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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A tia Bela e o Tio Cuca

Por: Manuel Amaro Mendonça
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")


 A tia Bela e o tio Cuca eram o cheiro a café acabado de fazer na cafeteira e as torradas de pão fresco com manteiga a sério.

Mudaram de casa várias vezes, mas para mim a casa deles será sempre na Avenida do Conde, com a varanda virada para a praça cheia de gente e de carros. Ainda hoje não passo por lá sem olhar para cima, na esperança infantil de dizer adeus à tia Bela.

As minhas memórias mais antigas são dos dias que eu e o meu irmão mais velho lá passámos quando o meu irmão mais novo foi nascer ao hospital. Nós, os mais velhos, tínhamos nascido em casa, mas corria o ano de 1972 e os tempos estavam a mudar.

Os meus tios eram quase como nossos pais e o filho deles, nosso irmão — apenas um pouco mais velho.

A minha tia era austera, para além de carinhosa. As coisas tinham de seguir as suas regras e sabia ser firme sem castigar. O meu tio era o extremo oposto: “trabalho é trabalho, conhaque é conhaque”. Se era o melhor no trabalho, era-o também nas brincadeiras.

O tio Cuca era conhecido assim por toda a família. O seu nome era Manuel e, como brincava com as crianças pequenas dando pequenos encostos de cabeça e dizendo “Cuca”, o epíteto ficou-lhe para sempre.

Eu, nos meus sete anos, já me sentia senhor do meu respeito. Brincadeiras, sim, mas dentro de certos limites. Para alguém como o meu tio e o filho, José Manuel, isso era o terreno ideal para boas risadas. Quando me apanhavam em pijama, desciam-me as calças, deixando-me nu. A raiva e a humilhação deixavam-me furioso. Não me recordo do que lhes gritava, mas de certeza não era nada que uma criança devesse dizer. A minha tia acudia sempre, salvando-me dos meus algozes e admoestando-os por entre as gargalhadas deles.

Havia um poderoso elo que ligava o meu pai à irmã Bela e ao cunhado Manuel. O meu tio fora criado desde muito novo em casa dos meus avós, como um verdadeiro irmão. A mãe dele era prima afastada da minha avó e arranjaram forma de o “rapaz” vir da longínqua Válega, em Ovar, para a cidade, ganhar a vida.

O segundo elo era precisamente Válega, terra natal do tio Cuca e paixão do meu pai. Durante muitos anos, a maior parte das minhas férias grandes foi passada nas terras que Júlio Dinis tão bem retratou.

Também para mim aquela terra se tornou um marco. As corridas até ao ribeiro, o contacto com quem vivia do trabalho do campo e das suas necessidades. Válega era a casa dos meus avós e a liberdade de correr mundo, mas também a casa da mãe do meu tio, o curral das vacas e o corredor de entrada para o pátio, de teto envelhecido, onde as rolas arrolavam o dia inteiro.

Nos passeios em família, eu queria sempre ir com o meu tio na sua Lambretta dos anos 60 ou 70. A minha tia, tenho a certeza, preferia ir no carro com os meus pais. Eu sentia-me um verdadeiro motard, capacete na cabeça, atrás daquele homem que adorava e que respeitava cada linha do código da estrada.

No dia a dia era um trabalhador incansável. Via-o no escritório a organizar livros e pagamentos. Saía de manhã montado na bicicleta, percorria o Porto e arredores, e regressava com os bolsos cheios de dinheiro, recibos e promessas, e as pernas carregadas de quilómetros. O descanso encontrava-o sentado no sofá a ler o jornal. Mais do que a família e o trabalho, só o Ovarense — e depois o Belenenses — lhe ocupavam o coração. Discutia futebol e política como só um bom adepto o faz: observando apenas com um olho.

Nas histórias que contava, alternava entre o jogador pequeno e ladino que fintava adversários e o anti-herói sem físico, mas com boas relações, que mesmo em inferioridade numérica tinha sempre um chiste pronto e alguém que o reconhecia como “o Ovarense” e o salvava da situação.

A minha tia era a fada do lar. A casa estava sempre arrumada e a mesa posta para que o marido almoçasse e saísse de novo sem perder tempo. Por vezes era ríspida e sentia-se desconfortável com as brincadeiras dele em público. Tinha um porte altivo, pouco compatível com o tom jocoso do cônjuge. Só um amor forte, feito de cumplicidade e carinho, conseguia manter inteiro tal mosaico.

Com o passar dos anos, as memórias e o reconhecimento do meu tio foram-se apagando dos seus olhos. A sua figura eternizou-se sentada a ler o jornal, por vezes de cabeça para baixo, respondendo de forma ausente e incoerente.

A tia Bela continuou a comprar-lhe o jornal todos os dias. Desdobrou-se em cuidados, contratando ajuda quando a sua própria vista começou a traí-la. Até ao fim, ele teve ao seu lado a extremosa esposa, cuidando para que nada lhe faltasse.

Quando ele finalmente partiu, restou ela, num pequeno apartamento agora grande demais. Sem o propósito da sua vida, também ela se degradou rapidamente, até já não ser capaz de cuidar de si própria. Em pouco tempo seguiu aquele que fora o homem da sua vida, como acontece em muitos casamentos longos.

Deixou o filho, a nora, a neta e dois bisnetos. Havia uma nova família a florescer, e ela achou que o seu trabalho estava terminado. Cabia agora a outros continuá-lo.

Depois de atiradas as últimas pás de terra, despedi-me mentalmente daqueles que foram pilares da minha infância. Ao sair do cemitério, não consegui evitar um último olhar para a varanda da casa da Avenida do Conde e comprovar que a tia Bela já não estava lá.

By Manuel Amaro Mendonça
22 de Fevereiro, 2026


Manuel Amaro Mendonça
é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
Outros trabalhos estão em projeto, mantenha-se atento às novidades em http://myblog.debaixodosceus.pt/, onde poderá ler alguns dos seus trabalhos, ou visite a página de autor em https://www.debaixodosceus.pt/ 

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