Entre Janeiro e Abril de 1709, o continente europeu sofreu vagas de frio polar que paralisaram a vida social e causaram um extraordinário número de vítimas.
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| MONDADORI / ALBUM - A onda de frio que se viveu em 1709 soterrou a Europa sob um manto de neve, como nesta tela de um artista italiano do século XVIII. Castelo Sforzesco, Milão. |
Aconteceu, literalmente, de um dia para o outro. Era véspera de Reis de 1709 e os camponeses franceses, duramente castigados pelas más colheitas, impostos e recrutamentos para a Guerra da Sucessão espanhola, desfrutavam de um mês de Dezembro relativamente suave e benigno. A noite de Reis gelou! Inicialmente, não se estranhou. Era um dia de Inverno. Na manhã seguinte, a Europa inteira estava gelada e assim ficaria durante meses.
Que motivos terão justificado esta anomalia climática? Nos anos anteriores, vários vulcões tinham mostrado actividade, incluindo os das ilhas de Santorini e Elba, o Vesúvio, o Fuji e o Teide, que lançaram enormes quantidades de poeira e cinzas para a atmosfera. Ao mesmo tempo, o Sol sofria o chamado Mínimo de Maunder, durante o qual as manchas solares ficaram reduzidas a uma milésima parte do normal, diminuindo significativamente a emissão de energia solar. A combinação dos dois factores desencadeou a catástrofe. Em todo o caso, o frio atingiu a Europa com uma força sem precedentes, provocando aquele que ficou conhecido como o Inverno mais duro da história do continente.
Os termómetros de Paris demonstram que as temperaturas desceram em poucas horas, de 10ºC para -20ºC. Trinta graus de diferença da noite para a manhã! As pessoas acordavam com os gorros de dormir congelados, as paredes interiores das suas casas humildes geladas e as roupas petrificadas pelo frio. À época não existia qualquer tipo de previsão meteorológica, de maneira que milhares de pessoas sucumbiram à hipotermia antes de poderem tomar qualquer precaução.
Os rios, a rede de canais e até mesmo portos marítimos ficaram bloqueados pelo gelo. A neve fechou os caminhos. No porto antigo de Mar-selha e em diversos pontos dos rios Loire, Ródano e Garonne, o gelo suportava sem problema os peso das carroças carregadas, o que implica uma espessura mínima de 30 centíme-tros. As cidades deixaram de receber comida e os habitantes, desespera-dos, queimaram o escasso mobiliário para se aquecerem. Em Paris, este bloqueio de comunicações prolon-gou-se por três meses. Os teatros fecharam. Os tribunais e o Parlamento suspenderam as suas actividades.
Bebidas congeladas
As pessoas que dispunham de reservas de alimentos descobriram que o frio impedia o seu consumo. O pão, a carne e até as bebidas alcoólicas congelavam: o brandy congela a -6ºC, a sidra a -9ºC, a cerveja a -12ºC e o vinho a -15ºC. Bebidas mais fortes como vodka, whisky ou rum precisam de temperaturas entre -45ºC e -50ºC para solidificar.
A crise climática não respeitou ninguém. As mansões da elite, repletas de grandes janelas, estavam construídas para a ostentação, mas não ofereciam isolamento térmico eficiente. Quanto maior era o palácio, mais complicado era aquecê-lo. Em Versalhes, a duquesa de Orleães, cunhada do rei Luís XIV, escreveu a uma parente em Hanover: “Estou sentada em frente do fogo forte de uma lareira, as portas estão fechadas e cobertas de tapeçarias, as janelas seladas, de forma a poder sentar-me aqui protegida com peles de marta, os pés metidos numa pele de urso e, ainda assim, estou a tremer de frio e a segurar com dificuldade a pena com que te escrevo. Nunca na vida tinha visto um Inverno como este.”
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| Bertrand Rieger / GTRE - O palácio de Versalhes coberto de neve. A brutal e súbita descida das temperaturas afectou inclusivamente palácios e mansões, mal equipados para lidar com o frio. |
A brusca descida das temperaturas levou os troncos das árvores a rebentar com estouros chocantes, como se um lenhador invisível as estivesse a cortar. Os sinos quebravam-se quando eram tocados, pois o metal tornara-se quebradiço a baixas temperaturas. Para muitos camponeses iletrados, tratava-se de um castigo do demónio.
No resto da Europa, a situação era semelhante e até pior. O Tamisa congelou, tal como os canais e o porto de Amsterdão. O mar Báltico solidificou durante quatro meses. Podia atravessar-se a pé ou a cavalo da Dinamarca até à Suécia ou Noruega. Quase todos os rios do Norte e Centro da Europa congelaram. Até as termas de Aachen acabaram por congelar! Carroças com grandes cargas circulavam sobre os lagos suíços, os lobos entravam nas povoações em busca de algo para comer, incluindo os habitantes.
No Adriático, o gelo aprisionou embarcações cujas tripulações morreram de frio e fome. Os venezianos usavam patins de gelo em vez de gôndolas para circular na cidade. Roma e Florença ficaram incomunicáveis devido a intensos nevões. Até a cálida Valência teve gelo suficiente para arruinar as colheitas.
O espectro da fome
Com ligeiras oscilações, as temperaturas permaneceram anormalmente baixas até meados de Abril e, em alguns locais, até Maio, mas a catástrofe ainda não terminara. Frio, fome, inundações e epidemias foram os Quatro Cavaleiros desse Inverno apocalíptico. Com efeito, a neve acumulada derreteu e provocou inundações de dimensão inaudita.
As epidemias não se fizeram esperar. Uma gripe surgira em Roma no Natal de 1708. O frio e a fome favoreceram a expansão da doença até a tornarem uma autêntica pandemia que viria a espalhar-se por quase toda a Europa em 1709 e 1710. Para rematar o desastre, a peste chegou vinda do Império Otomano, via Hungria. Em Sevilha, uma epidemia de peste ou de gripe matou 15 mil pessoas.
O cenário mais assustador para os europeus era a fome. As terríveis vagas de frio tinham deixado um cenário desolador nos campos. O cereal, as videiras, as hortas, as árvores de fruto, os rebanhos… tudo ficou devastado. O abastecimento das cidades ficou em perigo, sobretudo devido à impossibilidade de importar comida de outras povoações, uma vez que todas foram afectadas. Além disso, sucessivas vagas de frio destruíram as colheitas que se esperavam para o Verão seguinte. Tudo isto deu origem a uma escalada dos preços dos cereais que, ao longo de 1709, aumentaram cinco ou seis vezes.
As autoridades reagiram. Em França, Luís XIV organizou distribuições gratuitas de pão e obrigou a aristocracia a abrir cozinhas de beneficência. Também baixou por decreto o preço do pão para que os pobres o pudessem comprar. Ordenou que todos declarassem a quantidade de cereal armazenada para evitar os açambarcamentos e enviou inspectores para assegurar que a ordem era cumprida. Até mandou fundir o seu serviço de jantar de ouro para conseguir reunir fundos.
Um balanço terrível
Nem assim se evitaram os episódios de violência. Os camponeses, reduzidos ao consumo de sopa de urtigas e fetos, juntavam-se em bandos para assaltar padarias ou atacar transportes de cereal para evitar que este saísse da sua comarca. Em Paris, um surto de motins em Agosto saldou-se na morte de oito pessoas e em vinte feridos.
É difícil medir o impacte demográfico do Inverno de 1709. Em França, nos três primeiros meses do ano, morreram mais 100 mil do que num ano normal e, ao longo de 1709 e 1710, registou-se um total de 2,14 milhões de mortes em oposição a 1,33 milhões de nascimentos. Por outras palavras, o território perdeu então 3,5% da população. Não há dúvida de que na Europa do Antigo Regime um mau Inverno podia ter trágicas consequências para milhões de pessoas.





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