(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Vem isto a propósito de (mais) uma excelsa partilha do nosso insigne criador e administrador desta magnífica página. Página que, vezes poucas (felizmente), também tem os seus momentos com algumas derivações menos recomendáveis... Mas isso são contas de outro rosário… E não estou com disposição para desfiar os seu diversos «mistérios», sejam eles «gozosos» ou «dolorosos»… “Que num bêim ó casu’e”...
À partilha retornando, a publicação continha o «original» título, provindo dos estudos do incontornável Abade de Baçal, de «Catálogo de todas as Igrejas […] pelos anos de 1320 e 1321 […]. Ano de 1746». Ou seja, uma lista original da primeira metade do século XIV, «publicada» na primeira metade do… século XVIII (!!!). Isto é, um desfasamento temporal de mais de 400 anos! Embora a dita «lista» seja do tempo de D. Dinis, e até conste dos «Arquivos do Vaticano». Porque à Santa Sé diz respeito… “C’mu quera”…
D. Dinis foi um rei “guitchu c’mó catantchu’e”, que o foi mais do que «Labradore», cognome que não faz jus ao papel primordial que teve. E, veja-se lá, a sua educação foi providenciada por um… Braganção! Mas isso parece ser algo de somenos importância… Nomeadamente no que respeita ao «Catálogo»… Porque o «Catálogo» não surgiu por obra e graça do Espírito Santo, e quando surgiu já o «último Braganção», o tal Aio de D. Dinis, que também seria seu Mordomo-mor, não andava a pisar mundos terrenos.
E para que serviu o dito «Catálogo»?… Basicamente, para construir a primeira efectiva Armada Portuguesa. Porque, para o fazer, era necessário «aquilo com que se compram melões». E D. Dinis, à falta de outros recursos, lá enviou uma embaixada com o intuito de convencer o Papa a ceder-lhe uma parte dos avultados rendimentos da Igreja. Com a promessa de que levaria a cabo uma luta contra os «infiéis» que, armados em corsários, tornavam o Mediterrâneo num inferno terreno. Ora, o espírito de «cruzada contra os infiéis» serviu de bom isco para que surgisse uma Bula que concedia à Coroa Portuguesa, por um período determinado, a décima dos rendimentos de todas as igrejas e mosteiros. E assim foi! Para tal sendo necessário o apuramento dos ditos rendimentos. Que é o que consta no dito «Catálogo de todas as Igrejas e Mosteiros», elaborado pelos anos de 1320/1321.
Catálogo esse que nos dá uma magnífica visão acerca da realidade territorial e paroquial das nossas terras que, então, estavam divididas em… «Terras». E tínhamos as «de Bragança», as «de Lampaças», as «de Miranda», as «de Vinhais», as «de Ledra», as «da Vilariça» e as «de Freixo». Seria demasiado enfadonho estar aqui a proceder a uma análise às paróquias existentes nessa primeira metade do século XIV, bem como à importância de cada uma delas. No entanto, percebe-se claramente as que existência tinham (e as que existência não tinham…), bem como as «Terras» que eram, paroquialmente (e não só), as mais dinâmicas, claramente se destacando as «de Bragança», as «de Lampaças» e as «de Miranda»… E que relação têm os Almirantes com este «Catálogo»?
Cumprir-se-ão, no início de Fevereiro do próximo ano, 710 anos sobre a nomeação daquele que, equivocadamente, dizem ser o primeiro Almirante de Portugal, o célebre genovês Manuel Pessanha, originalmente Emanuele Pesagno. Genovês esse que fez parte da dita embaixada que convenceu o Papa a conceder uns “tuz’tus’e” a D. Dinis. E que aqui trago pela sua posterior umbilical ligação à História do nosso distrito. À custa dos seus descendentes «Pessanha», ilustre família que tanta marca deixou nestas terras, quer como Governadores Civis, quer como Deputados da Nação. Isto é, desde o primeiro Pessanha, que na nobre Nozelos se instalou, depois passando para Arcas, ramificando a família para Cortiços, instalado se tendo, igualmente, em Bragança. Mas não irei, aqui e agora, contar a História dos Pessanha «bragançanos», descendentes do 2º Almirante do Reino...
Curiosamente, dos dez primeiros Almirantes do Reino, sete eram «Pessanha». E o primeiro, que a «cartilha» faz questão de omitir, até era primo direito do tal de «último Braganção». Filho que era de um tio materno desse nosso «último Braganção», também permanentemente omitido pela dita «cartilha». E os restantes dois, o 6º Conde de Barcelos e o 1º Conde de Vila Real, eram… «Bragançãos»! Ou seja, eram directos descendentes do… «último Braganção»! E, como tal, do conhecidíssimo Fernão Mendes de Bragança, «o Bravo»! Mas a «cartilha» (e não só…) quer lá saber da umbilical ligação dos dez primeiros Almirantes do Reino (!!!) a terras bragançanas?…
E nós, os que carregamos «sangue bragançano», quereremos saber alguma coisa? Quereremos saber do facto de que «mais de metade da História de Portugal, tal como a conhecemos, não existiria sem sangue bragançano»? Quereremos saber que o Grande D. Dinis foi educado por um dos nossos? Quereremos saber que os nossos antepassados também contribuíram, com os seus suor e dinheiro, para a primeira Armada do Reino? Quereremos saber que o 6º Conde de Barcelos e o 1º Conde de Vila Real, Almirantes do Reino que também foram, eram dois dos nossos? Ou persistiremos nestas tacanhez e mesquinhez que nos vão tornando cada vez mais “piquerrutchus’e”?…
Rui Rendeiro Sousa – Doutorado «em amor à terra», com mestrado «em essência», pós-graduações «em tcharro falar», e licenciatura «em genuinidade». É professor de «inusitada paixão» ao bragançano distrito, em particular, a Macedo de Cavaleiros, terra que o viu nascer e crescer.
Investigador das nossas terras, das suas história, linguística, etnografia, etnologia, genética, e de tudo mais o que houver, há mais de três décadas.
Colabora, há bastantes anos, com jornais e revistas, bem como com canais televisivos, nos quais já participou em diversos programas, sendo autor de alguns, sempre tendo como mote a região bragançana.
É autor de mais de quatro dezenas de livros sobre a história das freguesias do concelho de Macedo de Cavaleiros.
E mais “alguas cousas que num são pr’áqui tchamadas”.


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