de 7 de Maio de 1779; provedor dos defuntos e ausentes da mesma capitania por despacho de 26 do mesmo mês e ano e provedor da fazenda real da mesma, por alvará de 21 do mesmo mês e ano (471).
Teve carta de brasão a 4 de Março de 1796, registada no Cartório da Nobreza, livro V, fol. 118 v., que lhe concede escudo esquartelado com as armas dos Pinheiros, Figueiredos e Sarmentos (472).
Era seu tio o bacharel em direito canónico pela Universidade de Coimbra António Esteves Pinheiro de Figueiredo, natural de Rabal, cavaleiro professo da Ordem de Milícia Dourada do Sacro Palácio Pontifício, desembargador da mesa do despacho Episcopal, examinador sinodal, abade de Podence, na diocese de Bragança; neto de Pedro Esteves, sexto avô materno do autor destas linhas, que, em abono da verdade, declara que seus maiores tinham burguesmente os apelidos de Esteves, ignorando portanto donde vieram os aristocráticos de Figueiredo Sarmento. Seria algum Figueiredo Sarmento, de Bragança, com quem a minha família de Rabal sempre se deu muito e ainda hoje se dá, padrinho dos doutorandos e tomaria os apendículos do padrinho?
No arquivo da igreja paroquial de Podence há um livro que contém os autos de posse dos abades da mesma desde 1631 e diz na parte respectiva:
«António Esteves Pinheiro de Figueiredo, natural de Rabal, foi provido em concurso, pelo Ex.mo e Rev.mo Snr. Bispo, D. Frei Aleixo de Miranda Henriques, no ano de 1759, falecendo a 27 de Abril de 1782. Tomou posse da igreja a 10 de Janeiro de 1759».
Na igreja paroquial de Podence, lado do Evangelho, há um lindo altar em talha dourada, onde hoje (1927) se venera a imagem do Coração de Jesus, mandado fazer por este abade, como declara a seguinte inscrição que nele se lê:
Este altar de S. João o mandou fazer o Rdº Abbº Dr. Antonio Esteves Pinheiro de Figueiredo. No anno de 1781.
Na mesma igreja, lado da Epístola, no altar da Senhora das Dores há um painel, onde se vê pintada (mal) uma figura que o artista quis fazer do abade no leito da agonia, onde se lê: milagre evidentissimo q. fes nossa senhora das dores no RdºAntonio Esteves Pinheiro Figueiredo abbº de Podence o qual stando por instantes sofocandose d’uma apostema que de repente lhe sobrebeu na garganta; por intermedio da divina senhora em menos de meia hora se viu libre do dito perigo socedeu amanhecendo ao dia 6 de dezembro, 1775.
Em 1759 fundou na igreja paroquial de Podence a Confraria de Nossa Senhora das Dores, de que ainda no arquivo paroquial se conserva a bula, concedida pelo geral dos dominicanos em Roma, bem como os estatutos organizados pelo abade (473).
Nos caixões das vestes sagradas da sacristia da igreja paroquial de Baçal depositamos uma tese de direito canónico impressa em 1742 de frente em três planas, em seda vermelha, destinada a véu de cálix, defendida por este abade no quinto ano do seu curso, em Coimbra, dedicada a Maria Santíssima sob os títulos de Senhora da Assunção, do Salvador, do Loreto e a sua mãe Santa Ana.
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(470) Museu Regional de Bragança, Cartório Administrativo, livro 123, fol. 136.
(471) Torre do Tombo, maço 33, nº 13, letra A. Chancelaria de D. Maria I, livro 12, fol. 191 v., livro 13, fol. 310 e 311, livro 54, fol. 198 e livro 80, fol. 208.
(472) SANCHES DE BAENA – Arquivo Heráldico Genealógico, parte 1ª, p. 62.
(473) Ver o volume IV, p. 662, destas Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança.
Ao actual abade de Podence, padre Vicente Carneiro, agradecemos as valiosas notícias que nos forneceu referentes a este seu antecessor.
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MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA

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