Durante anos, tive pássaros numa gaiola e peixes num aquário. Olhava para eles todos os dias, cuidava da sua alimentação, limpava os espaços em que viviam, tentava oferecer-lhes conforto. No silêncio da noite ou nas pausas da rotina, havia sempre uma sensação inquietante. Nem os pássaros nem os peixes pertenciam àquelas paredes de vidro e metal. A gaiola, por maior e mais ornamentada que fosse, nunca poderia substituir o céu aberto, os galhos que se movem ao sabor do vento, o espaço infinito de um rio onde os peixes poderiam nadar sem limites. A vida que se quer bem não se mede em alimento ou abrigo, mede-se na liberdade de ser, de se poder mover, de existir sem grades ou barreiras que limitem a essência.
Os pássaros, com suas asas feitas para voar, carregam um instinto que nenhuma gaiola pode conter. Bater de asas contra o metal, olhar fixo na porta da gaiola, aquilo não é natural. O canto que ouvimos pode ser ainda mais belo por ser uma forma de resistência, um grito contido de liberdade. E os peixes, mesmo com cores deslumbrantes e movimentos hipnotizantes dentro de um aquário, vivem num mundo diminuto, onde o horizonte é apenas vidro, onde a corrente que sentiriam na natureza nunca passa de uma simulação ligada à eletricidade. O coração de qualquer ser vivo pulsa por liberdade, mesmo quando não pode expressá-la plenamente.
Manter animais em cativeiro é, muitas vezes, fruto de ignorância ou desejo de controle. Eu, ignorante, me confesso. Mas a verdade é dolorosa. O bem-estar de um ser vivo não se resume a sobreviver, trata-se de viver plenamente, de existir em harmonia com a própria natureza. O olhar de um pássaro que nunca voou para além das grades, o nadar de um peixe que nunca sentiu a vastidão de um rio, carregam uma tristeza que nos desafia a refletir sobre as nossas ações. Até eles nos ensinam sobre a grandeza da liberdade, sobre a necessidade de respeitar a vida na sua plenitude.
A Liberdade não pode ser apenas um conceito, a Liberdade é um direito inalienável de todos os seres vivos. Assim como não suportaríamos estar confinados, não podemos esperar que eles se contentem com espaços limitados, mesmo que confortáveis. Cada ser tem um papel na teia da vida, e esse papel é exercido no seu habitat natural, não em gaiolas nas paredes que nos agradam ou em aquários que nos fascinam. Soltar os pássaros para o céu, devolver os peixes ao rio, significa mais do que libertá-los, significa reconhecer a sua dignidade, reconhecer que cada vida tem um valor intrínseco, independentemente do nosso desejo de possuir ou controlar.
Há também uma lição íntima e profunda para nós ao permitir que outros seres vivam livres, aprendemos um pouco sobre empatia, humildade e respeito. Aprendemos que a posse (isto é meu) nem sempre é amor, que cuidar e dizer que se gosta não é controlar, e que a verdadeira ligação com a vida exige reverência pela liberdade. O amor que aprisiona é amor incompleto, o amor que respeita a liberdade é amor pleno. Quando deixamos que os pássaros voem para o céu e que os peixes deslizem nos rios, libertamos também algo em nós, a consciência tranquila de que estamos a respeitar o mundo como ele deveria ser, e não como queremos que ele seja.
A natureza não foi feita para ser exibida em vitrines, a vida não foi feita para ser confinada. E, mesmo com a melhor das intenções, o cativeiro nunca é um lar verdadeiro. A lição que levo comigo, depois de tantos anos a cuidar, o melhor que podia e sabia, de pássaros e peixes, é simples e definitiva. A liberdade é o maior presente que podemos oferecer a qualquer ser vivo, e o respeito por essa liberdade é a medida da nossa humanidade. Devemos aprender a admirar sem possuir, a proteger sem prender, e a honrar cada vida permitindo que ela seja aquilo que nasceu para ser. VIVA e LIVRE!
Bem gostava que este pequeno texto abrisse muitas gaiolas, literais ou simbólicas.

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